A aliança de Trump mira facções brasileiras sem o Brasil - Resenha crítica - 12min Originals
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A aliança de Trump mira facções brasileiras sem o Brasil - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O que é o Escudo das Américas

O Escudo das Américas é uma coalizão de segurança criada em março de 2026 por iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante um encontro de líderes na Flórida, realizado em um resort do próprio Trump. Reúne governos da América Latina e do Caribe alinhados ideologicamente a ele e tem como foco declarado o combate ao narcotráfico, sob o argumento de que as drogas que abastecem o mercado americano atravessam o continente pelas mãos de grupos criminosos organizados. O grupo também é chamado de Coalizão das Américas contra os Cartéis.

Na prática, funciona por compartilhamento de inteligência e operações militares conjuntas, num modelo inspirado nas ações americanas contra embarcações suspeitas no Caribe e no Pacífico. Colômbia, Equador e Paraguai já concordaram em permitir o estacionamento de tropas americanas em seu território, segundo a CNN Brasil, e outros países da região estariam negociando acordos parecidos. A aliança nasceu com doze integrantes e cresceu conforme governos de direita chegaram ao poder na região, caso de Colômbia, Peru e Chile.

O Brasil nunca esteve dentro. Lula não foi convidado para a reunião de fundação, assim como não foram convidados representantes de México e Venezuela. É nessa moldura que entra o anúncio desta semana.

O que os quinze países assinaram contra PCC e CV

Na terça-feira (22/9), à margem da 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, os líderes do grupo se reuniram e divulgaram uma declaração conjunta, publicada pelo Departamento de Estado americano. Assinam o texto os Estados Unidos e catorze países da América Latina e do Caribe: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

O documento afirma reconhecer nas "organizações narcoterroristas transnacionais" uma "ameaça imediata e universalmente compartilhada" no hemisfério e anuncia a primeira ação conjunta do grupo, dirigida a 24 organizações. Entre elas estão o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, ao lado da Mara Salvatrucha, do Tren de Aragua, dos principais cartéis mexicanos, do ELN e das dissidências das FARC na Colômbia e do Sendero Luminoso, no Peru.

As medidas anunciadas são congelamento de ativos, restrições de imigração e de visto para membros, associados e apoiadores dessas organizações, e responsabilização criminal de quem, conscientemente, fornecer apoio material ou logístico a elas. O próprio texto ressalva que cada país aplicará o pacote conforme a sua legislação e suas obrigações internacionais, o que aproxima a declaração de um memorando de intenções, como descreveu a Folha de S.Paulo.

Há um segundo passo previsto. Os signatários pretendem pedir formalmente ao presidente do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos uma reunião de consulta para criar um Órgão de Consulta com base nos artigos 6 e 13 do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, de 1947, o Tratado do Rio. Trata-se de um pacto de defesa coletiva das Américas segundo o qual um ataque contra um de seus membros é considerado ataque contra todos. Seria ele o mecanismo capaz de transformar a declaração de intenções em ação coletiva. O Brasil é signatário do Tratado do Rio, embora não integre o Escudo.

A iniciativa partiu do próprio Trump durante o encontro. "Hoje, peço a todas as nações do Escudo das Américas que designem formalmente os narcoterroristas como ameaças comuns à estabilidade e apliquem sanções severas contra todas as 24 organizações terroristas estrangeiras designadas pelos EUA", disse.

Brasil fora da sala, e pego de surpresa

A diplomacia brasileira desconhecia a possibilidade do documento e foi pega de surpresa pelo comunicado, segundo a Folha de S.Paulo. Tudo aconteceu na tarde de terça, depois dos discursos de Lula e Trump na Assembleia Geral. Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse que o governo ainda avaliava os impactos. Outro setor do governo, também sob reserva, minimizou a decisão e disse considerar reduzidos os efeitos colaterais, lembrando que líderes como Javier Milei já chamavam essas organizações de narcoterroristas.

O governo brasileiro rejeita a classificação desde maio deste ano, quando os Estados Unidos incluíram PCC e Comando Vermelho na lista americana de organizações terroristas estrangeiras. Para o Itamaraty, as duas facções são grupos voltados ao lucro pelo tráfico, e não organizações com motivação ideológica, característica tradicionalmente associada ao terrorismo. A lei brasileira define terrorismo pela prática de atos violentos por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião. A avaliação oficial é de que a designação pode ferir a soberania nacional ao abrir espaço para uma atuação americana mais ampla na região.

A objeção não é só brasileira. "Organizações criminosas não são organizações terroristas", disse à Folha Todd Robinson, secretário de Estado adjunto durante o governo Joe Biden, para quem a estratégia está fundamentalmente errada e pode resultar em execuções extrajudiciais.

A ameaça militar por trás do documento

Horas antes do anúncio, no púlpito da ONU, Trump afirmou que os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças contra a América ganhem terreno no hemisfério ocidental e que, "se necessário", usarão seu "poderio militar sem igual". Chamou os cartéis de "Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental" e disse que seus integrantes devem ser mortos, exilados ou detidos. Na reunião do Escudo, foi além e ofereceu ação direta aos aliados: se eles não conseguirem eliminar os grupos, disse, os Estados Unidos farão por eles.

A oferta não é retórica isolada. Há cerca de um ano o Pentágono conduz, com drones e ataques aéreos, uma campanha contra supostas embarcações do narcotráfico no Caribe e no Pacífico, com mais de 200 mortos. Mais de setenta parlamentares de treze países, entre eles duas deputadas brasileiras, assinaram um abaixo-assinado que classifica essas mortes como execuções extrajudiciais e pede o fim imediato dos ataques.

Ao mesmo tempo, Washington redireciona recursos para a região. Em 15 de setembro, o Departamento de Estado notificou o Congresso americano do plano de realocar US$ 52 milhões em verba militar de Tunísia, Eslováquia, Macedônia do Norte e Iraque para Panamá, Peru, Equador e Colômbia, todos ligados à nova arquitetura de segurança. Uma rede de TV americana, ouvindo seis fontes, relatou ainda que os Estados Unidos preparam a transferência de drones MQ-9 Reaper, usados para vigilância e ataques de precisão, para a área do Comando Sul, que abrange a América Latina e o Caribe.

Em seu discurso na ONU, Lula respondeu sem citar os Estados Unidos: "Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime."

O calendário eleitoral brasileiro entra na conta

O primeiro turno da eleição presidencial brasileira é em 4 de outubro, e a segurança pública ocupa lugar central na disputa entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL). A designação americana de maio veio logo após uma visita de Flávio a Trump e a auxiliares como o secretário de Estado Marco Rubio, e o senador afirmou ter pedido pessoalmente ao presidente americano aquela classificação.

Em 15 de setembro, o governo Trump afirmou em relatório enviado ao Congresso americano que o Brasil "falhou em confrontar" PCC e CV e cobrou medidas mais duras. Poucos dias depois, a Folha revelou relatório da Abin que elevou a possibilidade de interferência dos Estados Unidos no pleito brasileiro a "nível de criticidade".

O tema já circula na campanha. Segundo levantamento da Palver sobre o debate digital entre 13 e 20 de setembro, quase um terço das mensagens contrárias a Lula tratava a agenda internacional pela lente do crime organizado, com PCC e Comando Vermelho chamados de narcoterroristas e o Escudo das Américas apresentado como coalizão à qual o Brasil não aderiu. Pesquisa Datafolha de agosto mostrou que metade dos brasileiros acredita que pode haver algum tipo de interferência estrangeira na eleição.

O que fazer com essa informação

O ponto a observar nos próximos dias é a OEA. A declaração só vira ação coletiva se o pedido formal chegar ao presidente do Conselho Permanente e se a reunião de consulta prevista no Tratado do Rio for convocada, com participação em nível ministerial. Dois obstáculos estão postos: o tratado é anterior ao Escudo e está vinculado à OEA, onde Brasil e México costumam se opor a iniciativas de Washington, e há integrantes do próprio Escudo, como Belize e Bolívia, que não são partes do Tratado do Rio. A secretaria-geral da organização é ocupada por Albert Ramdin, chanceler do Suriname eleito com apoio brasileiro.

Vale acompanhar também a reação do Itamaraty, que até agora dizia apenas avaliar o conteúdo do texto, e se o assunto entra na reta final da campanha, inflando o discurso de soberania de Lula ou o de combate ao crime organizado de Flávio Bolsonaro. No terreno prático, os indicadores são o avanço da transferência dos drones para o Comando Sul, a confirmação do repasse dos US$ 52 milhões a vizinhos do Brasil e eventuais novos acordos de estacionamento de tropas americanas na região. Nada disso depende da declaração assinada em Nova York, mas é por aí que se mede se ela terá consequência.

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