Cabeça Fria, Coração Quente - Resenha crítica - Abel Ferreira
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Cabeça Fria, Coração Quente - resenha crítica

Biografias & Memórias, translation missing: br.categories_name.modo_copa e Esportes

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978-65-990963-9-6

Editora: Garoa Livros

Resenha crítica

Cabeça Fria, coração quente

Você saberia o que fazer ao receber, no meio de uma pandemia, o convite para treinar um dos maiores clubes da América do Sul? Largaria a família na Europa, atravessaria o Atlântico e enfrentaria um calendário com jogo a cada três dias, sem tempo para treinar?

Foi essa a escolha de Abel Ferreira e sua comissão técnica ao chegar ao Palmeiras em 2020. O que parecia loucura virou método. O que parecia caos virou rotina. E o que parecia sonho virou duas Libertadores, uma Copa do Brasil e uma reinvenção completa da forma de comandar um time no Brasil.

Este microbook conta os bastidores dessa travessia. Você vai entender como a comissão lidou com lesões, surtos de Covid, gramado sintético, veteranos cansados, garotos da base e pênaltis perdidos. Vai descobrir por que o WhatsApp virou sala de aula, por que um peixe dourado morava no escritório do treinador e por que a palavra "competir" foi mais importante que qualquer escalação. No fim, fica claro: o triunfo não veio do talento isolado, mas da capacidade de se adaptar quando tudo desabava ao redor.

A travessia do Atlântico

Tudo começou com um telefonema na Grécia. Abel treinava o PAOK quando ouviu a pergunta: "Querem ir para o Palmeiras?" O choque foi imediato. A comissão conhecia o tamanho do clube, sua história, seu peso. Mas pediu calma. Antes de qualquer resposta, era preciso terminar bem o trabalho na Grécia e estudar o que viria pela frente.

A reunião com a diretoria veio em seguida. Abel deixou claro que não bastava o clube avaliar o treinador, ele também avaliava o clube. Apresentou o método, a filosofia, os auxiliares. Negociou só depois da autorização do PAOK. E ainda assim, aceitar significava deixar a família na Europa em meio à pandemia, num país onde técnicos são demitidos como descartáveis. O risco era enorme. Mas a chance de disputar títulos em um gigante falou mais alto.

A lição de casa começou antes do voo. A comissão analisou os onze últimos campeões do Brasileirão, estudou linguagem, numeração de posições, perfis táticos. Marcou uma chamada de vídeo com os capitães e descobriu algo curioso: os jogadores reclamavam do gramado sintético do Allianz Parque, que ficava seco e travava o jogo. Ao chegar a São Paulo, Abel se encantou com a Academia de Futebol, mas focou no essencial. Abraçou cada atleta, tocou no ombro de cada funcionário e instalou um lema simples: todos somos um.

O calendário brutal e a metodologia virtual

A primeira coletiva foi um cartão de visita. Sem promessa de títulos. Só trabalho, disciplina e a certeza de que ninguém estava ali de férias. Logo veio o choque com o calendário brasileiro. Jogo a cada três dias. Zero tempo para treinar no campo.

A solução foi romper com dogmas europeus. A comissão substituiu treinos longos por análise de vídeo, GPS e recuperação. Criou grupos de WhatsApp separados — Geral, Defesa e Ataque — para fatiar a informação tática sem saturar ninguém. Para descobrir as posições preferidas do elenco, espalhou onze cones em campo e pediu que cada jogador escolhesse o seu lugar. Foi assim que Gustavo Scarpa e Renan se ofereceram para jogar improvisados na lateral, cobrindo a ausência de Esteves.

Veio então a regra das 24 horas: comemorar ou lamentar por um dia, no máximo. Depois, foco no próximo. A regra salvou a equipe das oscilações emocionais. Em paralelo, Abel travou uma batalha burocrática pelo gramado. Os aspersores do Allianz saltaram de quatro para quinze, e o jogo ficou mais rápido. O elenco percebeu: o treinador ouvia e agia. A confiança se instalou em silêncio.

Liderar pelo afeto e pela exigência

Um mês depois da chegada, o Al Rayyan ofereceu uma fortuna para tirar Abel do Brasil. Ele recusou. Disse à imprensa que só trocaria o Palmeiras pela esposa. A mensagem chegou ao vestiário como prova de lealdade. Pouco depois, o treinador testou positivo para Covid-19 e foi isolado dentro do clube. Comandou treinos por tecnologia, palestras por tela. A comissão executou tudo sem ele em campo. Era a prova de que o método não dependia de uma só pessoa.

Lesões graves de Felipe Melo e Wesley, somadas a um surto de Covid no CT, forçaram a integração imediata dos garotos da base. Danilo, Menino, Veron entraram cedo. A fronteira entre titular e reserva ruiu. Abel cobrou que o elenco honrasse a estrutura de ponta do clube. E precisou convencer os veteranos, acostumados a jogar sempre, de que o rodízio era questão de sobrevivência física.

Foi quando surgiu a famosa analogia da saída de bola a três jogadores. Abel comparou a construção tática com o ato de fazer amor: a forma muda, as posições variam, mas o objetivo e o prazer permanecem. A frase virou marca. E mostrou como ele traduzia tática em emoção que o jogador entendia no corpo.

A primeira Glória Eterna

A Libertadores virou obsessão. Abel recusou folgas no fim do ano. Repetia que os sacrifícios de hoje valeriam a pena no futuro. Contra o River Plate, a comissão estudou cada movimento de Marcelo Gallardo. Comprou até um livro sobre o técnico argentino para antecipar suas reações. Mudou para uma linha de cinco na defesa e venceu por 3 a 0 em Buenos Aires.

No jogo de volta, o pânico bateu. O corredor verde da torcida, antes dos portões fechados, gerou pressão. O time desmontou no primeiro tempo. Abel usou no intervalo uma palavra-âncora: competir. Era marcador somático, gatilho mental para reagir. A classificação veio sofrida. Depois, no Derby do Brasileirão, o Palmeiras goleou o Corinthians por 4 a 0 explorando o "movimento facão" nas costas da defesa. A confiança voltou em cheio.

Veio então a final contra o Santos. A comissão usou o Sub-20 para simular vícios ofensivos do adversário durante a semana. Os funcionários do CT entregaram uma camisa autografada por todos. A música "O melhor de mim", da fadista Mariza, embalava a comissão nos bastidores. No Maracanã, jogo travado, anulação mútua. Aos 45 do segundo tempo, Breno Lopes subiu mais alto que todos. Vinte e um anos de jejum acabaram numa cabeçada. A Glória Eterna deixou de ser obsessão.

A ressaca vencedora

A festa durou pouco. Em 75 horas, o time embarcou para o Catar e encarou o Mundial de Clubes com pernas pesadas. Caiu para o Tigres. Empatou com o Al-Ahly e perdeu nos pênaltis a disputa do terceiro lugar. O diagnóstico foi frio: setenta jogos no corpo, exaustão total. Abel mandou espalhar cartazes pelo CT com a frase "o sarrafo aumentou". Sem rodeios.

De volta ao Brasil, a comissão organizou uma festa atrasada da Libertadores com as famílias dos atletas e da equipe técnica. Não foi detalhe. Foi recarga emocional. Mulheres e filhos vivenciaram, finalmente, a glória que tinham só visto pela TV. O treinador sabia: sem família por perto, ninguém aguenta esse ritmo.

Logo veio outra final, agora a Copa do Brasil contra o Grêmio. As funcionárias do clube, sensíveis ao clima, sugeriram folga inesperada para o elenco processar o luto do Mundial. Abel topou. O time voltou inteiro. Anulou os três meias gremistas, venceu por 1 a 0 fora e 2 a 0 em casa. Tríplice coroa fechada. Em paralelo, Abel entregou à diretoria um relatório frontal: pediu reforços e decretou o fim da divisão entre titulares e reservas. Todos passariam a ser titulares.

Entre pênaltis, redes sociais e laboratórios

As férias picotadas do início de 2021 cobraram caro. Sem ritmo, o Palmeiras perdeu Recopa e Supercopa nos pênaltis. A dor foi grande, especialmente na Supercopa, quando o time chegou a estar em vantagem nas penalidades. Logo depois dos títulos históricos, muros do clube apareceram pichados. A torcida cobrava.

Abel adotou a técnica dos Três Budas: não ver, não ouvir, não falar sobre redes sociais. Era armadura mental. A comissão precisava preservar o equilíbrio do grupo diante de um calendário absurdo: 22 jogos em 53 dias. Foram montadas três escalações paralelas para sobreviver em todas as frentes.

O Campeonato Paulista virou laboratório. Garotos da base eliminaram Bragantino e Corinthians. Na final, contra o São Paulo de Crespo, o esquema de marcação individual estrangulou o time. Veio a derrota e a sensação amarga. Pouco depois, o CRB, da Série B, eliminou o Palmeiras nos pênaltis da Copa do Brasil com 34 finalizações desperdiçadas na partida. Restou o Brasileirão, que foi dividido pragmaticamente em jogos contra o G8 e o G11. Vencer os pequenos seria a chave.

Caminho de pedras na nova Libertadores

A comissão desenhou uma montanha visual no vestiário. O time precisava escalar de novo. Contra a Universidad Católica no Chile, o zagueiro Kuscevic alertou sobre a violência local. Veiga e Scarpa atuaram juntos pelo centro. Vitória pragmática. Na volta, os chilenos espelharam a formação. O Palmeiras adaptou, atraiu o rival ao meio e classificou.

Veio o Choque-Rei nas quartas. Trauma histórico. No primeiro jogo, empate em 1 a 1 com Dudu livre entre linhas. Na volta, atropelo de 3 a 0 com transições letais. Fantasma exorcizado. Contra o Atlético Mineiro, lema novo: "Vamos proteger o que é nosso". Abel colocou a taça da Libertadores no vestiário antes do jogo. Empate sem gols na ida, com Hulk perdendo pênalti. Na volta, mudança para três volantes e gol heroico de Dudu na transição. Final marcada.

Entre as semifinais continentais, o Brasileirão sangrava. Após derrotas em casa, Abel deu ultimato no vestiário: "Se não ganharmos nenhum título, vou embora". Logo comprou um peixe dourado para o escritório. O nome: Libertadores. O peixe era totem da memória curta: esquecer pressão, esquecer glória, focar no próximo. A reunião com a recém-empossada presidente Leila Pereira garantiu continuidade do projeto.

O xeque-mate em Montevidéu

Para a final contra o Flamengo, a comissão criou "O Plano". Sacrificou clássicos no Brasileirão poupando os onze titulares. Felipe Melo, ícone do grupo, foi sentado no banco com honestidade brutal e cuidado emocional. A base e o time secundário sustentaram os jogos nacionais.

A preparação tática foi delegada aos próprios atletas. Em sala de vídeo, eles mesmos identificaram as fendas do Flamengo: alas vulneráveis, espaços nas costas. Abel apenas conduziu. Definiu construção em três com Piquerez, liberando Mayke pela direita. A trilha emocional foi minuciosa: nove passos motivacionais do embarque ao vestiário, mensagens das famílias em vídeo, cartas embaixo das portas dos quartos, objetos de infância sobre as camas.

Em Montevidéu, o primeiro gol saiu exatamente como treinado: saída pelo lado, movimento de Dudu, finalização de Mayke. No segundo tempo, resistência heroica sob pressão. Na prorrogação, Deyverson roubou bola após pressão pós-perda exaustivamente ensaiada e fez o gol do título. Bicampeonato no mesmo ano civil. Recordes pulverizados. Abel entrou no panteão de Felipão, Telê e Bianchi.

O futebol brasileiro precisa mudar

A obra de Abel termina com um diagnóstico duro do ambiente local. Ele exalta o talento bruto dos jogadores, a qualidade dos centros de treinamento e a competitividade do Brasileirão. Mas critica sem rodeios a maratona de oitenta jogos anuais e os campeonatos estaduais arrastados, que devoram corpos e mentes.

Defende a implementação do Fair Play financeiro para equilibrar a competição. Pede profissionalização absoluta da arbitragem. Cobra que datas FIFA paralisem o torneio nacional, como acontece na Europa, para que os clubes não joguem desfalcados de seus principais atletas. E aponta o desperdício de talentos provocado por uma estrutura que sufoca o trabalho de longo prazo.

A mensagem final é estrutural. Sem reforma do calendário, sem profissionalização da gestão, sem pensamento de longa duração, o futebol brasileiro continuará dependendo apenas do talento individual para brilhar. Para Abel, ninguém ganha sozinho contra um sistema que adoece o jogo.

A tática mestra era a adaptação

No fim, a verdadeira conquista não foram as taças, mas o que sustentou cada uma. Aprender com gramado seco, jogar sem treinar, liderar de quarentena, sentar veteranos, abraçar funcionários, esquecer redes, lembrar famílias. Adaptar-se quando o caos virou rotina. Esse é o método que sobrevive a qualquer clube, qualquer país, qualquer calendário.

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Quem escreveu o livro?

O português Abel Ferreira é o vitorioso treinador do Palmeiras desde outubro de 2020. Desde então, conquistou campeonatos contin... (Leia mais)

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