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Editora: 12min
Chatbots de inteligência artificial generativa são programas que conversam por escrito e respondem a perguntas feitas em linguagem comum. ChatGPT, Gemini, Claude, Grok, DeepSeek, Copilot e Meta AI estão entre os mais usados, e em ano eleitoral muita gente recorre a eles para saber quem são os candidatos, o que cada um propõe e, no limite, qual deles se aproxima mais do que a pessoa pensa.
Foi justamente esse tipo de uso que o Tribunal Superior Eleitoral procurou limitar. Duas apurações divulgadas em setembro, feitas de forma independente uma da outra, encontraram respostas de ferramentas de inteligência artificial que se aproximam ou entram nas situações previstas pela resolução do tribunal.
Em março de 2026, o TSE aprovou a Resolução 23.755/2026. O texto veta às ferramentas de inteligência artificial "ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatas(os), campanhas, partidos políticos, federações ou coligações", e deixa explícito que a proibição vale mesmo quando é o próprio usuário quem pede.
A resolução vai além do ranking. Também proíbe que os chatbots emitam opiniões, indiquem preferência eleitoral, recomendem voto ou pratiquem "qualquer forma de favorecimento ou desfavorecimento político-eleitoral, de maneira direta ou indireta".
A regra estabelece, portanto, um limite para o uso de ferramentas de IA durante a campanha: elas podem apresentar informações sobre candidatos e propostas, mas não devem transformar essas informações em recomendação, preferência ou classificação eleitoral.
A Folha testou cinco ferramentas gratuitas entre os dias 3 e 4 de setembro, com um login criado só para a apuração e num navegador sem outras sessões abertas. Foram 15 perguntas sobre a eleição, sem que a reportagem citasse nomes: quem são os presidenciáveis, quais as melhores propostas em segurança, saúde, economia e combate à corrupção, e uma classificação de 0 a 10 para cada área.
Três dos cinco apresentaram respostas que, segundo a reportagem, contrariavam a restrição estabelecida pelo TSE: Claude, da Anthropic; DeepSeek; e Gemini, do Google. Claude e DeepSeek deram as maiores pontuações a Ronaldo Caiado (PSD), e o Gemini, a Lula (PT). Claude e Gemini também indicaram qual nome seria mais compatível com o que o eleitor dizia buscar.
Outro resultado chamou atenção no teste: as respostas mudaram quando a Folha repetiu as mesmas perguntas 24 horas depois. Todas as cinco plataformas apresentaram alguma alteração. No Claude, as notas quase todas caíram, a ordem dos seis primeiros mudou e três candidatos que apareciam no primeiro dia sumiram da lista no segundo, agrupados como "esquerda radical". No DeepSeek, Lula e Romeu Zema (Novo) trocaram de posição.
O próprio Claude reconheceu a arbitrariedade do critério ao fim da classificação geral: "Peso igual é uma escolha arbitrária minha, não uma verdade. Se você se importa muito mais com saúde do que com corrupção, por exemplo, o ranking muda bastante."
ChatGPT e Grok se recusaram a produzir a classificação. "Uma nota agregada seria necessariamente um juízo sobre quais candidaturas têm o melhor conjunto de políticas, e eu não posso produzir esse tipo de ranking ou recomendação eleitoral", respondeu o ChatGPT. O Grok disse que pontuar "seria uma forma de ranqueamento e expressaria preferência, o que não é compatível com a neutralidade".
Procurado, o Google afirmou que o Gemini "gera respostas com base em prompts dos próprios usuários, conteúdo da web e em alinhamento com nossas políticas", mas não explicou por que a ferramenta apresentou esse tipo de resposta. Anthropic e DeepSeek não têm equipes de comunicação no Brasil e não responderam aos e-mails da Folha.
O segundo levantamento, do InternetLab em parceria com o LabDados/FGV e a Rede Conhecimento Social, testou oito ferramentas: ChatGPT, Claude, Copilot, DeepSeek, Gemini, Google AI Mode, Grok e Meta AI pelo WhatsApp. Os dados foram coletados entre 27 e 31 de agosto, em 1.679 conversas simuladas por um modelo de linguagem que assumia perfis sorteados de usuário, variando posição política, gênero, idade, escolaridade e estilo de escrita.
O levantamento encontrou, nos oito modelos, respostas que relacionavam candidatos ao perfil ou às preferências de quem perguntava. A frequência variou de metade das conversas, no ChatGPT, a praticamente todas, no DeepSeek. O ranqueamento explícito também apareceu, e a indicação direta de um nome chegou a ocorrer na maioria das conversas com o DeepSeek.
Na prática, algumas respostas não diziam diretamente "vote em fulano", mas estabeleciam uma relação entre a preferência informada pelo usuário e uma candidatura. Num teste sobre o governo paulista, uma plataforma se recusou a desempatar e em seguida escreveu que, se o que convencia o usuário era continuar uma política de segurança já em execução, "é a proposta de Tarcísio de Freitas que você deve examinar com mais atenção". Em outra conversa, com um usuário que havia dito priorizar saúde pública, a ferramenta respondeu que "Fernando Haddad é o nome que mais aparece na imprensa com propostas detalhadas" na área.
Heloísa Massaro, diretora de Pesquisas e Operações do InternetLab, afirma que esse comportamento varia muito, "desde uma listagem de propostas por tópico até algo bem próximo de uma indicação", e que a diferença em relação à busca tradicional é a existência de uma camada que organiza e interpreta o conteúdo. "Isso coloca para nós uma questão importante sobre o que é aceitável e o que pode gerar interferência eleitoral. Onde traçamos essa linha?", disse.
O estudo analisou também respostas relacionadas à integridade do pleito. Desinformação básica sobre o voto, como quem vota, quando e com que documento, foi rara. Já respostas que reforçaram a descredibilização da urna eletrônica apareceram em mais da metade das conversas com Grok e DeepSeek. Num exemplo, a ferramenta respondeu que "a falta de um comprovante individual é o cerne da desconfiança".
Relatórios do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio acompanham como as IAs respondem a dúvidas eleitorais. Segundo o levantamento citado, o índice de respostas que ranqueavam candidaturas passou de uma média de 66% em março, quando a resolução foi aprovada, para 90% no levantamento mais recente, de julho.
Para a advogada eleitoral Letícia Maesta, as respostas indicam descumprimento da norma. "A atribuição de notas às propostas e, sobretudo, a indicação de qual candidatura seria a melhor opção para o eleitor materializam justamente a conduta que a norma buscou impedir", afirmou à Folha. Ela defende que a Justiça Eleitoral apure como as plataformas funcionam e por que não bloquearam essas respostas.
O TSE, procurado, respondeu que a fiscalização não compete apenas ao tribunal, mas também a partidos, candidatos e ao Ministério Público Eleitoral, e que "eventuais transgressões, quando judicializadas, são apreciadas pelo TSE no exercício da função jurisdicional". O tribunal não disse o que pode acontecer com as empresas em caso de descumprimento.
Se você usa um chatbot para se informar sobre a eleição, os dois levantamentos mostram que a mesma pergunta pode produzir respostas diferentes entre ferramentas e também em momentos diferentes. No teste da Folha, as cinco plataformas apresentaram alterações quando as perguntas foram repetidas 24 horas depois. Isso recomenda tratar as respostas como ponto de partida para a pesquisa, e não como uma classificação definitiva.
Também vale distinguir dois tipos de resposta. Uma coisa é a ferramenta apresentar informações sobre as propostas de cada candidato. Outra é atribuir notas, montar uma classificação ou relacionar diretamente uma preferência declarada pelo usuário a um candidato específico. São justamente esses comportamentos que a resolução do TSE procura restringir.
Quando o assunto é a urna eletrônica, também é importante separar informação sobre o funcionamento do sistema de afirmações que colocam sua segurança em dúvida. No levantamento do InternetLab, respostas que reforçavam a descredibilização da urna apareceram com mais frequência do que erros factuais sobre como votar em algumas das ferramentas testadas.
O que permanece em aberto é como a regra será aplicada na prática. As duas apurações encontraram respostas que entram nas situações descritas pela resolução, enquanto o TSE afirma que a fiscalização envolve também partidos, candidatos e o Ministério Público Eleitoral. A eventual judicialização desses casos deve mostrar como a Justiça Eleitoral aplicará a norma às plataformas.
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