Brasil corta juros e EUA sobem no mesmo dia - Resenha crítica - 12min Originals
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Brasil corta juros e EUA sobem no mesmo dia - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Cada país tem uma taxa básica de juros definida pelo seu banco central. É ela que serve de referência para o custo do crédito e para o rendimento das aplicações de renda fixa, e é por esse caminho que uma decisão tomada em Brasília ou em Washington acaba chegando ao empréstimo, ao cartão e ao financiamento de quem nunca leu um relatório de banco. No Brasil essa taxa se chama Selic e está em 14% ao ano. Nos Estados Unidos ela se chama Fed Funds e está na faixa de 3,50% a 3,75%. Nesta quarta-feira, 16 de setembro, os dois bancos centrais anunciam suas decisões no mesmo dia, e a expectativa é de que sigam em direções contrárias.

O que é uma superquarta

Superquarta é o nome que o mercado financeiro deu aos raros dias em que o Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central brasileiro, e o Fomc, o comitê equivalente do Federal Reserve americano, anunciam suas decisões de juros na mesma data. A coincidência de calendário concentra a atenção porque essas duas taxas são as referências que baseiam o custo do crédito, o retorno da renda fixa e, em boa medida, o apetite por risco nas bolsas dos dois países. O Fed anuncia às 15h e o Copom às 18h30, no horário de Brasília, depois do fechamento do mercado.

O que torna esta edição incomum é a direção oposta das decisões esperadas. "É uma situação atípica: o Brasil reduzindo os juros e os Estados Unidos aumentando", resumiu Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, ao E-Investidor, do Estadão. Normalmente, quando um país eleva os juros enquanto outro os reduz, a moeda do país que corta tende a se desvalorizar. Aqui isso significaria pressão sobre o real e produtos importados mais caros, com reflexo futuro na inflação brasileira.

Um corta pela quinta vez, o outro sobe pela primeira desde 2023

No Brasil, a expectativa predominante é de uma redução de 0,25 ponto percentual, levando a Selic de 14% para 13,75% ao ano. Seria a quinta queda seguida de igual tamanho. Os contratos futuros negociados na B3 apontavam cerca de 95% de chance desse corte. O que sustenta a aposta é a combinação de inflação em queda com atividade mais fraca: o IPCA de agosto recuou 0,32%, a maior deflação mensal desde 2022, e a inflação em doze meses caiu de 4,44% para 4,22%, segundo mês seguido abaixo do teto da meta. Ao mesmo tempo, o consumo das famílias caiu 0,4% no segundo trimestre, resultado que surpreendeu para baixo.

Nos Estados Unidos, o movimento é o inverso. O Fed mantém os juros parados na mesma faixa desde dezembro do ano passado, mesmo com a inflação acima da meta de 2% há cinco anos. Em agosto, o índice de preços ao consumidor voltou a acelerar, com alta de 0,4% no mês, e a inflação em doze meses está em 3,4%. O mercado de trabalho também veio forte, com 162 mil vagas abertas contra uma expectativa de 55 mil. Somou-se a isso o petróleo acima de US$ 100 o barril, em meio ao conflito entre Estados Unidos e Irã. A plataforma FedWatch, do CME Group, que acompanha as apostas dos investidores, chegou a indicar 92,5% de chance de uma alta de 0,25 ponto, o que levaria a taxa americana para a faixa de 3,75% a 4% ao ano.

Se confirmada, será a primeira alta de juros nos Estados Unidos desde 2023 e a primeira sob o comando de Kevin Warsh, que assumiu o Fed em maio deste ano. Indicado por Donald Trump e confirmado pelo Senado, Warsh chegou com a promessa de conduzir um banco central mais tolerante a juros baixos, mas tem adotado discurso mais duro, e chegou a sugerir que pode ser preciso subir os juros para conter a inflação.

Por que o comunicado pesa mais que o número

Como a alta americana já é largamente esperada, ela tende a ter pouco efeito imediato. O que ainda está em aberto é se o movimento inaugura uma sequência de aumentos ou é isolado. "O mercado vive de expectativas. A alta em si mexe muito pouco com o dólar, mas o sinal do que pode ocorrer nas próximas reuniões mexe e muito com a moeda", disse ao g1 Gabriel Magno, da AW Capital. Junto com a decisão, o Fed divulga seu sumário de projeções, e meia hora depois Warsh dá entrevista.

Fernando Benavenuto, da Anvex Capital, resumiu ao g1 o mesmo raciocínio: "O tom da comunicação pesa mais que o número". Se o comunicado indicar juros americanos altos por mais tempo, a diferença entre os juros dos dois países se comprime, os títulos americanos ficam relativamente mais atraentes e o dólar tende a ganhar força. Para quem não investe em nada disso, o efeito chega por duas vias e demora. Um dólar mais pressionado encarece importados e insumos, e isso leva semanas a meses para aparecer na prateleira. E juro alto lá fora reduz o espaço para o Banco Central cortar a Selic aqui, o que mantém caros por mais tempo o financiamento da casa própria, os empréstimos e o rotativo do cartão.

O câmbio não vira preço automaticamente. Em coluna na Folha, o economista Samuel Pessôa citou um estudo ainda não publicado, de Marco Bonomo e colaboradores, segundo o qual uma desvalorização de 10% do real eleva os preços em 0,2% quando as expectativas de inflação estão ancoradas, e em 0,78% quando estão desancoradas. Ou seja, o mesmo choque no dólar dói mais quando o mercado já desconfia da inflação futura.

Do lado brasileiro há um efeito contraintuitivo. Passero alerta que um corte muito agressivo ou um comunicado excessivamente tolerante pode acabar encarecendo o crédito que mais afeta o dia a dia. Financiamento imobiliário, crédito para empresas e para veículos seguem atrelados às taxas de juros de prazo longo, não à Selic, que é de curtíssimo prazo. Um Copom lido como leniente em meio à pressão fiscal e ao petróleo caro pode empurrar essas taxas longas para cima.

O pano de fundo que a superquarta não resolve

Nenhuma das duas decisões mexe no problema maior. A dívida pública bruta brasileira chegou a 81,9% do PIB em junho deste ano, e o déficit nominal, que inclui o custo dos juros pagos pelo governo, está em 9,34% do PIB. Os gastos com juros somaram 950 bilhões de reais no atual governo, contra 448 bilhões no anterior. O próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse à revista piauí em agosto que "o Brasil não pode continuar com a maior taxa de juros do mundo", citando o México, que pratica 6,5%, como comparação.

Para quem administra dinheiro de terceiros, a conta preocupa. Pierre Jadoul, da ARX Investimentos, afirmou no programa Stock Pickers que a persistência de juros reais, medidos acima da inflação, no patamar de 8%, somada ao avanço da dívida em relação ao PIB, configura uma trajetória insustentável, e que a margem para evitar um ajuste conduzido pela inflação diminui.

O que o mercado esperava antes da decisão

Uma pesquisa da XP Investimentos com 20 gestoras de fundos, respondida entre 4 e 11 de setembro, dá a medida da divergência. Enquanto 95% esperavam o corte da Selic, 75% apostavam que o Fed manteria os juros parados, o oposto do que indicava o FedWatch. A parcela de gestoras apostando na alta do dólar caiu de 46% em agosto para 20% em setembro, menor nível desde abril, e nenhuma delas estava apostando na queda da bolsa brasileira, algo que não havia ocorrido antes na série. Ao mesmo tempo, a visão negativa sobre a economia brasileira seguiu em 55%, o topo da série histórica.

O que fazer com essa informação

Não reaja ao número. Os 13,75% e a faixa de 3,75% a 4% já estão, em boa parte, no preço. O que vale acompanhar nos dias seguintes é o texto que acompanha cada decisão.

No comunicado do Copom, o ponto é se ele sinaliza pausa ou continuidade dos cortes, e se menciona o petróleo e o câmbio em ano eleitoral no seu balanço de riscos. O mercado está dividido: Sérgio Vale, da MB Associados, e Felipe Salles, do C6 Bank, projetam a Selic parada em 13,75% até o fim do ano; Jeferson Bittencourt, do ASA, vê cortes seguindo até 13,25%; Arnaldo Lima, da Polo Capital, aposta em 13,5%. A diferença entre esses cenários é, na prática, quantos meses o crédito continua neste patamar.

No Fed, o que dá a pista é o sumário de projeções, o placar de votos do comitê e o que Warsh disser na entrevista. Gustavo Sung, da Suno Research, projeta que a alta desta quarta seja a única do ano; Monica Araujo, da InvestSmart, vê o início de um ciclo de aperto. Se a segunda leitura prevalecer, a vantagem dos juros brasileiros sobre os americanos encolhe, e é ela que ajuda a segurar recursos estrangeiros no país.

Se o dólar subir nos próximos dias, há uma forma simples de saber de onde veio a pressão. Benavenuto sugere comparar o real com moedas de outros emergentes: se o dólar sobe contra todos, a origem é externa; se o real perde mais que o peso mexicano, o rand sul-africano ou o peso chileno, o problema é doméstico. Com a eleição de outubro à frente, essa distinção vai ser útil antes do que parece.

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