Abundância: Como Construímos um Futuro Melhor - Resenha crítica - Ezra Klein
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14 leituras ·  5 avaliação média ·  2 avaliações

Abundância: Como Construímos um Futuro Melhor - resenha crítica

Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 

Editora: Profile Books

Resenha crítica

Imagine que você conseguiu o emprego dos sonhos numa cidade grande. Salário melhor, colegas brilhantes, oportunidades que não existiam na sua cidade natal. Aí você olha o preço do aluguel e desiste. A conta simplesmente não fecha.

Essa cena se repete milhões de vezes por ano, e ela não é acidente. Ezra Klein e Derek Thompson argumentam que a escassez que sufoca as pessoas hoje — de moradia, de energia limpa, de trens, de vacinas, de médicos — é uma escolha política. Não uma inevitabilidade da natureza, nem um limite físico do planeta. Uma escolha feita em milhares de reuniões municipais, audiências públicas e formulários de conformidade.

O diagnóstico central é desconfortável para quem se considera progressista. Durante décadas, boa parte da energia política foi gasta em subsidiar a demanda por bens essenciais — vouchers, créditos, financiamentos — sem mexer nas barreiras que impedem a produção desses bens. Resultado: mais dinheiro perseguindo a mesma oferta travada. Os preços sobem, e a promessa de justiça vira frustração.

Este microbook conta como a sociedade mais inventiva do mundo se tornou incapaz de construir o que inventa. E, principalmente, mostra o caminho de volta: um futuro de abundância material que depende menos de novas ideias e mais de coragem para desmontar regras disfuncionais.

A escassez que nós mesmos fabricamos

Cidades são as máquinas mais eficientes já criadas para transformar trabalho em prosperidade. Elas aproximam pessoas, ideias e capital. Durante boa parte do século XX, mudar-se para uma metrópole americana era o atalho mais confiável para subir de classe social. Um trabalhador rural ganhava mais em Nova York do que no campo, e conseguia pagar por isso.

Isso quebrou. A partir dos anos 1970, cidades dinâmicas pararam de crescer em número de casas enquanto cresciam em número de empregos. Em 1971, a cidade de Petaluma, na Califórnia, adotou um plano que limitava quantas unidades habitacionais podiam ser construídas por ano. O modelo virou referência nacional. Multiplicado por milhares de municípios, produziu a chamada Grande Divergência: as regiões mais produtivas viraram condomínios fechados de luxo, e os salários altos deixaram de estar ao alcance de quem mais precisava deles.

O contraste é brutal quando você compara números. Houston, no Texas, licencia casas novas num ritmo que Los Angeles não alcança nem de longe, apesar de a Califórnia ter economia maior e demanda muito mais intensa. E o estudo Homelessness Is a Housing Problem, de Gregg Colburn e Clayton Page Aldern, mostra o elo direto: as regiões com moradia mais cara lideram as taxas de pessoas em situação de rua. Não é sobre pobreza ou dependência química apenas. É sobre não haver casa suficiente.

A hipocrisia das placas de jardim

Você já viu aquelas placas em jardins de casas bonitas: "Refugiados são bem-vindos", "Todos são bem-vindos aqui", "Ciência é real". Klein e Thompson dão um nome a esse fenômeno: lawn-sign liberalism, o liberalismo de placa de jardim. A retórica é acolhedora. A prática municipal, não.

Os mesmos moradores que exibem placas de boas-vindas aparecem nas audiências públicas para bloquear um prédio de apartamentos a duas quadras dali. Alegam sombra, trânsito, caráter do bairro, impacto ambiental. Cada objeção parece razoável isolada. Somadas, transformam a moradia num jogo de soma zero em que quem já tem casa decide quem mais pode ter.

O caso de São Francisco é o mais eloquente. Poucas cidades no mundo produzem tanta retórica sobre inclusão racial. E, no entanto, a população negra da cidade vem caindo continuamente desde 1970. As pessoas foram literalmente precificadas para fora. Do outro lado do espectro, Michael Bloomberg foi mais honesto: em 2003, ele definiu Nova York como um produto de luxo, um lugar caro que atrai quem pode pagar. Pelo menos ele disse em voz alta o que a política habitacional de muitas cidades progressistas pratica em silêncio.

O ponto não é que os moradores sejam vilões. É que o sistema dá poder de veto a quem tem tudo a perder com a mudança e nenhuma voz a quem ganharia com ela.

O paradoxo do movimento verde

Para descarbonizar a economia, é preciso construir numa escala difícil de imaginar. Fazendas solares gigantes, parques eólicos, usinas nucleares, linhas de transmissão cruzando estados inteiros. Não existe versão da transição energética que não seja, antes de tudo, uma obra colossal.

É aqui que aparece o paradoxo mais doloroso do microbook. As leis ambientais americanas nasceram nos anos 1970 como vitórias legítimas contra corporações que envenenavam rios e ares. Mas a CEQA, a lei ambiental da Califórnia, hoje é usada rotineiramente para barrar prédios residenciais perto de estações de metrô e até projetos de infraestrutura de descarbonização. A ferramenta criada para impedir a destruição virou ferramenta para impedir a construção.

O símbolo dessa vetocracia é o trem de alta velocidade da Califórnia. Aprovado por referendo em 2008, virou um labirinto de negociações, estudos de impacto e disputas judiciais conduzidos pela High-Speed Rail Authority. Anos e bilhões depois, quase nenhum trilho. Enquanto isso, a produtividade da construção nos Estados Unidos caiu ao longo de cinco décadas, na contramão de praticamente todos os outros setores.

Por isso os autores rejeitam a filosofia do degrowth, o decrescimento defendido por pensadores como Jason Hickel. Reduzir consumo pode ser moralmente atraente, mas é fisicamente insuficiente. Ninguém salva o clima construindo menos.

Quando o projeto tenta resolver tudo de uma vez

Existe um vício específico que Klein e Thompson batizam de everything-bagel liberalism — o liberalismo do pão com todos os temperos. Cada política pública nova recebe uma camada extra de exigências. Diversidade de fornecedores, creche para funcionários, salários locais, metas ambientais, análise comunitária. Cada camada tem defensores sinceros. Juntas, tornam o projeto impossível.

O CHIPS and Science Act é o exemplo mais claro. A ideia central era simples e urgente: fabricar semicondutores em solo americano de novo. Mas as empresas que quisessem os recursos precisavam cumprir dezenas de exigências periféricas que nada tinham a ver com fabricar chips. Cada requisito adiciona meses de negociação e advogados. O objetivo principal fica soterrado sob os objetivos secundários.

Há uma alternativa concreta, e ela existe. Em São Francisco, o empreendimento residencial Tahanan foi erguido em cerca de três anos, com custo por unidade muito abaixo da média local, justamente porque o financiamento foi majoritariamente filantrópico e o projeto escapou da via crucis de recursos públicos e audiências. Quando não é preciso agradar a todos os interesses simultaneamente, dá para construir rápido e barato — e ainda entregar moradia digna para quem estava na rua.

A lição prática é impopular, mas simples: escolha um objetivo por projeto. Priorizar não é abandonar valores. É a única forma de realizá-los.

Recuperando o controle da máquina pública

Governos americanos passaram décadas terceirizando o próprio cérebro. Em vez de manter equipes técnicas capazes de projetar, contratar e fiscalizar, agências passaram a comprar tudo de escritórios de consultoria caríssimos. O resultado é que o Estado esqueceu como fazer, e ficou dependente de quem cobra caro para fazer por ele.

O colapso do sistema de seguro-desemprego da Califórnia em 2020 expôs a ferida. O EDD, órgão responsável pelos pagamentos, rodava sobre sistemas em linguagens obsoletas, empilhados ao longo de décadas. Milhões de pessoas desempregadas ficaram meses sem receber, não por falta de dinheiro autorizado, mas por incapacidade de operar o próprio software. A tecnóloga Jen Pahlka descreve esse fenômeno como camadas de sedimento regulatório: cada nova regra é depositada sobre a anterior, e nenhuma jamais é removida.

O contraexemplo é iluminador. Em junho de 2023, um trecho da rodovia I-95 desabou na Pensilvânia. O governador Josh Shapiro declarou emergência, suspendeu o rito normal de licitações e aprovações, e a via foi reaberta em doze dias. Não houve corrupção nem tragédia. Houve escolha deliberada de confiar em servidores públicos competentes e deixá-los agir.

A pergunta que fica é incômoda: por que só conseguimos isso quando algo desaba?

O problema Karikó e o medo de apostar

Katalin Karikó passou décadas tentando financiar sua pesquisa sobre RNA mensageiro. Foi rebaixada na Universidade da Pensilvânia, teve pedidos de verba rejeitados repetidamente, quase abandonou a carreira. A ideia parecia arriscada demais para os comitês de avaliação. Anos depois, esse trabalho virou a base das vacinas de Covid-19 que salvaram milhões de vidas, e ela ganhou o Nobel.

Os autores chamam isso de Problema Karikó. As estruturas de fomento à pesquisa foram desenhadas para minimizar fracassos, não para maximizar descobertas. Isso premia projetos incrementais com resultado previsível e pune apostas de longo prazo. Pesquisadores aprendem rápido: propõem o que já sabem que vai dar certo.

Pior, o sistema devora o tempo dos cientistas. No NIH, a principal agência de saúde americana, surgiu a cultura da grantsmanship — a arte de escrever propostas de financiamento. Pesquisadores gastam meses por ano redigindo candidaturas e relatórios em vez de fazer ciência. E o fardo do conhecimento só aumenta: as descobertas fáceis já foram feitas, e os avanços de hoje exigem equipes maiores e mais tempo.

O contraste está em instituições como a DARPA e a antiga Bell Labs. Ali, gestores de pesquisa tinham poder real para escolher pessoas, liberar recursos generosos e conectar cientistas que não se falavam. Eram caçadores de gênios com autonomia, não auditores de conformidade. Vale acrescentar: parte enorme desses talentos veio de fora, o que torna a abertura de vistos como o H-1B política científica, não apenas política migratória.

O mito de Eureka

Alexander Fleming descobriu a penicilina em 1928, ao notar mofo matando bactérias numa placa esquecida. É a história que todo mundo aprende na escola, e é a história errada. Por mais de uma década, a penicilina praticamente não salvou ninguém. Existia em quantidades ridículas, produzida em laboratório às gotas.

O que mudou tudo não foi a descoberta, mas a fabricação. Durante a Segunda Guerra, a Office of Scientific Research and Development americana mobilizou empresas, cepas de fungo mais produtivas e tanques de fermentação industrial. Em pouco tempo, a produção saltou de doses contadas para bilhões de unidades. Isso, sim, salvou soldados. A invenção é o começo; a escala é o resultado.

Klein e Thompson chamam a confusão entre as duas de Mito de Eureka. E o antídoto tem nome: a Lei de Wright. Cada vez que a produção acumulada de algo dobra, o custo por unidade cai numa porcentagem previsível. Aviões, chips de computador, baterias, painéis solares — todos barateiam porque alguém os fabrica em volume, aprendendo com cada erro na linha de montagem.

Aí está o drama americano. A célula solar moderna nasceu nos laboratórios da Bell, nos Estados Unidos. Mas foi a China que construiu as fábricas, dobrou a produção repetidas vezes e derrubou o preço do painel em mais de 90%. Quem fabrica aprende. Quem só projeta, assiste.

O Estado como detetive de gargalos

Se a escala é o que importa, o governo precisa de um papel novo. Não o de escolher vencedores nem o de apenas financiar pesquisa básica, mas o de identificar exatamente onde a produção trava — e destravar.

A Operation Warp Speed é o caso clássico. Em 2020, o governo americano fez duas coisas ao mesmo tempo: financiou o desenvolvimento das vacinas e garantiu a compra de centenas de milhões de doses antes de saber se funcionariam. Essa garantia dupla eliminou o risco comercial e permitiu que fábricas fossem construídas em paralelo aos testes. Mais do que isso, a equipe rastreou gargalos físicos absurdamente concretos: frascos de vidro, filtros, bolsas plásticas estéreis, logística de ultracongelamento. Alguém precisava ser o detetive.

Esse tipo de garantia tem nome técnico: Compromisso Antecipado de Mercado, ou AMC. Você promete comprar um produto que ainda não existe, num volume que justifica construir a fábrica. Empresas privadas já adotaram o modelo — a Stripe liderou o fundo Frontier, comprometendo mais de um bilhão de dólares em compras futuras de remoção de carbono para tirar essa indústria do papel. O mesmo raciocínio serve para cimento verde, combustível de aviação sustentável e energia geotérmica.

E há gargalos que nem exigem tecnologia nova. Os Estados Unidos vivem falta de médicos enquanto limitam artificialmente o número de vagas de residência médica financiadas. A escassez é fabricada por uma trava orçamentária que ninguém revisita. Ampliar vagas é decisão administrativa, não milagre científico.

Fabricar o que ainda falta

Redistribuir o que já existe alivia. Não transforma. A vida melhora de verdade quando aparece mais casa perto do emprego, mais energia limpa na tomada, mais médico na sala de espera, mais vacina no braço. Isso exige reescrever regras de licenciamento sem pudor e voltar a fabricar em escala industrial. A invenção reprimida já está aí, esperando permissão para virar prosperidade construída.

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Quem escreveu o livro?

Derek Thompson é jornalista e podcaster americano que trabalhou por 17 anos na The Atlantic antes de sair, em junho de 2025, para escrever de forma independente no Substack. Formado pela Northwestern University, é autor de 'Hit Makers: How to Succeed i... (Leia mais)

Ezra Klein é jornalista e comentarista político americano, colunista do New York Times e apresentador do podcast The Ezra Klein Show. Formado em ciência política pela UCLA em 2005, cofundou a Vox em 2014, onde atuou como editor-chefe e depois edito... (Leia mais)

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