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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
A abertura da Copa de 2026 reuniu, algo perto de um bilhão e duzentos milhões de pessoas diante de uma tela. É a maior audiência já registrada para um evento esportivo, quase dez vezes o público do último Super Bowl, e a FIFA projeta que o torneio inteiro chegará a seis bilhões de visualizações somando jogos, internet e redes. Vale refletir um pouco sobre esse número antes de seguir adiante. Cada uma daquelas pessoas, do torcedor de arquibancada ao senhor que só liga a televisão de quatro em quatro anos, sabe exatamente quem deveria estar em campo. Um bilhão de espectadores é, na prática, um bilhão de técnicos.
E aqui mora um paradoxo. Diante de um público desse tamanho, agradar a todos é impossível. Desagradar a todos, ao contrário, é perfeitamente viável. Basta uma escolha ruim, um cartão vermelho, uma partida apagada, um gol contra, ou a que mais enfurece o torcedor... um herói no banco. Pois o mundo do "e se" é um mundo onde não existem erros ou equívocos, e com torcedores em sua grande maioria se orientando apenas pelo resultado, esse tal mundo hipotético era sem duvida uma óbvia e maravilhosa escolha.
Carlo Ancelotti, o italiano que comanda a seleção brasileira, levou Endrick entre os seus vinte e seis nomes. O atacante de dezenove anos embarcou para os Estados Unidos e treina com o grupo. Depois de um empate sem brilho contra Marrocos na estreia, num jogo morno, o país amanheceu pedindo a mesma coisa: ponha o garoto para jogar. E aqui deixo intencionalmente de fora as interjeições de indignação no fim do pedido, pois a mais leve delas é a palavra "inferno".
No começo, é um comentário aqui, um vídeo curto ali, um locutor que cutuca no intervalo. Depois a frase se solta, ganha corpo, viraliza e vira piada e meme. Em poucas horas, o que era o palpite de alguns milhares passa a soar como a vontade de um povo inteiro. As redes têm essa física curiosa: o grito de poucos, repetido o suficiente, vira eco, e o eco vira consenso, pois se fulano disse e fulano sabe mais do que eu, bem, acho que fulano está certo. Quase ninguém parou para conferir se o consenso estava correto. Pois se há indignação tem que ser verdade né?. Veja por exemplo como é essa força trabalhando. A coletiva em que Ancelotti anunciou a convocação reuniu quase setecentos jornalistas credenciados de vários países, prova de que cada palavra sairia dali multiplicada antes do fim da tarde.
Nesse radar, vamos usar o exemplo mais latente, por que Endrick, entre tantos jovens promissores, virou o pedido nacional? Joseph Campbell, o estudioso americano de mitologia comparada, descreveu em "O Herói de Mil Faces" aquilo que batizou de jornada do herói: o roteiro secreto que se repete de Homero aos últimos filmes de aventura. Um jovem comum recebe um chamado, atravessa uma provação, beira o fracasso e retorna mudado pela experiência. É a estrutura por trás de quase toda história que nos prende do início ao fim.
A trajetória do garoto Endrick encaixa nesse molde com uma precisão de Hollywood. Saiu do Palmeiras com 17 anos coberto de expectativa, numa contratação humildemente milionária, 72 milhões de euros. Foi para o Real Madrid, amaciou no banco, sofreu uma lesão séria na coxa que o afastou meio ano dos gramados.
Queria ir a copa, por isso preferiu sair emprestado a um clube francês, aonde teria espaço e oportunidade que não teve no maior clube do mundo, voltou a marcar com regularidade, ressurgiu e com ele a esperança de um novo craque para a nação. Não à toa muitos já o chamavam de novo Pelé antes mesmo de ele firmar um lugar.
A torcida, portanto, não está apenas torcendo por um atacante. Está torcendo pelo terceiro ato de um filme que conhece de cor, aquele em que o herói ferido retorna para a partida decisiva. E quando a narrativa é forte assim, ela passa por cima de planilha, de minutagem e de tática. Vivemos, dizem alguns, numa era de pós-verdade, em que aquilo que se sente costuma pesar mais do que aquilo que se mede. No estádio, esse fenômeno é antigo. O coração sempre escalou primeiro.
Deixe a multidão à mercê da própria confiança, e assim chegamos ao lugar mais solitário do esporte: o banco do treinador. Ele decide sob um bilhão de olhos, e a decisão só será julgada depois, pelo resultado, nunca pela intenção que a moveu. Se Endrick entra e brilha, o técnico foi pressionado e teimou até quase tarde demais. Se entra e erra, foi precipitado. Se não entra e o time vence, ninguém lembra do assunto no dia seguinte. Se não entra e o time perde, foi covarde. As quatro portas abrem para o mesmo corredor de cobrança. O preço é muito grande, mas o salário também, mesmo que dinheiro não compre paz.
Há ainda a infodemia que cerca qualquer decisão hoje, a enxurrada de opiniões, recortes e números soltos que chega sempre mais rápido do que a capacidade de digeri-los. No meio desse barulho, o cancelamento de um treinador pode começar antes mesmo do apito inicial. A escolha vira tema antes de virar jogada, e o veredito é proferido antes da prova.
A ironia final é que o técnico pode muito bem estar certo. Ou pode não estar. O ponto desta crônica não é defender Ancelotti nem o garoto. É observar que, com plateia suficiente, a pergunta deixa de ser quem tem razão e passa a ser quem grita mais alto. E gritar, todos nós sabemos, é bem mais fácil do que acertar.
Para quem lidera equipes e precisa tomar decisões impopulares no trabalho, a cadeira de Ancelotti é familiar. Quanto maior a plateia, maior a tentação de decidir para a torcida em lugar de decidir para o jogo. Vale separar as duas coisas antes de cada escolha e aceitar que a aprovação, quando vier, só chega depois do placar.
Para quem acompanha o noticiário e gosta de entender o que move uma multidão, observe como uma opinião de minoria se converte em "vontade geral". O mesmo mecanismo que escala um garoto na seleção movimenta debates bem mais graves para fora das quatro linhas.
Para quem às vezes se pega cobrando e depois se pergunta se pegou pesado, não existe culpa em palpitar. Reconhecer a diferença entre achar e saber já funciona como um descanso. Boa parte das nossas certezas convive, em paz, com uma generosa dose de chute.
No fim, a partida decide menos do que a gente imagina. Um bilhão de pessoas ao redor do mundo vão seguir escalando o time do coração, e o treinador vai seguir escalando o time possível. Entre um e outro permanece a velha distância entre torcer e entender. Ela não precisa ser resolvida. Ser reconhecida deve bastar.
Dito tudo isso, espero que o Endrick jogue hoje.
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