A Guerra e os Memes... Como a propaganda virou viral - Resenha crítica - 12min Originals
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A Guerra e os Memes... Como a propaganda virou viral - resenha crítica

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Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

Em março de dois mil e vinte e seis, a conta oficial da Casa Branca nos Estados Unidos publicou um vídeo que foi visto mais de cinquenta e oito milhões de vezes. Não era uma coletiva de imprensa. Não era um pronunciamento presidencial. Era um clipe que começava com uma cena do jogo Call of Duty... passava para imagens reais de caças americanos decolando de porta-aviões, mísseis cruzando o céu e alvos explodindo em câmera lenta... tudo embalado por uma batida pesada de hip hop e uma voz grave repetindo "estamos vencendo essa luta". No canto da tela, aparecia a pontuação de kills do próprio jogo, como se cada explosão real rendesse pontos num placar digital.

Bem-vindo a dois mil e vinte e seis... o ano em que a guerra saiu dos campos de batalha e entrou de vez no feed das redes sociais.

Desde que os Estados Unidos e Israel lançaram ataques conjuntos contra o Irã no final de fevereiro, o mundo assiste a dois conflitos simultâneos. Um deles é travado com mísseis, drones e bloqueios navais. O outro... com memes, vídeos de inteligência artificial e posts virais. E este segundo conflito, que muita gente trata como entretenimento, pode estar moldando a opinião pública global tanto quanto o primeiro.

A máquina americana de memes

O governo Trump transformou a comunicação de guerra numa espécie de show para redes sociais. Além do vídeo com estética de Call of Duty, a Casa Branca publicou outro clipe de quatorze segundos que intercalava explosões militares reais com o personagem Bob Esponja dizendo "quer me ver fazer de novo?" ... esse vídeo sozinho passou de nove milhões de visualizações no X e no TikTok. Houve também postagens usando cenas de Grand Theft Auto com a frase clássica do jogo... antes de cortar para imagens reais de ataques ao Irã. Em outro vídeo, trechos de Top Gun, de filmes de super-heróis e até de animes se misturavam com bombardeios, e terminavam com o áudio de Mortal Kombat... "vitória impecável".

A estratégia tem um público-alvo claro. Kristopher Purcell, que trabalhou na comunicação da Casa Branca durante a preparação para a guerra do Iraque em dois mil e três, disse acreditar que esses vídeos são direcionados a homens jovens... o grupo demográfico em que Trump teve desempenho forte na eleição de dois mil e vinte e quatro. É uma tentativa de vender a guerra para uma geração que cresceu jogando jogos de tiro em primeira pessoa. Purcell chamou isso de "gamificação" do conflito... ou seja, transformar a guerra real numa experiência que se parece com um jogo.

Um funcionário da Casa Branca, sem se identificar, disse ao site Politico uma frase que se tornou quase tão viral quanto os próprios vídeos... "estamos aqui ralando nos memes, cara".

A resposta veio do Irã. E veio com Lego.

Do outro lado, o governo iraniano e grupos ligados a ele responderam com uma estratégia diferente, mas igualmente calculada. Uma empresa chamada Explosive Media, formada por menos de dez pessoas, começou a produzir vídeos animados no estilo das peças de Lego que acumularam centenas de milhões de visualizações ao longo da guerra. Os vídeos mostram versões em miniatura de Trump, de Netanyahu e de líderes iranianos em cenários de combate... com direito a trilha sonora de rap em inglês, com letras que provocam diretamente o presidente americano. Um dos vídeos mais populares mostra um Trump de Lego afundando numa pilha de documentos, enquanto a sigla TACO aparece na tela... um acrônimo criado pelos iranianos para "Trump Always Chickens Out", algo como "Trump sempre amolece".

O fundador da Explosive Media, que aparece apenas em silhueta nas entrevistas, admitiu à BBC que o governo iraniano é "cliente" da empresa. Disse que usa o estilo Lego porque é "uma linguagem universal"... algo que qualquer pessoa no mundo reconhece, independente do idioma.

Especialistas em propaganda apontam que o conhecimento profundo da cultura americana que aparece nesses memes não é acidental. O Irã mantém há décadas programas institucionais para entender o público dos Estados Unidos. Mahsa Alimardani, diretora da organização de direitos humanos WITNESS, explicou que "essa guerra de memes vem de instituições que sabem muito bem o que o público americano conhece e que referências da cultura popular podem atraí-lo". Nancy Snow, acadêmica que escreveu mais de uma dúzia de livros sobre propaganda, resumiu assim... "eles estão usando a cultura popular contra o país número um da cultura popular".

Quando Jesus entrou na briga

Em abril, a guerra de memes ganhou um capítulo que ninguém esperava. Trump publicou no Truth Social uma imagem gerada por inteligência artificial que o mostrava vestido como Jesus... com uma túnica branca e um manto vermelho, uma mão erguida emanando luz, a outra tocando a testa de um homem como se o estivesse curando. No fundo, águias voavam ao lado de caças militares e soldados ascendiam em direção a uma luz celestial. A imagem não tinha legenda.

A reação foi imediata e veio de dentro da própria base de apoio de Trump. A comentarista conservadora Megan Basham chamou a imagem de "blasfêmia ultrajante". A ex-deputada Marjorie Taylor Greene, que já foi uma das aliadas mais fervorosas do presidente, disse que denunciava a publicação e estava "rezando contra isso". O presidente da Câmara, Mike Johnson, um dos maiores apoiadores de Trump no Congresso, disse ter pedido pessoalmente que ele removesse a imagem. Trump apagou a foto no dia seguinte e disse que as pessoas estavam "confusas"... que a imagem o retratava como médico, não como Cristo. O vice-presidente JD Vance chamou de "piada" e disse que Trump removeu porque "reconheceu que muita gente não entendeu o humor".

Dois dias depois, Trump publicou outra imagem mostrando Jesus abraçando-o por trás, com a bandeira americana ao fundo.

A resposta iraniana não demorou. A embaixada do Irã no Tajiquistão publicou no X um vídeo gerado por inteligência artificial que usava a mesma cena original de Trump como Jesus... mas nessa versão, Cristo descia do céu e dava um soco no rosto do presidente, que caía gritando num poço de fogo. O vídeo ultrapassou sete milhões de visualizações em menos de vinte e quatro horas.

O precedente ucraniano

Nada disso surgiu do nada. Se a guerra do Irã é o momento em que os memes se tornaram armamento oficial, o conflito na Ucrânia foi o laboratório onde essa ideia nasceu. Quando a Rússia invadiu em fevereiro de dois mil e vinte e dois, os vídeos com a hashtag Ucrânia no TikTok acumularam quase trinta e sete bilhões de visualizações em apenas três meses. O presidente Zelensky fez algo que nenhum líder de um país em guerra havia feito antes... gravou vídeos no estilo selfie nas ruas escuras de Kiev, provando que não tinha fugido. Construiu uma marca pessoal de proximidade e informalidade que contrastava com a distância institucional de Putin.

O governo ucraniano criou a United24 Media, uma operação de marketing de guerra que usava humor, memes e conteúdo gerado por usuários para manter o conflito no radar do público global. Valentyn Paniuta, que liderou a operação, resumiu a situação... "a Ucrânia enfrentava uma propaganda russa poderosa em vários países, mas não tinha nenhuma mídia internacional. Tivemos que criá-la imediatamente, e nossa única arma era conteúdo viral nas redes sociais". A lógica era pragmática... como o apoio financeiro e militar vinha de democracias ocidentais, era preciso conquistar a simpatia de pessoas comuns nesses países.

Ao mesmo tempo, vídeos falsos de combate feitos com jogos como Arma 3 circularam como se fossem reais. A lenda do "Fantasma de Kiev", um suposto piloto que teria abatido vários aviões russos, se espalhou antes de ser reconhecida como provavelmente fictícia. A propaganda funcionou dos dois lados... e inaugurou uma era em que distinguir informação de entretenimento se tornou quase impossível.

A era da "slopaganda"

Os analistas já têm um nome para o que estamos vivendo... "slopaganda". O termo combina "slop", a palavra em inglês para conteúdo de baixa qualidade gerado por inteligência artificial, com "propaganda". Especialistas em guerra da informação dizem que essa é a nova realidade dos conflitos modernos. A inteligência artificial generativa reduziu o custo de produzir propaganda a quase zero. O que antes exigia equipes de tradutores, editores e cinegrafistas agora pode ser feito por um punhado de pessoas com acesso a ferramentas de IA.

O grande risco não está em cada peça individual de desinformação. Está na capacidade de inundar o ambiente informativo com tantas versões distorcidas da realidade que a própria ideia de verdade compartilhada se dissolve. Pesquisadores do Centro de Ciberdiplomacia descreveram o cenário do conflito com o Irã como "a demonstração mais extensa até agora do que a slopaganda habilitada por IA pode fazer em escala operacional num conflito real". A produção é tão rápida que vídeos de propaganda sobre o cessar-fogo foram publicados antes mesmo dos anúncios oficiais.

Existe também o que os especialistas chamam de "colapso de contexto". Um meme criado como provocação ou piada sai do ambiente em que foi feito e passa a circular em outros contextos... onde pode ser interpretado como informação séria. O resultado é duplamente corrosivo... não só enfraquece a confiança no que é falso, mas também no que é verdadeiro.

O que fazer com essa informação

O cenário que se desenha tem implicações para qualquer pessoa que consome informação pela internet... ou seja, praticamente todo mundo.

Primeiro cenário... se essa tendência se consolidar, e tudo indica que sim, vamos precisar desenvolver uma espécie de "alfabetização de memes". Assim como aprendemos a desconfiar de e-mails pedindo dados bancários, vamos precisar aprender a olhar para um vídeo viral sobre uma guerra e perguntar... quem fez isso, por que, e o que querem que eu sinta ao assistir?

Segundo cenário... para quem investe, empreende ou toma decisões baseadas no noticiário internacional, a slopaganda adiciona uma camada de ruído que dificulta separar o que está realmente acontecendo do que é narrativa fabricada. Preços de petróleo, rotas de comércio, tensões diplomáticas... tudo isso é afetado por percepções públicas que agora podem ser moldadas por um vídeo de Lego com sete milhões de visualizações. Diversificar fontes de informação não é mais opcional, é necessidade.

Terceiro cenário... como cidadãos, precisamos reconhecer que estamos todos dentro do jogo, queiramos ou não. Cada vez que compartilhamos um meme de guerra sem verificar a origem, nos tornamos parte da cadeia de distribuição de propaganda. Isso não significa parar de consumir conteúdo... significa consumir com mais atenção, cruzar fontes e resistir ao impulso de reagir emocionalmente antes de pensar criticamente.

Por fim, vale lembrar que por trás de cada meme viral sobre essa guerra, existem milhares de pessoas reais sofrendo consequências reais. A senadora americana Tammy Duckworth, veterana da Guerra do Iraque que ficou ferida em combate, reagiu aos vídeos da Casa Branca com uma frase direta... "guerra não é um jogo de videogame". A gamificação e a memeficação do conflito podem ser eficientes... mas o preço de transformar a morte em entretenimento ainda estamos começando a entender.

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