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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.
ISBN: 978 1 4091 5507 2
Editora: Seven Dials
Você já parou para pensar no que faz um garoto de 12 anos decidir que vai conquistar o planeta inteiro? Não é talento. Talento abunda em campos de várzea pelo mundo todo. É outra coisa — um vácuo, uma ferida, um silêncio dentro de casa que precisa ser preenchido com o grito de estádios lotados.
Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, nasceu na periferia de Funchal, na Ilha da Madeira, num lar onde o pai voltou alcoólatra da guerra colonial e a mãe, Dolores, cogitou o aborto por não conseguir bancar mais uma boca. Esse menino virou o atleta mais comentado, fotografado e idolatrado do nosso tempo. Cinco Bolas de Ouro. Mais de 900 gols. Um corpo desenhado em laboratório.
Mas a biografia de Guillem Balague, premiada e atualizada em 2024, não é um inventário de troféus. É um raio-X psicológico de um homem que transformou dor em combustível e nunca conseguiu desligar a máquina. Nos próximos minutos, você vai entender como o garoto magro da ilha virou monstro competitivo — e como esse mesmo monstro se tornou prisioneiro da imagem que construiu para sobreviver.
Em Santo António, bairro pobre de Funchal, Dinis Aveiro passava as tardes no bar. Voltou da guerra em Angola com o uniforme cheio de medalhas e a alma cheia de fantasmas. Bebia para esquecer. Mal trabalhava. A casa se sustentava pelo esforço de Dolores, que limpava, cozinhava e ainda assim quase abortou aquele quarto filho quando descobriu a gravidez.
Cristiano cresceu nesse vácuo. Jogava no Andorinha, clube amador onde o pai era roupeiro. E chorava. Chorava muito. Chorava quando o time perdia, chorava quando não recebiam o passe, chorava de raiva quando alguém driblava melhor. Os companheiros riam. Os técnicos perceberam que ali não havia uma criança brincando — havia alguém para quem perder doía como fome.
Aos 12 anos, atravessou o Atlântico sozinho num avião rumo a Lisboa. O Sporting tinha visto o talento e pagaria a formação. Imagine isso: uma criança da ilha, sem nunca ter saído de casa, indo morar num alojamento de academia. Foi zombado pelo sotaque madeirense logo na primeira semana. Os colegas imitavam. Os professores também. Cristiano chorava no telefone com Dolores quase toda noite. E foi nesse ressentimento que algo se acendeu.
A dor virou método. Enquanto os outros garotos da academia dormiam, Cristiano descia para o ginásio às escondidas, treinava musculação no escuro, contava as repetições baixinho para o vigia não ouvir. Saía correndo pelas ladeiras de Lisboa com pesos amarrados nos tornozelos. Subia escadas extras. Comia mais proteína que qualquer um da idade dele.
Ninguém pediu isso. Não havia treinador exigindo. Era um menino de 13, 14 anos construindo uma armadura de músculos contra a humilhação que sentia falando como falava. Se o sotaque dele era motivo de chacota, o corpo dele seria motivo de respeito. Essa equação simples virou a obsessão da vida inteira.
Em agosto de 2003, o Sporting inaugurou o estádio José Alvalade com um amistoso contra o Manchester United. Cristiano entrou no segundo tempo e, em 45 minutos, deixou o lateral irlandês John O'Shea precisando de oxigênio no banco. Sir Alex Ferguson saiu do vestiário e avisou a diretoria: ninguém volta para Manchester sem esse menino assinado.
Aos 18 anos, Cristiano chegou a Old Trafford com cabelo platinado, brinco e um repertório de dribles que encantava arquibancada e irritava companheiros. Nas primeiras semanas, Roy Keane e Gary Neville o trataram como se fosse um pivete de rua. Entradas duras no treino do bobinho. Esporros no vestiário. Uma frase que ficou: "Aqui não se rola na grama por nada, garoto."
Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. O técnico René Meulensteen sentou com Ronaldo e disse, em essência: para de impressionar e começa a decidir. Toques estéreis não ganham campeonato. O preparador Mike Clegg desenhou sessões específicas de explosão muscular, saltos, arranques. Cristiano deixou de ser um ponta que enfeitava e virou um centroavante que matava.
O resultado veio rápido. Bola de Ouro em 2008. Campeão da Champions League. O garoto que tinha chegado vaidoso de Lisboa saiu de Manchester como o melhor jogador do mundo. Ferguson tinha sido pai, treinador e psicólogo. Cobrava com dureza e abraçava na hora certa. Cristiano nunca mais teve uma figura de autoridade que conseguisse exercer esse poder sobre ele.
A novela da transferência para o Real Madrid foi um teatro de bastidores. O presidente Ramón Calderón começou as conversas, Florentino Pérez voltou ao poder e quase derrubou tudo, Jorge Mendes costurava ameaças veladas, Ferguson resistia. No fim, um acordo de cavalheiros: Cristiano ficaria mais um ano no United e depois iria para Madri por 94 milhões de euros — recorde mundial absoluto em 2009.
A apresentação foi faraônica. Oitenta mil torcedores lotaram o Bernabéu para ver o galáctico vestir a camisa branca, com Eusébio e Di Stéfano ao lado dele no gramado. Parecia coroação. Mas Madri não é Manchester. A torcida do Bernabéu vem da cultura do Tendido 7 do basquete, do público que cobra raça, marcação, sacrifício. Aplaude defesa antes de drible.
E havia outro problema, mais cruel: o Barcelona de Pep Guardiola estava no auge absoluto, jogando o melhor futebol da história recente, com Lionel Messi vencendo Bola de Ouro atrás de Bola de Ouro. Cristiano, acostumado a ser o número um, virou número dois no próprio palco que escolheu. Essa ferida nunca cicatrizou.
Em 2012, depois de um jogo, Cristiano falou para um microfone na zona mista: "Estou triste e as pessoas do clube sabem o motivo." A frase virou manchete global. Não era depressão clínica. Era estratégia. Estava cobrando da diretoria mais salário, mais atenção, mais valorização contratual.
A convivência com José Mourinho, que prometia ser uma aliança portuguesa, virou guerra fria. Discussões abertas no vestiário, elenco rachado entre apoiadores do técnico e apoiadores do craque. Quando Carlo Ancelotti chegou em 2013, baixou o nível de ruído e deu ao camisa sete o que ele queria: ser o centro absoluto. Em 2014, veio La Décima, a tão sonhada décima Champions League, com gol de pênalti na final em Lisboa contra o Atlético. Cristiano comemorou sem camisa, posando como o Incrível Hulk, num gesto que foi mais sobre marca pessoal do que sobre o título coletivo.
A chegada de Rafa Benítez na temporada seguinte foi curta e tóxica. Benítez queria descentralizar o ataque para Gareth Bale e exigia retorno defensivo. Cristiano recusou. O técnico caiu. A mensagem ficou clara: em Madri, ninguém estava acima do número sete.
Zinedine Zidane assumiu em 2016 e fez algo que nenhum outro tinha conseguido: convenceu Cristiano a descansar. Não por imposição tática, mas por afeto. Sentava com ele, conversava de igual para igual, explicava que precisava chegar inteiro às finais. Tratava o atleta como divindade emocional, não como peça de tabuleiro.
Funcionou de forma espetacular. Três Champions League consecutivas, de 2016 a 2018. Cristiano marcando em todas as fases decisivas, sendo poupado em jogos menores, gerenciando um corpo que já passava dos 30. Em paralelo, na Euro 2016, Portugal venceu sob comando de Fernando Santos. Cristiano se lesionou cedo na final contra a França, saiu chorando de maca, e ressurgiu na lateral do campo gritando instruções, invadindo a área técnica como se fosse auxiliar de Santos. Roubou a cena da glória mesmo de muletas.
Foi nesse período que um repórter do Correio da Manhã teve o microfone arrancado e jogado num lago pelo próprio Cristiano, irritado com uma pergunta. A imagem pública impecável escondia uma pressão que ele mal conseguia conter.
Em maio de 2018, logo depois de erguer a terceira Champions seguida, em Kiev, Cristiano falou para as câmeras que era "muito bom ter jogado no Real Madrid". No passado. Foi um anúncio calculado de despedida no momento mais alto do clube. Por trás, três pressões: processos da Receita espanhola por fraude fiscal de milhões de euros, salário menor que o de Messi e Neymar, e a percepção fria de Florentino Pérez de que ele já tinha 33 anos.
A Juventus pagou 100 milhões de euros, contando com generosos incentivos fiscais italianos do regime de impatriados — uma economia tributária que tornava o salário líquido muito mais atrativo. As camisas com o número sete esgotaram em horas e a Fiat enfrentou protestos furiosos dos sindicatos de trabalhadores, que viam absurdo um único atleta custar mais que toda a folha de operários.
Cristiano marcou gols à toneladas. Aos 34 anos, saltou contra a Sampdoria a uma altura que parecia impossível. Bateu recordes pessoais. Mas a Juventus, que vinha de uma estrutura coletiva sólida, começou a se desfazer ao redor dele. Comprou caro, vendeu jovens, desorganizou o elenco. Eliminações vexatórias na Champions, técnicos em rodízio, danos econômicos da pandemia. Três temporadas depois, o casamento se desfez. Os gols individuais não escondiam o colapso do projeto.
Em 2021, Cristiano flertou abertamente com o Manchester City. A pressão histórica da torcida do United foi tanta que Ferguson, mesmo aposentado, ligou pessoalmente. Voltou ao Old Trafford num momento romântico. Durou pouco. A Premier League moderna exige pressão em bloco, transição rápida, sacrifício coletivo. Aos 36 anos, ele não tinha mais isso.
Bateu de frente com Solskjaer e depois com Ralf Rangnick. Criou um ambiente tóxico com jogadores mais jovens, recusou entrar como reserva, fechou a cara nos treinos. Em paralelo, viveu a tragédia mais devastadora da vida: a morte do filho recém-nascido em abril de 2022. O luto somou-se ao desgaste profissional e tudo culminou na entrevista demolidora a Piers Morgan, no fim de 2022. Atacou Erik ten Hag, atacou os Glazer, atacou a estrutura do clube. O contrato foi rescindido. Na Copa do Mundo do Catar, foi colocado no banco por Fernando Santos e chorou de exclusão diante das câmeras. Portugal caiu, Cristiano saiu do gramado em prantos.
Antes disso, Manchester City, Thomas Tuchel no Chelsea e Bayern de Munique já tinham recusado tê-lo. A elite europeia disse não.
Restou o Al-Nassr. Contrato de 200 milhões de euros por temporada, com benefícios extras do governo saudita, tornando-o o atleta mais bem pago da história. Cristiano virou peça central do projeto Vision 2030, o programa de soft power do príncipe Mohammed bin Salman para reposicionar a Arábia Saudita no mundo via esporte — o famoso sportswashing. Atrás dele vieram Neymar, Benzema, Mané, Mahrez. Um êxodo financiado por capital estatal de petróleo.
No deserto, Cristiano encontrou o que sempre buscou: adulação plena, sem cobrança real, com mimos logísticos extensivos para ele e Georgina. Joga em um palco secundário tatuado de patrocínio, marca recordes pessoais contra defesas frágeis, continua sendo o maior goleador da temporada. A relutância em encarar o declínio se transformou numa estratégia geográfica. Se na Europa o teto baixou, mude o lugar onde se mede o teto.
E continua correndo. Aos 39, 40 anos, falando em jogar até os 42, alimentando números para adiar o silêncio.
No fundo, ainda é o menino do Andorinha chorando quando não recebia o passe. Cristiano nunca correu contra zagueiros — correu contra o vácuo do bar onde Dinis bebia, contra o riso dos colegas pelo sotaque, contra a possibilidade de virar invisível de novo. Quando as luzes do estádio apagarem, ele vai ter que encarar o silêncio que a multidão sempre escondeu.
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