Crianças de 8 anos já tomam canetas emagrecedoras nos EUA - Resenha crítica - 12min Originals
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Crianças de 8 anos já tomam canetas emagrecedoras nos EUA - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O que é um GLP-1, e por que ele virou tratamento para obesidade

O GLP-1 é um hormônio natural produzido pelo intestino. Ele ajuda a controlar o açúcar no sangue, aumenta a sensação de saciedade e reduz o apetite. As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos que imitam a ação desse hormônio no corpo: no pâncreas, estimulam a produção de insulina, razão pela qual também são usadas contra diabetes; no estômago, reduzem a velocidade da digestão; no cérebro, ativam a saciedade, o que leva à perda de peso. Os nomes comerciais mais conhecidos dessa classe são o Wegovy e o Saxenda, da Novo Nordisk, e o Zepbound, da Eli Lilly.

Por que isso chega a muita gente: segundo o último atlas da Federação Mundial da Obesidade, cerca de 177 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos viviam com obesidade em 2025, número que deve subir para 228 milhões até 2040. No Brasil, as projeções do mesmo atlas indicam que, até 2040, metade das crianças e adolescentes nessa faixa de idade terá excesso de peso, e 11,9% terão obesidade.

É nesse cenário que entram dois estudos que acabaram de vir a público, um sobre o que já está acontecendo nos consultórios americanos e outro sobre o que a ciência começa a medir.

Aprovado a partir dos 12 anos, usado a partir dos 8

Hoje o Wegovy é aprovado apenas para pacientes de 12 anos ou mais, e os medicamentos da classe não têm aprovação para uso em crianças menores do que isso. Mesmo assim, o uso já existe: as diretrizes clínicas nos Estados Unidos permitem que esses remédios sejam usados para tratar obesidade em crianças a partir dos oito anos de idade, em certos casos.

E não são casos leves. Entre as crianças que receberam prescrição de um GLP-1, 94% tinham obesidade grave, e cerca de 65% apresentavam pelo menos uma condição de saúde associada, como colesterol alto, pressão alta ou apneia do sono.

De 0,03% para 9,3% em seis anos

O estudo que mediu essa prática foi divulgado em 4 de setembro na revista Pediatrics. Ele acompanhou mais de 3,5 milhões de crianças de 8 a 11 anos com obesidade e sem diabetes, e concluiu que as prescrições de medicamentos à base de GLP-1 para menores de 12 anos nos Estados Unidos aumentaram mais de 300 vezes desde 2019. Em números diretos, a proporção passou de 0,03% em 2019 para 9,3% em junho deste ano. No total, 20.282 crianças receberam esses medicamentos no período, na maioria das vezes o Wegovy.

O pesquisador principal, Babak Orandi, especialista em medicina da obesidade do NYU Langone Health, afirmou que o número absoluto de crianças abaixo de 12 anos em tratamento com GLP-1 ainda é baixo, mas que o uso está crescendo rapidamente, e acrescentou que é necessário monitoramento de segurança de longo prazo para garantir que os medicamentos continuem seguros e eficazes.

Os dados vêm do Epic Cosmos, um banco nacional de prontuários eletrônicos que cobre mais de 300 milhões de pacientes nos Estados Unidos. A Epic não participou do estudo.

Quem recebe a prescrição primeiro

O mesmo estudo encontrou uma diferença que não é clínica: crianças que vivem em comunidades de renda mais alta tinham 55% mais chances de receber a prescrição desses medicamentos, o que, segundo os autores, sugere o surgimento de disparidades no acesso.

"Tanto os médicos quanto os formuladores de políticas de saúde têm a responsabilidade de garantir que esses tratamentos valiosos e, às vezes, caros, estejam disponíveis para mais pessoas além daquelas que têm acesso a planos de saúde e podem arcar com os custos de consultas em clínicas pediátricas", disse Allan Massie, coautor do estudo e professor associado de cirurgia na NYU Grossman School of Medicine.

O ensaio que pode mudar a bula

O segundo estudo é um ensaio clínico com o Wegovy em crianças menores do que a idade de aprovação. Participaram 165 crianças de 6 a 11 anos, das quais 85% tinham, no início, índice de massa corporal na faixa de obesidade grave. Quem recebeu o medicamento tomou uma injeção semanal de semaglutida, o princípio ativo, em dose máxima de 1,7 mg ou 2,4 mg conforme o peso no início do estudo.

Depois de cerca de um ano, 40% das crianças que receberam o Wegovy deixaram de ser classificadas como obesas, ou seja, duas em cada cinco. No grupo que recebeu placebo, nenhuma criança saiu da classificação de obesidade, ainda que todas tenham recebido um programa de exercícios e uma dieta com redução de calorias. A segurança e a tolerabilidade observadas entre as crianças menores foram consistentes com as registradas nos estudos com adultos e adolescentes.

Em estudos anteriores, o Wegovy já havia se mostrado eficaz e seguro em crianças mais velhas, e foi por isso que ganhou aprovação a partir dos 12 anos. Este é o primeiro ensaio clínico a analisar seus efeitos em crianças menores.

"A obesidade infantil é particularmente preocupante devido aos impactos imediatos e duradouros sobre a saúde, incluindo uma forte predisposição à obesidade na vida adulta e um risco aumentado de surgimento precoce de complicações relacionadas à obesidade", disse, em nota, Ania M. Jastreboff, professora de Medicina na Universidade de Yale, onde dirige o Centro de Pesquisa sobre Obesidade e que participou do estudo.

O que fazer com essa informação

O calendário do que ainda falta saber tem uma data conhecida: os resultados detalhados do ensaio com crianças de 6 a 11 anos serão apresentados na reunião anual da The Obesity Society, em novembro, nos Estados Unidos. É ali que se poderá ver o que os números resumidos não mostram, incluindo efeitos adversos e a comparação completa com o grupo placebo. Vale acompanhar o que sai desse encontro antes de tratar o resultado como definitivo.

O segundo sinal a observar é regulatório. A Novo Nordisk apresentou o estudo como resultado positivo, e ele pode abrir caminho para uma alternativa terapêutica na faixa etária, mas ainda não há previsão de pedido de aprovação de uso do medicamento abaixo dos 12 anos às agências reguladoras. Enquanto isso não acontecer, qualquer prescrição para uma criança de 8 a 11 anos continua sendo uso fora da aprovação, amparado apenas pelas diretrizes clínicas americanas.

Para quem tem filhos pequenos com obesidade grave, o ponto de atenção mudou de lugar. A pergunta já não é se o medicamento faz perder peso, porque esse dado apareceu no ensaio. As duas perguntas que seguem abertas são as que os próprios pesquisadores levantaram: se o acompanhamento médico de longo prazo vai existir na mesma velocidade em que as prescrições crescem, algo que Orandi disse ser necessário, e se o acesso vai deixar de se concentrar em quem tem plano de saúde e renda mais alta, como pediu Massie ao comentar a diferença de 55% entre comunidades.

No Brasil, o cenário de preço mudou por outro motivo: a patente da semaglutida terminou em março, o que abriu espaço para versões genéricas e similares mais baratas. Já a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, também aprovada aqui para obesidade, segue protegida por patente até 2036 e só pode ser comercializada pela Eli Lilly. Preço menor, porém, não altera a idade para a qual o tratamento é aprovado, e é essa fronteira, e não o custo, que os dois estudos desta semana colocaram em discussão.

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