Como o Fascismo Funciona Resenha crítica
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Como o Fascismo Funciona - resenha crítica

Sociedade & Política

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 9780525511830

Editora: Random House

Resenha crítica

Você já reparou como certas frases parecem inofensivas até você olhar de perto? "Lei e ordem." "Fazer o país grande de novo." "Combater a corrupção." Palavras bonitas, familiares, quase impossíveis de contestar em voz alta. É exatamente aí que mora o problema.

Jason Stanley cresceu ouvindo histórias de pais que fugiram da Europa como refugiados. Ele conta que os Estados Unidos aprenderam a se enxergar como o país que derrotou o fascismo — e esqueceram que, antes da guerra, havia um movimento pró-fascista bem vivo em casa, com Charles Lindbergh e o slogan "América Primeiro". Quando aquele mesmo slogan voltou décadas depois, Stanley fez a pergunta óbvia: qual grandeza, exatamente, estamos tentando recuperar?

Este microbook não trata de um Estado fascista já instalado, com tanques nas ruas. Trata das táticas que levam até lá. Stanley identifica dez delas, e todas servem a um único mecanismo: rachar a população entre "nós" e "eles". Quando essa rachadura funciona, a crueldade deixa de ser crueldade. Vira justiça.

E o mais incômodo: nenhuma dessas táticas depende de você acreditar nelas. Basta você se acostumar.

O passado que nunca existiu

Toda política fascista começa inventando uma era de ouro. Um tempo em que a nação era pura, forte, coesa — antes que o liberalismo, o cosmopolitismo e os de fora estragassem tudo. Não importa se esse passado existiu. Mussolini era desconcertantemente honesto sobre isso: dizia que o mito não precisava ser real, bastava ser uma fé, uma paixão capaz de traduzir a grandeza da nação. O mito não é uma descrição. É um combustível.

No centro desse passado inventado está quase sempre a família patriarcal. O pai manda em casa, e o líder manda no país como um pai. A hierarquia de gênero vira o molde de todas as outras hierarquias — de classe, de raça, de origem. Quem questiona o lugar da mulher está, pela mesma lógica, questionando a ordem natural inteira.

O mito tem um segundo movimento, igualmente importante: apagar as manchas. Nos Estados Unidos, a maioria dos monumentos confederados não foi erguida logo após a Guerra Civil — veio bem depois, numa onda tardia que servia para cobrir a escravidão com uma camada de bronze heroico. Na Polônia, foram aprovadas leis que ameaçam com prisão quem associe o Estado polonês aos crimes nazistas do Holocausto. Na França, Marine Le Pen negou a cumplicidade francesa na deportação de judeus. Negar o crime antigo é condição para se apresentar como vítima hoje.

Palavras bonitas, intenções cruéis

A propaganda eficaz não anuncia o que pretende fazer. Ela veste a intenção com uma roupa virtuosa. Uma agenda racista não se apresenta como racismo: apresenta-se como "lei e ordem". Uma guerra por território e poder vira "luta pela liberdade". Quem discorda é empurrado para uma posição absurda — você é contra a ordem? Contra a liberdade?

O caso mais engenhoso é o da corrupção. Políticos autoritários sobem ao poder prometendo limpar um sistema podre, e frequentemente são eles próprios muito mais corruptos que seus antecessores. Stanley mostra que a palavra sofre uma troca silenciosa de sentido. "Corrupção" deixa de significar roubo de dinheiro público e passa a significar outra coisa: a quebra da ordem tradicional. Minorias chegando a cargos de poder, mulheres ocupando espaços antes fechados — isso é que é tratado como a verdadeira contaminação.

A partir daí, os valores democráticos viram armas contra a própria democracia. "Liberdade de expressão" é invocada para espalhar ódio e, ao mesmo tempo, calar quem responde. "Democracia" é redefinida como aclamação de um homem só. Nada disso apela à razão — e nem quer. O alvo é a emoção, e a mensagem de fundo é sempre a mesma: a vida é uma luta brutal, só a força importa, e quem fala em argumento é fraco.

A guerra contra quem pensa

Para que o vocabulário possa ser sequestrado, é preciso enfraquecer quem o examina. Por isso as universidades estão sempre na linha de frente. São acusadas de doutrinação, de "correção política", de fabricar problemas onde não existiriam. Os alvos preferidos são os campos que investigam hierarquias: estudos de gênero, estudos étnicos, história das minorias.

Isso não é retórica solta. Em São Petersburgo, a Universidade Europeia foi forçada a encerrar atividades, numa pressão impulsionada pelo parlamentar russo Vitaly Milonov, que chamava os estudos de gênero de falsos e nojentos. Nos Estados Unidos, o rádio conservador construiu por décadas a ideia de que universidades, governo e imprensa formavam os cantos de um mesmo engano organizado contra o cidadão comum. Desacreditado o especialista, sobra o "homem de ação" — aquele que confia no instinto e dispensa evidência.

Junto com as instituições, empobrece-se a própria língua. Hitler escreveu em Mein Kampf que a propaganda deveria se ajustar ao estrato menos instruído das massas, reduzir tudo a poucos pontos e repeti-los sem descanso. Quando o vocabulário público encolhe a meia dúzia de slogans, pensamentos complexos deixam de caber nele. Não é que as pessoas fiquem proibidas de discordar. É que falta palavra para formular a discordância.

Quando a realidade deixa de ser compartilhada

Com a imprensa desacreditada e a universidade transformada em inimiga, acontece algo mais grave que a mentira pontual: deixa de existir um chão comum de fatos. O debate democrático pressupõe que duas pessoas discordando reconheçam a mesma realidade. Sem isso, resta identidade contra identidade.

É aqui que entram as teorias da conspiração, e é importante entender que elas não precisam ser realmente acreditadas para funcionar. Sua função é semear desconfiança e grudar uma suspeita permanente no adversário. Os Protocolos dos Sábios de Sião, fabricação russa do início do século passado, alimentou o delírio nazista de uma conspiração judaica mundial. Em 2016, o pânico forjado do "Pizzagate" fez pessoas acreditarem que havia uma rede criminosa operando no porão de uma pizzaria em Washington — um porão que nem existia. A campanha que questionava o local de nascimento de Barack Obama repetiu o truque: a dúvida se mantém viva mesmo depois de desmentida, e quando a imprensa séria se recusa a tratá-la como legítima, parece que está escondendo algo.

Há ainda uma inversão perversa. Num ambiente onde toda política parece hipócrita, o líder que mente de forma escancarada passa a soar autêntico. Ele não é punido pela mentira — é premiado por "falar o que pensa".

O privilégio que se sente como opressão

A igualdade humana não é um dado óbvio para a ideologia autoritária. Ela é tratada como invenção frágil, até como infecção que enfraquece os fortes. No lugar, afirma-se que a hierarquia é a lei da natureza: alguns grupos nasceram para mandar, outros para obedecer, e qualquer tentativa de mexer nisso é subversão. O Discurso da Pedra Angular, proferido na Confederação americana em 1861, dizia exatamente isso com todas as letras — que a subordinação das pessoas negras era a grande verdade da natureza.

O desdobramento contemporâneo é mais sutil e mais eficaz. Quando um grupo acostumado ao topo perde parte da vantagem, a perda não é vivida como aproximação da igualdade. É vivida como roubo. Pesquisas em psicologia social mostram que a simples perspectiva de deixar de ser maioria desperta sensação de ameaça e empurra pessoas para posições mais à direita. Ativistas dos "direitos dos homens" articulam isso de forma nítida: tratam o avanço feminista como prova de que homens brancos viraram as verdadeiras vítimas do Ocidente.

E uma dor histórica real pode ser sequestrada para o mesmo fim. Em 1989, no Kosovo, Slobodan Milošević discursou invocando seis séculos de derrotas sérvias — sofrimento verdadeiro, transformado em licença para atrocidades e limpeza étnica contra muçulmanos. A diferença entre o nacionalismo que liberta e o que domina desaparece quando o algoz consegue se enxergar como mártir.

"Lei e ordem" tem cor

O discurso de lei e ordem parece neutro. Quem seria contra a lei? Mas Stanley mostra que ele funciona como instrumento de classificação: separa cidadãos de bem de um grupo tratado como criminoso por natureza. A presença dessas pessoas já é, em si, a infração.

A linguagem faz esse trabalho com precisão quase invisível. Quando alguém do "nós" erra, descreve-se o ato: ele cometeu um erro, agiu mal naquele dia. Quando alguém do "eles" erra, descreve-se o caráter: ele é um criminoso. O primeiro tem biografia; o segundo tem essência.

Os efeitos são mensuráveis. Em 1996, o estudo dos "superpredadores" previu uma onda monstruosa de violência juvenil racializada que nunca aconteceu — e, mesmo falso, ajudou a mandar adolescentes negros para julgamento como adultos e alimentou o encarceramento em massa. Nos anos 1960, Richard Nixon converteu protestos urbanos por direitos civis em histeria nacional sobre tumultos e crime. E o contraste de empatia é escancarado: a crise dos opioides entre americanos brancos foi tratada como tragédia de saúde pública merecedora de compaixão, enquanto as drogas em bairros negros, décadas antes, foram tratadas como caso de polícia. O ciclo se fecha sozinho: encarcerar gera desemprego e marginalização, que parecem confirmar o estereótipo que justificou encarcerar.

Pânico sexual e o veneno contra a cidade

Nenhuma emoção mobiliza tão rápido quanto o medo sexual, e a propaganda autoritária sabe disso. O roteiro é antigo: o homem do grupo minoritário é pintado como predador que ameaça as mulheres do grupo dominante. Em 1919, a Alemanha espalhou pela Europa a campanha difamatória do "Horror Negro no Reno", com relatos inventados de estupros em massa de mulheres loiras por tropas coloniais africanas do exército francês. A mesma lógica justificou linchamentos nos Estados Unidos e sustenta hoje a retórica contra refugiados.

A versão atual mudou de alvo, não de estrutura. As leis americanas que restringem o uso de banheiros públicos foram vendidas com a imagem absurda de meninas trans como predadoras sexuais. O que está sendo defendido não é a segurança de ninguém — é uma ordem de gênero. Feminismo, direitos LGBTQ+ e autonomia reprodutiva são reenquadrados como ameaça física à família e à nação, o que permite atacar a liberdade sem precisar dizer que se é contra a liberdade.

Esse pânico tem geografia. A cidade grande é descrita como ninho de perversão, mistura e conspiração; o campo, como reserva de pureza e trabalho honesto. Hitler escreveu sobre a Viena cosmopolita com asco explícito, comparando a metrópole diversa a um crescimento fúngico, e idealizou a aldeia onde crescera. O apelo funciona até onde quase não há imigrantes — porque não fala de imigração, fala de abandono.

Dividir para desorganizar

A última peça é econômica, e é a que revela o projeto. A sociedade é partida entre os que trabalham e os que supostamente vivem às custas dos outros. Daí nasce a justificativa para desmontar a proteção social: por que sustentar parasitas? A preguiça é atribuída a minorias e imigrantes, e a cura prescrita é o trabalho forçado, capaz de purificar. Foi essa lógica monstruosa que colocou "Arbeit Macht Frei" — o trabalho liberta — acima dos portões de Auschwitz.

Os sindicatos são alvo prioritário por um motivo específico: eles produzem exatamente a solidariedade que a divisão entre "nós" e "eles" precisa impedir. Nos anos 1940, no sul dos Estados Unidos, o lobista Vance Muse conduziu a campanha pelo chamado "direito ao trabalho" com um objetivo que ele não escondia: impedir que trabalhadores brancos se organizassem ao lado de trabalhadores negros. Enfraquecido o sindicato, cada pessoa fica sozinha diante do patrão e do líder.

O vocabulário sobreviveu. Hoje, em vez de "parasitas", fala-se em "criadores" de riqueza e "aproveitadores" dependentes — a mesma frieza darwinista, com roupa de planilha. E o truque final é que a política cria o fato que ela alega descrever: empobreça um grupo, feche suas escolas, feche seu acesso ao crédito, e ele parecerá exatamente tão dependente quanto o estereótipo dizia.

Notas finais

A tirania raramente chega de uma vez. Ela avança pelo hábito: cada absurdo repetido perde a capacidade de chocar, e o silêncio cínico de quem já ouviu aquilo antes faz o resto do trabalho. Checar fatos é necessário e insuficiente — o alvo real nunca foi a verdade, foi a empatia. Reconhecer a humanidade do outro é o ato político que esta máquina não consegue digerir.

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