A pirâmide invertida - Resenha crítica - Jonathan Wilson
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A pirâmide invertida - resenha crítica

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Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978 1 4091 1111 5

Editora: Seven Dials

Resenha crítica

A pirâmide invertida: A história da tática do futebol

Sabe aquela frustração de assistir seu time perder e ouvir o comentarista decretar que "faltou raça"? Pois é justamente aí que mora a grande mentira do futebol. A derrota raramente nasce da emoção. Ela mora numa matemática invisível: a distância entre as linhas, o metro a mais que um zagueiro recuou, o segundo que um meia demorou para fechar o passe.

Por trás de cada jogada existe um pensamento, uma escola, uma cultura inteira disputando espaço com outra. O futebol que você ama hoje é fruto de quase um século e meio de revoluções silenciosas, em que treinadores transformaram um esporte de pancadaria em um xadrez de altíssima velocidade.

Nas próximas páginas, você vai atravessar essa hélice infinita de invenções. Da Pirâmide vitoriana ao Gegenpressing de Klopp, vai entender por que o domínio do espaço virou a única arma que realmente importa, e como cada geração de gênios precisou ser domada por uma estrutura coletiva para vencer.

Do caos vitoriano à pirâmide escocesa

No começo, o futebol era basicamente uma briga organizada. Nos colégios vitorianos da Inglaterra, vencia quem corria mais, batia mais e driblava sozinho. Passar a bola era visto como coisa de fraco, quase covardia. Até que, em 1872, no primeiro amistoso internacional da história, o Queen's Park escocês fez algo escandaloso contra a Inglaterra: começou a trocar passes.

Os escoceses eram menores e mais leves. Descobriram que mover a bola era mais inteligente do que mover o corpo. Dessa intuição nasceu o primeiro sistema desenhado do mundo, a formação 2-3-5, batizada de "A Pirâmide". Por décadas ela foi o esquema padrão do planeta, com o centro-médio, o camisa 5, atuando como coração pulsante do time, defendendo e armando.

A Pirâmide cruzou oceanos junto com os britânicos. Em Viena, Jimmy Hogan plantou a Escola Danubiana, com passes curtos e pensamento de café literário. Em Buenos Aires e Montevidéu, virou outra coisa: nas ruas estreitas, surgiu "la nuestra", com drible criollo, malícia e gingado. Em 1924, o Uruguai chocou as Olimpíadas com tabelas que o jornalista Gabriel Hanot comparou a um jogo de xadrez com a bola.

A morte da inocência tática

Em 1925, uma mudança aparentemente banal na regra do impedimento jogou uma bomba no jogo. Bastavam dois adversários, não mais três, para validar uma posição. Os gols explodiram. A Pirâmide ruiu. Herbert Chapman, no Arsenal, foi o primeiro a entender a nova matemática: recuou o centro-médio permanentemente para a zaga e inventou o W-M, com um terceiro zagueiro, o stopper, grudado no centroavante adversário. Nascia o futebol pragmático, de baliza invicta e contra-ataque cirúrgico.

Enquanto isso, em Viena, o Wunderteam de Hugo Meisl encantava a Europa com Matthias Sindelar, o "Homem de Papel", um centroavante magro que recuava para armar como um maestro. Era futebol como arte intelectual, gestado nos cafés literários.

Essa arte foi esmagada pela bota da Itália fascista. Vittorio Pozzo criou o "metodo", baseado em marcação individual ferrenha, atletismo brutal e obediência militar. Suas Copas de 1934 e 1938 sepultaram o romantismo austríaco. O treinador, pela primeira vez, virou um calculista frio. A máquina venceria a estética dali em diante.

A desordem soviética e o xeque-mate húngaro

Isolado do mundo, o futebol soviético levou um banho da Seleção Basca em 1937 e percebeu seu atraso. Boris Arkadiev, no Dinamo Moscou, respondeu com algo radical: a "desordem organizada". Seus atacantes trocavam de posição freneticamente, transformando a marcação individual num pesadelo. Em 1945, durante uma excursão à Inglaterra, os jornalistas britânicos, atônitos, batizaram aquele frenesi de toques rápidos de "passovotchka". Foi nesse caldeirão que nasceu, por desespero, a defesa por zona.

Mas o golpe definitivo no orgulho inglês veio da Hungria. Márton Bukovi e Gusztáv Sebes resolveram a falta de um centroavante clássico recuando-o para o meio-campo, criando o embrião do 4-2-4. O zagueiro inglês não sabia se seguia Nándor Hidegkuti até a intermediária ou se ficava parado. Em 1953, em Wembley, a Hungria fez 6 a 3 na Inglaterra com seu "falso nove" antes do termo existir. O sistema engessado britânico tinha sido humilhado, e o mundo viu na televisão.

Carnaval com cinto de segurança

O Brasil sempre soube driblar. O que faltava era estrutura. Influenciados pelo húngaro Béla Guttmann, técnicos como Flávio Costa desenharam o esquema "diagonal" e, depois, o 4-2-4. A introdução da defesa em linha de quatro com marcação por zona fez o que parecia impossível: blindou as costas brasileiras e liberou Pelé e Garrincha para serem geniais sem culpa. O título mundial de 1958 é a prova viva de que a arte só sobrevive quando tem um cinto de segurança bem ajustado por trás.

Enquanto isso, a Inglaterra fazia o caminho oposto e se trancava no orgulho. Stan Cullis transformou o Wolverhampton numa máquina de bolas longas e contato físico. Charles Reep, um ex-comandante da Força Aérea apaixonado por planilhas, anotou cada jogada de cada partida e concluiu, com estatísticas furadas, que a maioria dos gols vinha de três passes ou menos. Essa pseudociência virou desculpa acadêmica para jogar feio. A Inglaterra entrou num casulo do qual demoraria décadas para sair.

A asfixia do espaço

Nos anos 1960, no Dynamo Kyiv, Viktor Maslov inventou silenciosamente o futebol moderno. Aboliu os pontas, povoou o meio-campo e desenhou o 4-4-2 muito antes do Ocidente entender o que era aquilo. Mais importante: criou a pressão sistemática, exigindo que todos os jogadores estrangulassem o espaço do adversário juntos, em bloco. Era o fim do passeio individual em campo.

Do outro lado da Europa, a Suíça de Karl Rappan já tinha plantado o "Ferrolho", um líbero de sobra para times mais fracos anularem rivais maiores. A Itália pegou essa ideia e a levou ao extremo. Nereo Rocco e, sobretudo, Helenio Herrera na Inter de Milão transformaram o Catenaccio numa ideologia cinzenta. Marcadores implacáveis, um líbero atrás de tudo, contra-ataques disparados pelos avanços do lateral Facchetti, e fora de campo retiros longos, guerra psicológica e sombras de doping e suborno. Era o pico da eficácia agressiva e do antijogo, derrubado poeticamente pelo Celtic ofensivo em 1967.

A compressão holandesa e a punição argentina

A Copa de 1958 também humilhou a Argentina, com um 6 a 1 da Tchecoslováquia. O país enterrou "la nuestra" no mesmo dia. Osvaldo Zubeldía, no Estudiantes, ergueu o "anti-fútbol", com obediência brutal, provocação ensaiada e jogadas de bola parada decoradas. Daí em diante, a Argentina viveria dividida entre o idealismo do Menottismo e a frieza metódica do Bilardismo, sempre com um enganche, um camisa 10 tipo Bochini, orquestrando os outros.

Na Holanda, Rinus Michels e Johan Cruyff fizeram algo ainda mais radical com o Ajax: o Futebol Total. No 4-3-3, qualquer um podia fazer qualquer papel. Atacante defendia, lateral atacava, todo mundo girava. O segredo defensivo era a linha de impedimento adiantada e a pressão alta, comprimindo o campo a uma faixa minúscula quando o rival tinha a bola. O campo virou elástico: imenso na posse, sufocante na recuperação. O meia armador parado tinha acabado de receber a sentença de morte.

Quando o computador vence a poesia

Valeriy Lobanovskyi, também no Dynamo Kyiv, levou tudo isso a um patamar quase cibernético. Para ele, futebol era uma matriz matemática de 22 elementos, e cada jogador devia executar cerca de cem ações exigidas por partida, medidas com rigor científico. Confrontou abertamente o romântico Eduard Malofeev e seu "futebol sincero", e venceu a discussão na prática. Equipes treinadas como sistema venceriam somas de talento desorganizado.

O Brasil de 1970, transmitido pela primeira vez em TV colorida, foi o último suspiro da arte solta no topo do mundo. Pelé, Tostão, Gérson e Rivellino fluíam em um 4-2-4 desequilibrado salvo pela inteligência coletiva e pelas subidas de Carlos Alberto. Por trás do brilho casual, havia preparação avançada com métodos importados da NASA pela ditadura militar. Em 1982, a mesma escola caiu diante da Itália tática, e o recado foi cruel: defesas frágeis não passariam mais.

A Inglaterra escolheu não ouvir. Mesmo com o Liverpool do Boot Room provando que paciência e posse funcionavam, a Football Association de Charles Hughes adotou Graham Taylor e suas bolas longas como doutrina oficial, validadas pelo conceito falacioso de "Posição de Oportunidade Máxima". Cristalizou o fracasso em dogma e exportou esse vício para suas categorias de base por uma geração inteira.

O técnico vira roteirista

Em 1986, Carlos Bilardo precisava acomodar Maradona sem deixar a defesa argentina à mostra. Sua resposta foi o 3-5-2, com líbero ressuscitado por trás, alas voando pelas laterais e o gênio livre na frente. O sistema deu o título mundial e provou que esquemas dados como mortos voltam reciclados.

Mas a guinada definitiva veio de Arrigo Sacchi no Milan. Sacchi simplesmente jogou o líbero no lixo. Adotou um 4-4-2 em linha, com defesa por zona pura e bloco de apenas 25 metros entre o último zagueiro e o atacante mais avançado. Treinava jogadas "sombra" sem bola, obrigando estrelas globais como Gullit e Van Basten a se moverem em coreografia. Sacchi consolidou a tese de que o técnico não precisava ter sido craque. Bastava ser um roteirista intelectual capaz de ditar cada deslocamento. O comandante agora estava acima do gênio.

Bielsa, Guardiola e a era do estrangulamento

Nos anos 1990, Louis van Gaal devolveu o Ajax ao topo com um 3-4-3 hiper-metódico, em que cada passe era previsto e o risco do drible, desencorajado. Era posse como engrenagem. Na Argentina, Marcelo Bielsa puxou o fio oposto: pressão alucinada no campo adversário, verticalidade sufocante, 3-3-1-3 com ritmo de ataque incessante. Bielsa formou discretamente os dois maiores técnicos da geração seguinte. Pep Guardiola e Jürgen Klopp beberam dele direto.

Guardiola levou ao êxtase o juego de posición no Barcelona de 2011. Reciclou o falso nove com Messi, atraindo zagueiros para o meio e esvaziando a retaguarda exatamente como Hidegkuti fizera em 1953. Mas a inovação central foi tratar a posse de bola como sistema defensivo. Se o adversário não tem a bola, não pode atacar. Tudo isso sustentado por jogadores formados desde criança em La Masia, falando o mesmo idioma tático.

A resposta veio da Alemanha. Klopp olhou para o monólogo da posse e devolveu caos planejado: o Gegenpressing. Em vez de tocar bola para se defender, recuperar imediatamente após perder, no campo final, esmagando as linhas adversárias antes que respirassem. O ciclo se fechou e abriu de novo. Cada esquema hoje é uma síntese hegeliana, juntando pedaços do Catenaccio, do Futebol Total e da pressão soviética.

A hélice que nunca para

O futebol não anda em círculo, anda em hélice. Toda invenção ofensiva é eventualmente sufocada, toda muralha defensiva é eventualmente furada, e o ciclo recomeça num andar acima. A tensão final do esporte moderno não é mais entre vencer e perder bonito. É a arte difícil de encaixar o gênio anárquico dentro de uma máquina implacável, sem matar nenhum dos dois.

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Quem escreveu o livro?

Jonathan Wilson é escritor e jornalista britânico, sendo autor e colunista em publicações como The Guardian, Sports Illustrated,... (Leia mais)

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