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Editora: 12min
O esôfago é o tubo muscular que leva a comida e a bebida da boca até o estômago. O câncer que se forma ali aparece em duas versões principais, e a diferença entre elas é o que organiza toda a discussão desta semana. Uma é o adenocarcinoma, que começa nas glândulas do órgão e está associado à doença do refluxo e ao esôfago de Barrett. A outra é o carcinoma de células escamosas, também chamado de carcinoma espinocelular, que se desenvolve nas células que revestem a parede interna do esôfago e é a forma mais comum da doença no mundo, segundo a CNN. É dessa segunda forma que se fala quando o assunto é bebida quente.
A hipótese que os pesquisadores trabalham há anos é simples: líquido muito quente provoca lesão térmica na mucosa do esôfago no caminho até o estômago. Esses tumores costumam surgir justamente nas células escamosas dos dois terços superiores do órgão, que seriam as mais expostas ao efeito do líquido quente, aponta o estudo citado pela Veja. Repetida todos os dias, a agressão compromete a integridade do tecido e pode abrir caminho para alterações celulares.
Aaron Sasson, chefe de oncologia cirúrgica do Stony Brook Cancer Center, em Nova York, ofereceu à Fox News Digital uma analogia: uma queimadura na mão aumenta o risco de carcinoma de células escamosas na pele da área queimada, e o que se descreve aqui é uma queimadura repetida no esôfago.
Não é uma suspeita nova. Em 2016, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou bebidas muito quentes como "provavelmente cancerígenas para humanos" e como uma provável causa de câncer de esôfago. A agência define "muito quente" como acima de 65°C. A classificação, porém, se baseava sobretudo em pesquisas feitas fora do Ocidente, na China, no Irã, no Japão e na América do Sul, onde o consumo de mate em temperaturas altas é generalizado. Faltava saber se o mesmo valia para quem toma chá com leite e café na Europa.
É esse o buraco que a pesquisa divulgada agora tenta fechar. Conduzida por pesquisadores da Unidade de Epidemiologia do Câncer da Universidade de Oxford e publicada no periódico International Journal of Cancer, ela analisou dados de 977.282 adultos de meia-idade do Reino Unido, reunidos em duas grandes coortes já existentes, o Million Women Study e o UK Biobank. Os autores a descrevem como o maior trabalho já feito sobre o tema. O financiamento veio da Cancer Research UK.
Os participantes informaram como preferiam tomar suas bebidas quentes, escolhendo entre "muito quente", "quente", "morna", "não bebo bebidas quentes" e "prefiro não responder". Também disseram quantas xícaras de chá e café tomavam por dia, em duas faixas: menos de seis, ou seis ou mais. Cerca de 15% relataram preferência por bebidas muito quentes, e pouco menos da metade consumia seis ou mais por dia. O acompanhamento durou em média 14 anos em uma das coortes e 11 na outra.
O risco cresceu junto com a temperatura declarada. Comparados a quem tomava as bebidas mornas, os que preferiam "quente" tiveram risco cerca de 1,7 vez maior de carcinoma de células escamosas, e os que preferiam "muito quente" tiveram risco aproximadamente três vezes maior, disse à Fox News Digital a pesquisadora principal, Keren Papier, epidemióloga nutricional da Oxford Population Health. A frequência pesou por conta própria: mesmo depois de ajustar para a temperatura, tomar seis ou mais bebidas quentes por dia foi associado a um aumento de 71% no risco.
Dois detalhes reforçam que o fator em jogo é o calor, e não o que está na xícara. O resultado se manteve independentemente do tipo de bebida, e acrescentar leite não alterou o risco, desde que o líquido continuasse quente, segundo a CNN.
O achado vale para uma das duas formas da doença e não para a outra. Não houve evidência de associação entre temperatura da bebida e adenocarcinoma em nenhuma das coortes. Durante o acompanhamento, foram diagnosticados 2.348 casos de câncer de esôfago no total, sendo 1.045 do tipo escamoso e 1.303 do tipo adenocarcinoma, informa a CNN Brasil.
E o risco absoluto segue baixo. O câncer de esôfago responde por cerca de 2% dos casos de câncer no Reino Unido, onde o risco de ser diagnosticado ao longo da vida é de aproximadamente 1%, segundo a Cancer Research UK. Nos Estados Unidos, o Instituto Nacional do Câncer estima que a doença tenha representado 1,1% dos novos casos de câncer neste ano, e Sasson observa que cerca de 85% dos cânceres por lá são adenocarcinomas, o que torna a incidência do tipo escamoso no esôfago bastante baixa. No Brasil, o câncer de esôfago é o sexto mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres, de acordo com o INCA, que já lista o consumo frequente de bebidas a 65°C ou mais entre os fatores de risco da doença.
Em números de saúde pública, o efeito estimado é concreto sem ser dramático. Os autores calculam que 14% dos casos de carcinoma escamoso de esôfago no Reino Unido poderiam ser evitados se quem consome bebidas "muito quentes" passasse a tomá-las apenas "quentes", o equivalente a cerca de 440 diagnósticos por ano.
A limitação central é reconhecida pelos autores: a temperatura foi autorrelatada, não medida. Papier afirmou que o estudo não teve acesso à temperatura absoluta das bebidas e, por isso, não é possível determinar a que valores em graus corresponde cada categoria. Como a tolerância ao calor varia, pessoas diferentes podem ter classificado a mesma xícara de formas diferentes.
Há uma objeção mais funda. Muy-Teck Teh, professor de oncologia oral molecular da Queen Mary University of London, afirmou em comunicado divulgado pelo Science Media Centre que não se pode descartar que pessoas que toleram ou preferem bebidas muito quentes tenham alteração na percepção térmica ou na sensibilidade da mucosa, e que isso em si possa refletir uma predisposição biológica ao carcinoma escamoso, o que complicaria a leitura de causalidade. Para ele, os resultados devem ser interpretados como associações robustas, não como prova causal.
Do outro lado, Ian Johnson, fisiologista do Quadram Institute, na Inglaterra, disse à CNN que há evidência prévia de que líquidos quentes danificam as células que revestem o esôfago e provocam inflamação, o que dá uma explicação plausível ao achado. Ele considera prudente consumir bebidas abaixo de 65°C, mas acrescentou que mudar o hábito de quem gosta de bebida quente é outra história. Papier afirmou que mais pesquisa ainda é necessária para identificar as temperaturas exatas ligadas ao risco.
A recomendação que sai do estudo não é parar de tomar chá ou café. É esperar. Água fervida chega a 100°C, e o chá preparado com ela ainda sai da chaleira por volta de 90°C a 95°C na xícara, bem acima do limiar de 65°C. Alguns minutos de descanso bastam para derrubar esse valor. Papier sugeriu à CNN caminhos igualmente banais: deixar a bebida parada um tempo, acrescentar leite ou água fria, soprar, tomar em goles.
A Cancer Research UK, que financiou a pesquisa, afirma que é difícil cravar quantos minutos. Fiona Osgun, responsável por informação em saúde da entidade, recomendou simplesmente esperar até que a bebida esteja confortável de beber, em vez de tomá-la ainda muito quente. A mesma organização, segundo o Guardian, não defende que cafés e restaurantes passem a servir chá e café em temperatura mais baixa. Vale notar que a sensação de "confortável" é pessoal: num estudo separado com 118 jovens adultos que provaram diferentes cafés pretos, a maioria só considerou a bebida quente demais a partir de 70°C, relata a BBC.
Também vale manter a proporção. Papier afirmou que o tabagismo segue sendo o maior fator de risco para esse tipo de câncer. Osgun foi direta ao dizer que as formas mais importantes de reduzir o risco são não fumar e diminuir o álcool. Sasson, que não participou do estudo, resumiu à Fox News Digital que limitar o consumo de álcool e eliminar o cigarro já faria maravilhas pelo esôfago, e classificou a temperatura da bebida como algo que um consumidor pesado de chá ou café talvez queira ajustar, sem ser o fator de risco predominante.
Por fim, a BBC lembra que sintomas do câncer de esôfago podem incluir azia, indigestão, dor na garganta ou no peito e perda de peso. O gesto que o estudo sugere custa três minutos de espera. É raro um fator de risco de câncer ser tão inteiramente modificável.
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