A Europa Entrou na Guerra. Ou quase. Ou vai ter que entrar. - Resenha crítica - 12min Originals
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A Europa Entrou na Guerra. Ou quase. Ou vai ter que entrar. - resenha crítica

A Europa Entrou na Guerra. Ou quase. Ou vai ter que entrar. Resenha crítica Inicie seu teste gratuito
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Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

Na sexta-feira, treze de março de dois mil e vinte e seis, um jovem oficial da Marinha francesa chamado Arthur acordou cedo, calçou os tênis e saiu para correr. Fez sete quilômetros em trinta e seis minutos... ritmo respeitável para quem estava correndo em linha reta num espaço de trezentos metros de largura. É que Arthur não estava num parque.

Estava no convés do porta-aviões Charles de Gaulle, o único porta-aviões nuclear já construído fora dos Estados Unidos, a joia da coroa da Marinha francesa. E Arthur, preocupado com o ritmo por quilômetro, esqueceu de desligar o Strava.

Seu perfil era público. O aplicativo transmitiu a localização do navio em tempo quase real: Mediterrâneo oriental, noroeste do Chipre, a cerca de cem quilômetros da costa turca. O jornal Le Monde cruzou os dados com imagens de satélite e confirmou a posição exata do porta-aviões. O Estado-Maior francês reconheceu que a publicação violou as instruções de segurança digital e prometeu "medidas apropriadas". A internet, como sempre, foi menos diplomática. Alguém no TikTok comentou que uma corrida não vale se não for registrada.

Essa história seria apenas engraçada se o Charles de Gaulle estivesse em exercício de rotina. Mas não estava. O porta-aviões havia sido deslocado às pressas do Mar Báltico para o Mediterrâneo no dia três de março, por ordem direta de Emmanuel Macron, depois que drones iranianos atingiram o Chipre... um país membro da União Europeia. A missão era liderar uma operação de escolta naval para navios mercantes no Estreito de Ormuz. E é exatamente nesse ponto que a corrida matinal do Arthur deixa de ser uma piada e vira o sintoma de um problema muito maior. Porque a Europa, que durante três semanas disse que não queria se envolver na guerra dos Estados Unidos contra o Irã, acabou de dar o primeiro passo em direção ao conflito. Meio a contragosto. Meio empurrada. Mas deu.

Para entender como a Europa chegou aqui, a gente precisa voltar ao dia vinte e oito de fevereiro. Foi quando Estados Unidos e Israel lançaram a Operação Epic Fury... ataques coordenados contra o Irã que mataram o líder supremo Ali Khamenei nas primeiras horas e desencadearam uma retaliação massiva. O Irã respondeu com centenas de mísseis e milhares de drones contra embaixadas americanas, instalações militares e infraestrutura de petróleo em toda a região do Golfo. Arábia Saudita, Emirados, Qatar, Kuwait, Bahrein, Iraque, Omã e Jordânia foram atingidos. Bases da OTAN na Turquia tiveram que derrubar drones iranianos.

E então veio o golpe que mudou tudo: o Irã fechou o Estreito de Ormuz.

O Ormuz é um pedaço de água de trinta e quatro quilômetros de largura entre o Irã e Omã. Parece pouco. Mas por ali passam vinte por cento de todo o petróleo do mundo e volumes enormes de gás natural liquefeito. É como se existisse uma única porta ligando a cozinha ao resto da casa, e alguém resolvesse trancá-la. Em dois de março, o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica confirmou oficialmente o fechamento e ameaçou atacar qualquer navio que tentasse atravessar. Pelo menos vinte embarcações foram atingidas desde o início do conflito. Um navio porta-contêineres com bandeira de Malta foi abandonado pela tripulação após ser atingido por um projétil.

O efeito nos mercados foi imediato. O barril de petróleo Brent saltou de setenta e três dólares para mais de cem em menos de duas semanas, chegando a cento e vinte e seis dólares no pico. O preço do gás natural na Europa subiu sessenta por cento. A Agência Internacional de Energia autorizou a maior liberação coordenada de reservas estratégicas da sua história... quatrocentos milhões de barris, o suficiente para cobrir cerca de vinte dias de bloqueio. Mas o problema é que o bloqueio já dura mais de vinte dias.

A Europa sentiu na pele. Na Alemanha, o litro de gasolina saltou de um euro e oitenta e dois para dois euros e sete em duas semanas. Na Espanha, o aumento foi de vinte e sete por cento. Na Irlanda, o diesel chegou a dois euros e trinta centavos. O preço do gás natural holandês, referência europeia, dobrou. Companhias aéreas rerrotearam voos para evitar o Oriente Médio, aumentando custos e tempo de viagem. A bolsa de Londres caiu quase dois por cento numa única sessão.

Mas o problema vai além do preço na bomba. A Europa começou dois mil e vinte e seis com estoques de gás bem mais baixos do que nos anos anteriores: quarenta e seis bilhões de metros cúbicos no fim de fevereiro, contra sessenta bilhões em dois mil e vinte e cinco e setenta e sete bilhões em dois mil e vinte e quatro. Para cumprir a meta europeia de noventa por cento de capacidade até dezembro, o continente precisa injetar quase sessenta bilhões de metros cúbicos de gás nos próximos meses... e agora compete com a Ásia por carregamentos que ficaram mais escassos e mais caros. Onze navios-tanque de gás liquefeito que tinham a Europa como destino já foram desviados para compradores asiáticos.

E na quarta-feira, o Irã atacou o Ras Laffan, no Qatar... a maior instalação de gás natural liquefeito do mundo, responsável por vinte por cento da oferta global. Os danos foram graves. A QatarEnergy disse que vai levar de três a cinco anos para reparar as instalações atingidas, que respondiam por dezessete por cento das exportações da empresa. Um analista da Wood Mackenzie disse que esse ataque alterou fundamentalmente as perspectivas do mercado global de gás.

Foi nesse contexto que Donald Trump começou a pressionar os aliados europeus. Primeiro com pedidos. Depois com ameaças. Trump quer que Europa, Japão, Coreia do Sul e outros países enviem navios de guerra para formar uma coalizão que proteja a passagem de navios comerciais pelo Ormuz. O argumento americano é direto: vinte por cento do petróleo mundial passa por ali, a Europa e a Ásia dependem muito mais dessa rota do que os Estados Unidos, que são autossuficientes em energia.

A resposta europeia, durante quase três semanas, foi um "não" educado com diversos sotaques. O chanceler alemão Friedrich Merz disse que a OTAN é uma aliança de defesa, não uma aliança de intervenção. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer foi claro ao dizer que o Reino Unido não seria arrastado para uma guerra mais ampla. A chefe de política externa da União Europeia, Kaja Kallas, disse que não havia "apetite" para estender a missão naval Aspides, que já opera no Mar Vermelho contra ataques dos Houthis. A Grécia disse que não participaria de operações militares. A Itália disse o mesmo. O ministro polonês sugeriu que os americanos usassem os canais oficiais da OTAN. O ministro francês das Finanças resumiu o sentimento geral ao dizer que a França estaria disposta a fazer algo no Ormuz, desde que não fosse mais uma situação de guerra... que ninguém quer cruzar o Estreito se há risco de mísseis ou drones caindo na cabeça.

A frustração europeia tem uma razão clara. Os europeus não foram consultados antes do ataque ao Irã. Foram informados depois. E agora são cobrados a ajudar a resolver as consequências. Um colunista grego escreveu que os parceiros europeus estão sendo convidados a participar de uma guerra sobre a qual não foram informados e cujos objetivos desconhecem. Um comentarista português disse que muitos na Europa veem a iniciativa americana como uma tentativa de diluir os custos políticos do conflito.

Mas a pressão econômica fez o que a diplomacia não conseguiu. Na quinta-feira, dezenove de março, líderes do Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Holanda, Japão e Canadá emitiram uma declaração conjunta expressando "disposição para contribuir com esforços apropriados para garantir a passagem segura pelo Estreito de Ormuz". A declaração condenou nos "termos mais fortes" os ataques iranianos a embarcações comerciais e à infraestrutura de energia civil, e pediu que o Irã cesse imediatamente ameaças, minas, ataques com drones e mísseis.

Mas o diabo mora nos detalhes. A declaração não compromete nenhum país a enviar navios. Não especifica recursos. Não define prazos. Segundo o Axios, é em grande parte um gesto para aplacar Trump. Nos bastidores, a articulação foi tensa. O Reino Unido passou dias tentando convencer o maior número possível de países ocidentais a assinar. O secretário-geral da OTAN, Marc Rutte, pressionou. Macron inicialmente se opôs a qualquer coalizão que não fosse parte de um acordo pós-guerra com o Irã. Com a oposição francesa, outros europeus também recuaram. Foi só na manhã de quinta-feira que Rutte e Starmer convenceram Macron a levantar seu veto... deixando os detalhes práticos para depois. O Japão entrou na declaração no último minuto.

Ao mesmo tempo, o Reino Unido já deu passos concretos. Enviou oficiais militares ao Comando Central americano em Tampa, na Flórida, para ajudar no planejamento de uma eventual operação conjunta. Dois navios de guerra britânicos foram despachados para a região. A França tem seu porta-aviões no Mediterrâneo oriental, com pelo menos três fragatas e um navio de abastecimento.

Quem defende a participação europeia argumenta que ficar de fora não é uma opção realista. O petróleo e o gás não vão se desbloquear sozinhos. Se o Ormuz ficar fechado por meses, a Europa enfrenta uma crise energética que pode ser tão severa quanto a de dois mil e vinte e dois, quando a invasão russa da Ucrânia mandou os preços para a estratosfera. E dessa vez, os estoques estão mais baixos. A indústria europeia, que já sofre com custos elevados de energia, pode entrar em recessão. Empregos serão perdidos. A inflação, que os europeus achavam que tinham domado, pode voltar com força.

Quem critica essa participação diz que os europeus estariam entrando numa guerra que não pediram, não planejaram e não aprovam. Uma guerra que começou com uma decisão unilateral dos Estados Unidos e Israel. Uma guerra cujos objetivos não estão claros... desarmamento nuclear do Irã? Mudança de regime? Reabertura do Ormuz? Cada uma dessas metas exige um nível diferente de envolvimento militar, e ninguém em Washington ofereceu um cronograma ou uma estratégia de saída. Além disso, há o risco concreto de que navios europeus sejam atacados pelo Irã, transformando uma missão de escolta em combate direto.

Há também uma terceira posição, menos discutida mas cada vez mais presente em Bruxelas. A de que essa crise prova que a Europa precisa acelerar sua independência energética. António Costa, presidente do Conselho Europeu, disse que a melhor maneira de ter previsibilidade sobre energia é aumentar a produção doméstica. A transição para fontes limpas, argumentam seus defensores, não é apenas uma questão climática. É uma questão de segurança nacional. Enquanto a Europa depender de petróleo e gás que passam por gargalos controlados por outros países, estará sempre vulnerável ao próximo conflito que fechar o próximo estreito.

A situação militar no Ormuz, vale dizer, é extraordinariamente complexa. Segundo analistas da Naval News, proteger navios comerciais na travessia exigiria escoltas permanentes com destróieres fornecendo cobertura antiaérea. Na melhor hipótese, seria possível escoltar três ou quatro navios por dia com sete ou oito destróieres. Se um comboio fosse atacado por mísseis ou drones iranianos, a janela de reação seria de segundos. E enquanto as forças iranianas ao longo da costa mantiverem capacidade de ataque por terra, mar e ar, o Estreito continuará sendo um ambiente extremamente perigoso para navegação comercial.

Os americanos já estão conduzindo ataques contra posições anti-navio iranianas ao longo do litoral do Ormuz.

Mas eliminar essa capacidade completamente levaria semanas, talvez meses. E mesmo com a superioridade militar americana, o Irã tem arsenal suficiente para causar danos significativos a qualquer frota que tente forçar passagem.

Enquanto isso, a Rússia observa com atenção. A guerra no Irã já reduziu a capacidade americana de enviar ajuda militar à Ucrânia. O comissário europeu de defesa informou que os custos militares americanos estão sobrecarregados, com escassez de estoques de mísseis essenciais. Analistas temem que Moscou aproveite o momento para intensificar operações contra a Ucrânia. E a alta do petróleo, paradoxalmente, beneficia a Rússia: preços mais altos significam mais receita para financiar sua própria guerra.

A Europa, portanto, está presa entre três pressões simultâneas: a guerra no Irã que ameaça sua energia, a guerra na Ucrânia que ameaça sua segurança, e uma relação transatlântica cada vez mais tensa com um aliado que exige lealdade sem oferecer consulta prévia.

O que fazer com essa informação

Se você é investidor ou trabalha com mercados, a palavra do momento é volatilidade. Petróleo, gás, ações de energia, companhias aéreas, seguros marítimos... tudo está em movimento acelerado. A liberação de reservas estratégicas comprou algum tempo, mas se o Ormuz ficar fechado por mais de dois meses, os analistas projetam um cenário comparável a dois mil e vinte e dois. Posições defensivas, diversificação geográfica e atenção redobrada a setores expostos ao custo de energia são prudentes. Empresas de energia renovável podem se beneficiar, já que cada crise de combustível fóssil reforça o argumento econômico da transição energética.

Se você trabalha com comércio exterior, logística ou abastecimento, os próximos dias são críticos. Rotas alternativas pelo Mar Vermelho existem, mas estão sujeitas a ataques dos Houthis. Oleodutos terrestres na Arábia Saudita e nos Emirados têm capacidade para três a cinco milhões de barris por dia... contra os vinte milhões que passavam pelo Ormuz. Ou seja, cobrem no máximo um quarto da demanda normal. Se sua cadeia depende de fornecedores do Golfo, é hora de mapear alternativas e negociar prazos.

Se você acompanha geopolítica, esse é um momento de reconfiguração de alianças. A Europa está sendo forçada a definir até onde vai sua solidariedade transatlântica quando os custos são reais e a consulta prévia é zero. A declaração conjunta de dezenove de março é um compromisso ambíguo de propósito: forte o suficiente para não irritar Washington, vago o suficiente para não comprometer soldados. Mas essa ambiguidade tem prazo de validade. Se o Ormuz continuar fechado e os preços continuarem subindo, a pressão para agir vai se tornar insuportável.

E se você é cidadão comum, acompanhe o preço do combustível e das contas de energia nos próximos meses. A Europa pode estar entrando num ciclo de alta que afeta tudo: transporte, alimentos, produção industrial, emprego. Governos europeus já começam a estudar subsídios e tetos de preço. Na França, a TotalEnergies limitou os preços de gasolina e diesel até o fim do mês. A Comissão Europeia avalia um teto para o gás. Se você tem flexibilidade para reduzir consumo de energia ou antecipar compras de itens sensíveis a frete, pode ser uma boa hora.

O marinheiro Arthur provavelmente só queria bater seu recorde pessoal no Strava. Mas sem querer, mostrou ao mundo que até os maiores segredos militares da Europa estão a um smartwatch de distância de virarem públicos. E a Europa, que achava que podia assistir a essa guerra de longe, descobriu que a conta da gasolina não respeita fronteiras.

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