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Editora: 12min
Toda pista de pouso termina em algum ponto, e o que acontece quando um avião não consegue parar antes desse ponto tem um nome na aviação: saída de pista. É o tipo de acidente mais comum envolvendo aeronaves no mundo, segundo dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA). Justamente por ser comum, as pistas costumam ter depois do asfalto uma área de segurança designada, que funciona como zona de proteção para esses casos. As pistas do Aeroporto Internacional de Miami têm essa área, como as de muitos outros aeroportos.
O que faz a diferença é o que existe depois dela. Em Miami, depois da grama e da cerca de perímetro, existe uma avenida pública de quatro faixas, com carros, vans de serviço e estacionamentos. Foi ali, e não dentro da aeronave, que morreram cinco pessoas no domingo, 6 de setembro, quando um Boeing 767 cargueiro que voava para a Amazon ultrapassou o fim da pista 30. Nesta segunda-feira (7), o Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos (NTSB) anunciou que recuperou as duas caixas-pretas do avião e descreveu a cena como "devastação total".
O cargueiro tentou pousar por volta das 14h no horário de Miami, em uma pista com mais de 2.700 metros de extensão. Segundo dados de rastreamento do Flightradar24, a aeronave subiu acima da trajetória normal de aproximação da pista 30 antes de perder altitude e voltar à posição adequada, e atravessou uma tempestade que se formava, uma entre várias na região naquele momento.
Durante o pouso, a direção do vento mudou de repente, o que teria dado ao voo um vento de cauda, segundo David Soucie, analista de segurança da CNN e ex-inspetor de segurança da Administração Federal de Aviação (FAA). "Você ganha velocidade em vez de perder velocidade naquele momento", disse ele. Um vídeo publicado nas redes sociais mostra que o avião tocou o solo quase paralelo à pista, em vez de fazer a manobra padrão de "flare", na qual o nariz se eleva no último instante para que o trem de pouso traseiro toque primeiro. O avião pareceu pairar no ar e ultrapassou em muito a área habitual de pouso.
Quando chegou ao fim do asfalto, ainda estava a cerca de 209 km/h, segundo o Flightradar24. Uma análise das gravações do controle de tráfego aéreo feita pela CNN mostra que os pilotos não declararam emergência nem relataram qualquer problema antes do pouso. A presidente do NTSB, Jennifer Homendy, disse que o avião ultrapassou em cerca de 400 metros a superfície asfaltada do aeroporto: atravessou a grama deixando marcas de pneus, rompeu a cerca de arame do perímetro, destruiu barreiras de concreto instaladas para impedir a entrada de carros na área restrita e cruzou a avenida, parando em chamas pouco antes de um estacionamento.
As duas pessoas a bordo, piloto e copiloto, sobreviveram. Os dois ficaram presos na cabine enquanto os motores queimavam e foram retirados pelos bombeiros, que usaram uma escada para alcançar uma janela do cockpit. Até a coletiva de segunda-feira, nenhum dos dois havia sido entrevistado pelos investigadores.
Os cinco mortos estavam nos dois veículos atingidos, afirmou Homendy. Um deles era uma van Econoline que circulava na área do aeroporto transportando sete integrantes de uma equipe da Professional Ocean Service Corp, empresa que presta serviços de limpeza para companhias aéreas. O outro era um SUV Toyota que trafegava pela Northwest 67th Avenue, do lado de fora da cerca do perímetro. Cinco pessoas ficaram feridas, três delas em estado grave, segundo as autoridades locais.
Foi essa parte da cena que Homendy descreveu aos jornalistas. "É possível ver na pista pavimentada marcas de pneus que se estendem pela grama. Há destroços por toda parte. A van Econoline está despedaçada", disse. "No SUV, dá para ver os airbags, os airbags ao redor. Dá para ver peças dos veículos, tanto dos veículos de passageiros quanto da aeronave." O avião em si, apesar do incêndio que começou em torno do motor direito, permaneceu praticamente inteiro, com o nariz no chão e a cauda inclinada para cima.
A aeronave era um Boeing 767-300 fabricado em 1994, construído originalmente para transportar passageiros e convertido em cargueiro em 2015, segundo o Flightradar24. Era operada pela 21 Air, empresa de transporte de cargas com sede na Carolina do Norte e centro de operações em Miami, que voa com 767 para clientes como Amazon e DHL.
A Amazon não opera diretamente esses voos. A 21 Air é uma das nove companhias que fazem voos para a Amazon Air, operação que realiza mais de 250 voos diários para transportar encomendas de clientes, segundo levantamento da CNN. O avião acidentado estava em seu terceiro trecho do dia: havia voado de Cincinnati para Miami, de Miami para San Juan e voltava de San Juan quando o acidente ocorreu, detalhou Homendy.
"Estamos profundamente abalados ao saber que cinco pessoas perderam a vida", disse a porta-voz da Amazon, Kelly Nantel, em comunicado. O presidente da 21 Air, Keith Winters, afirmou que as prioridades da empresa são apoiar os afetados e auxiliar as autoridades.
A causa do acidente segue sob investigação, mas o percurso de 400 metros fora do asfalto reabriu uma discussão específica. Especialistas em aviação ouvidos pela CNN afirmaram que o aeroporto de Miami não conta com um recurso de segurança que poderia ter impedido a aeronave de deixar os limites do aeroporto e chegar à via pública.
Esse recurso se chama Engineered Material Arresting System, ou EMAS, e consiste em uma série de blocos instalados no fim da pista. Eles parecem sólidos, mas são feitos de material leve, projetado para se comprimir sob o peso de um avião. "Quando o avião sai do fim da pista, as rodas entram nesse material. O avião para", explicou Mary Schiavo, analista de transportes da CNN e ex-inspetora-geral do Departamento de Transportes dos Estados Unidos. "Um aeroporto cercado por uma área tão densamente povoada precisa de um sistema de barreira de segurança no fim dessas pistas para impedir que isso aconteça novamente", afirmou. A CNN procurou a FAA e o aeroporto para comentar.
O aeroporto fechou todas as pistas e vias de taxiamento imediatamente após o acidente, e a paralisação das operações em solo foi encerrada por volta das 17h no horário local. Os voos foram retomados ainda na noite de domingo, mas com duas das quatro pistas fora de operação, no meio do movimentado feriado do Dia do Trabalho.
A pista 30, onde o cargueiro tentou pousar, e a pista 26L, ao norte dela, ficaram fechadas durante a maior parte de segunda-feira. A FAA informou naquela manhã que os voos com destino a Miami deveriam sofrer atrasos médios de duas horas e meia. Ao longo do dia, o aeroporto registrou cerca de 90 voos cancelados e aproximadamente 400 atrasados, segundo o site FlightAware. Miami é o aeroporto mais movimentado da Flórida e um dos principais centros de carga dos Estados Unidos, sobretudo no comércio com a América Latina, com quase 3,5 milhões de toneladas movimentadas no ano passado.
Os próximos dias trazem informações verificáveis, e vale saber quais. As caixas-pretas, o gravador de dados de voo e o gravador de voz da cabine, foram enviadas à sede do NTSB em Washington para análise. Homendy lidera uma equipe de 32 investigadores em Miami e disse que a agência ainda quer entrevistar a tripulação. Ela também deixou claro que a causa provável não será determinada antes do fim da investigação, ou seja, qualquer explicação definitiva que circular antes disso não vem do órgão que investiga. Vale acompanhar, portanto, dois marcos distintos: a leitura dos gravadores e as entrevistas com piloto e copiloto, que ainda não haviam ocorrido.
Um segundo ponto de observação está fora da investigação e vale para quem mora perto de aeroporto. Se o EMAS aparecer na discussão pública sobre Miami e outros terminais cercados por área urbana, o que está em jogo não é a cabine nem a tripulação, mas o que existe entre o fim da pista e a rua. Quem viaja pelo aeroporto nos próximos dias deve checar a situação do voo diretamente com a companhia aérea, já que os atrasos seguiram enquanto pistas permaneciam fechadas e o combustível de aviação era retirado do local. E, ao ler as próximas atualizações, o dado que organiza tudo é o mesmo do primeiro dia: as vítimas não estavam voando.
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