Como o caso Banco Master entra na disputa presidencial de 2026 - Resenha crítica - 12min Originals
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Como o caso Banco Master entra na disputa presidencial de 2026 - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O Banco Master era uma instituição financeira de porte médio que cresceu nos últimos anos vendendo títulos de renda fixa com rendimentos muito acima da média do mercado. A atratividade desses papéis vinha, em boa parte, da garantia do Fundo Garantidor de Créditos, o mecanismo que devolve o dinheiro do investidor quando um banco quebra. Segundo os investigadores, o banco não tinha ativos suficientes para honrar o que vendia, e parte dos recursos foi desviada para contas de fachada.

O Banco Central liquidou a instituição em 2025, e seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso, acusado de crimes como fraude e lavagem de dinheiro. Ele nega. A quebra acionou um pagamento de cerca de R$ 7,7 bilhões pelo Fundo Garantidor de Créditos, o maior desembolso da história do mecanismo.

O caso importa para além do sistema financeiro porque, ao examinar o celular de Vorcaro, a Polícia Federal encontrou mensagens com figuras de praticamente todos os campos políticos do país. Entre elas, as do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que disputa o segundo turno da eleição presidencial contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 25 de outubro.

O inquérito sobre o financiamento de "Dark Horse"

Em maio, o site The Intercept Brasil publicou áudios e mensagens em que Flávio negociava com Vorcaro o financiamento de "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro. Segundo as apurações, o senador pediu cerca de R$ 130 milhões, dos quais R$ 61 milhões foram efetivamente pagos. Em uma das mensagens, de 16 de novembro, véspera da primeira prisão do banqueiro, Flávio escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente".

Em julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, abriu inquérito para apurar suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro ligadas ao financiamento. Flávio nega irregularidades e sustenta que o acordo foi estritamente privado, sem dinheiro público.

As explicações do senador mudaram ao longo dos meses. No dia em que o caso veio à tona, ele negou que Vorcaro tivesse financiado o filme; depois disse que havia cláusula de confidencialidade. Prometeu apresentar prestação de contas em 30 dias e, vencido o prazo, remeteu a uma perícia contratada pela própria produtora. Negou proximidade com o banqueiro e, mais tarde, admitiu tê-lo visitado após a primeira prisão, quando Vorcaro já usava tornozeleira eletrônica, para, segundo ele, encerrar a negociação. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, deu outra versão em entrevista à GloboNews: "Foi visitar depois para ver se conseguia o restante do dinheiro". Mais recentemente, Flávio passou a tratar o assunto como "página virada".

O caso envolve políticos de diferentes grupos

O caso também envolve nomes de diferentes partidos e instituições. O ex-líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), deixou a liderança em junho depois que veio à tona a negociação de um apartamento de R$ 2,45 milhões bancado pelo Master; sua defesa nega que ele tenha recebido vantagens e afirma que o senador não é dono do imóvel. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), aparece em diálogos sobre hospedagens em Lisboa e um empréstimo a empresa de uma parente; ele diz que não há ilícito nas conversas. O presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, admitiu ter prestado serviços de advocacia ao conglomerado e classifica o trabalho como atividade profissional regular.

Segundo a Polícia Federal, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) teria recebido pagamentos mensais e viagens custeadas pelo banqueiro e apresentado proposta de interesse do Master no Congresso, que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Ele afirma nunca ter mantido conduta inadequada.

O caso também alcançou o Judiciário. Investigadores identificaram um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e um escritório dirigido pela mulher do ministro Alexandre de Moraes, além de mensagens que Vorcaro teria redigido a um contato salvo com o nome do ministro. Moraes nega ter trocado mensagens com o banqueiro e chamou as acusações de farsa com fins políticos e eleitorais. Em setembro, o Supremo adiou a decisão sobre abrir investigação formal.

O que as urnas mostraram sobre os citados

No primeiro turno, Flávio terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Entre os demais nomes ligados ao caso, levantamentos da imprensa apontam que a maioria foi eleita ou reeleita: Wagner, Motta, Rueda e o deputado Mário Frias (PL-SP), também alvo do inquérito sobre o filme. Ciro Nogueira ficou em terceiro na disputa pelo Senado no Piauí e, pela primeira vez desde 1994, ficará sem mandato. ACM Neto (União-BA), que recebeu R$ 3,6 milhões do Master e de uma gestora de recursos e afirma que os valores se referem a serviços de consultoria, perdeu a eleição para o governo da Bahia.

As pesquisas divulgadas durante a campanha registraram a percepção dos eleitores sobre o caso, mas não permitem determinar, isoladamente, quanto ele influenciou o resultado. Um dado ajuda a entender por que a leitura não é direta: levantamento Datafolha de setembro mostrou que 34% dos entrevistados associavam o caso mais a políticos de esquerda e 27%, mais a políticos de direita; outros 13% o viam ligado a políticos de todos os grupos, e 16% não souberam responder.

O pano de fundo: a crise no Judiciário e o debate cancelado

O caso Master se somou a uma crise dentro do próprio Supremo, com ministros trocando críticas públicas. Moraes é alvo de questionamentos sobre sua relação com Vorcaro, enquanto Mendonça é o relator do inquérito sobre o financiamento do filme. As acusações e questionamentos mencionados acima ainda não resultaram em decisão definitiva da Corte.

A última semana de campanha terminou com o cancelamento do debate da TV Globo, em 1º de outubro. Horas antes do evento, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, proibiu a emissora de exibir o púlpito vazio de Lula, que já havia decidido não comparecer, e vetou perguntas dirigidas a ele. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo, determinou a inclusão de um candidato cujo partido não atendia ao critério legal de representação no Congresso. Flávio desistiu de participar e a emissora cancelou o debate, citando "insegurança jurídica" e "interferência indevida na liberdade" da imprensa. Foi a primeira vez em vinte anos que os dois primeiros colocados nas pesquisas chegaram às urnas sem ter participado de um mesmo debate.

Há ainda uma disputa aberta sobre as próprias pesquisas. O PL questionou no Tribunal Superior Eleitoral um levantamento da AtlasIntel que media os efeitos do caso sobre Flávio, alegando direcionamento das perguntas. O ministro Kassio Nunes Marques concedeu liminar parcial proibindo novas divulgações; a Procuradoria-Geral Eleitoral se manifestou pela rejeição da ação, sustentando que não houve irregularidade. O julgamento está suspenso desde 9 de junho, após pedido de vista.

O que fazer com essa informação

O inquérito sobre o financiamento de "Dark Horse" segue em andamento no Supremo, e nada nele está julgado. Vale acompanhar se há decisão do tribunal antes de 25 de outubro, tanto nesse caso quanto na apuração sobre Moraes, que o Supremo adiou em setembro. Uma decisão em qualquer dos dois muda o que se sabe hoje.

Outro ponto a acompanhar é a prestação de contas que Flávio havia prometido apresentar em 30 dias e que não foi publicada nos termos anunciados. Segundo a perícia contratada pela própria produtora, há R$ 75 milhões em gastos sem recibos ou notas fiscais. Se documentação verificável aparecer, ela responde uma pergunta central do caso.

Vale também observar se o segundo turno trata o assunto de frente. Lula faltou a todos os debates do primeiro turno e afirmou que pretende participar agora que a disputa é entre dois nomes. Debate realizado é a ocasião em que as versões apresentadas ao longo dos meses podem ser confrontadas publicamente, o que não aconteceu até aqui.

Por fim, o caso Master não termina na eleição. A liquidação do banco, o desembolso bilionário do Fundo Garantidor de Créditos e as propostas legislativas apresentadas durante o período em que o banco crescia são assuntos de regulação financeira que seguem depois de outubro, independentemente de quem vença.

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