Cuba e EUA: entenda a escalada de tensões e as negociações - Resenha crítica - 12min Originals
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Cuba e EUA: entenda a escalada de tensões e as negociações - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Cuba é uma ilha caribenha de cerca de 10 milhões de habitantes, a cerca de 150 quilômetros da Flórida, governada pelo Partido Comunista desde a revolução de 1959. Desde 1962 os Estados Unidos mantêm contra ela um embargo comercial, conjunto de proibições de comércio e de transações financeiras que atravessou todos os governos americanos desde então.

O que muda agora é a escala. A ilha gera a maior parte de sua eletricidade em usinas movidas a petróleo importado, e o governo Trump cortou esse fornecimento. O resultado aparece na vida cotidiana de quem mora lá, em apagões de até 20 horas por dia, hospitais sem energia e padarias voltando à lenha, segundo relato do próprio presidente cubano à televisão estatal, reproduzido pela Folha de S.Paulo. E aparece também na política de toda a região, porque Washington passou a discutir em público a possibilidade de uma ação militar a poucas centenas de quilômetros do continente.

Quase 70 anos de confronto

A CNN Brasil reconstrói o histórico: os EUA ocuparam a ilha após a guerra contra a Espanha, em 1898, e mantêm desde 1903 a base naval de Guantánamo. Depois que Fidel Castro derrubou Fulgencio Batista, em 1959, vieram o embargo, a fracassada invasão da Baía dos Porcos e a crise dos mísseis, quando o bloqueio naval americano e a instalação de ogivas soviéticas levaram o mundo à beira de uma guerra nuclear.

Houve um intervalo de distensão. Segundo a mesma reportagem, Barack Obama restabeleceu relações diplomáticas, encontrou Raúl Castro e visitou Havana. Em seu primeiro mandato, Trump reverteu boa parte disso, e ao voltar à Casa Branca recolocou Cuba na lista americana de países patrocinadores do terrorismo, como registrou a BBC.

A crise de petróleo que parou a ilha

O ponto de virada foi a operação americana na Venezuela que capturou Nicolás Maduro, em 3 de janeiro. Caracas era o principal fornecedor de combustível de Havana, e as remessas cessaram. Em seguida, segundo a BBC News Mundo e o El País, Trump assinou uma ordem executiva que declara "emergência nacional" em relação a Cuba e ameaça tarifas contra países que vendam petróleo à ilha, medida dirigida sobretudo ao México, que havia assumido o lugar da Venezuela. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, afirmou em sua coletiva diária que os embarques eram humanitários e alertou que a medida poderia desencadear "uma crise humanitária de grandes proporções".

Em pronunciamento televisionado, em março, Miguel Díaz-Canel disse que nenhum carregamento de combustível havia chegado ao país nos três meses anteriores. Segundo ele, a falta de eletricidade afetou comunicações, educação e transporte, e obrigou o governo a adiar cirurgias de dezenas de milhares de pessoas.

O alerta internacional é explícito. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o país corre risco de "colapso humanitário" sem importar petróleo, informou O Globo. Especialistas da organização advertiram em fevereiro, em trecho citado pela CNN, que o bloqueio ameaça o "combustível indispensável para a geração de eletricidade, sistemas de água e saneamento, hospitais, transporte público e produção de alimentos". À CNN Brasil, o chanceler cubano Bruno Rodríguez disse que o bloqueio "não pune o governo; ele pune cada pessoa".

Pressão máxima: sanções, indiciamento e porta-aviões

A escalada se concentrou em poucos dias. Um tribunal federal em Miami indiciou Raúl Castro, de 94 anos, por homicídio e destruição de aeronave, segundo o Valor Econômico, pelo abate de dois aviões civis de um grupo de exilados cubanos em 1996, no qual morreram americanos. Raúl era então ministro da Defesa. No mesmo dia, informou a DW, os militares americanos anunciaram a chegada do porta-aviões USS Nimitz ao Caribe, e o Comando Sul declarou que os navios participam de exercícios com parceiros na América Latina iniciados em março.

Na véspera, segundo a Folha, o secretário de Estado Marco Rubio havia divulgado um vídeo em espanhol oferecendo US$ 100 milhões em alimentos e medicamentos, a serem distribuídos pela Igreja Católica ou por organizações consideradas confiáveis por Washington. No dia seguinte, Rubio afirmou que Cuba aceitou a oferta, e disse que a diplomacia "continua sendo nossa preferência", mas que a probabilidade de um acordo "não é alta". Houve ainda novas sanções contra o conglomerado empresarial controlado pelas Forças Armadas cubanas e contra ministros e comandantes militares, além da prisão, pela imigração americana, de uma parente de um executivo desse grupo.

Havana respondeu no mesmo tom. Rodríguez acusou Rubio de mentir "para instigar uma agressão militar", e Díaz-Canel classificou o indiciamento como manobra política destinada a "justificar a insensatez de uma agressão militar". O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, declarou que Pequim se opõe às sanções e apoia Cuba na defesa de sua soberania.

O que cada lado confirma, nega e exige

As duas trilhas correm juntas. Díaz-Canel confirmou publicamente que autoridades cubanas conversaram com representantes americanos, disse que ele próprio conduziu as conversas ao lado de Raúl Castro e afirmou que o objetivo era "encontrar soluções, por meio do diálogo, para as diferenças bilaterais". Na véspera, Havana anunciou a libertação de 51 presos, apresentada como gesto de boa vontade ao Vaticano, mediador histórico entre os dois países, segundo a BBC e a Veja.

Mas cada lado marcou um limite. Em entrevista à CNN, o vice-chanceler Carlos Fernández de Cossío disse que Cuba não está disposta a discutir "nosso sistema constitucional", e Díaz-Canel condicionou qualquer negociação à ausência de pressões e pré-condições. À CNN Brasil, o chanceler cubano chegou a afirmar, em outro momento, que não havia negociações nem agenda em curso, embora o país permanecesse disponível para contatos. À NBC News, Díaz-Canel descartou renunciar.

Do lado americano, Rubio disse à DW que as aberturas econômicas oferecidas por Havana não foram "suficientemente drásticas" e, em entrevista à Fox citada pela CNN em espanhol, sustentou que só há dois caminhos para a ilha: o colapso ou reformas econômicas profundas, que ele considera impossíveis com a atual liderança.

O que analistas apontam sobre o momento

Klemens Fischer, da Universidade de Colônia, disse à emissora alemã ZDF, em declarações reproduzidas pela DW, que a escalada retórica contra Cuba provavelmente é motivada por questões de política interna americana, e que Trump precisa mostrar força sem se envolver em outra guerra. Uma coluna do Valor Econômico argumenta que o governo americano busca uma vitória em política externa antes das eleições de novembro para o Congresso.

Em análise publicada pela CNN, o raciocínio é parecido, com uma ressalva: pesquisas recentes mostram maioria dos americanos contrária à guerra no Irã e também à política para Cuba, o que reduziria o capital político para uma nova operação militar. Lee Schlenker, do Quincy Institute, avaliou na mesma análise que o indiciamento de Raúl Castro pode ser "uma sentença de morte para qualquer acordo potencial", por reforçar a mentalidade de cerco da liderança cubana. Do outro lado, Maria José Espinosa, do Centro para o Engajamento e Ativismo nas Américas, disse à DW duvidar que o regime esteja à beira do colapso, porque o partido, as forças de segurança e o sistema militar-econômico seguem coesos.

O que fazer com essa informação

Daqui para a frente, três sinais concretos dizem mais do que as declarações de efeito. O primeiro é o bloqueio de petróleo: hoje a ilha depende de remessas pontuais e de ajuda humanitária, e qualquer flexibilização ou endurecimento muda diretamente a duração dos apagões e o risco de colapso dos serviços básicos. O segundo é o indiciamento de Raúl Castro: ele pode avançar para um pedido formal de extradição ou permanecer como pressão simbólica, e Rubio recusou-se a dizer como pretende levá-lo a um tribunal americano. O terceiro é a movimentação militar no Caribe: o deslocamento do USS Nimitz foi apresentado como exercício, e o que importa acompanhar é se essa presença muda de natureza.

Acompanhar esses três pontos também ajuda a ler o noticiário com ceticismo calibrado. Rubio afirmou que qualquer notícia sobre Cuba que não venha do governo americano "é mentira", e reportagens sobre planejamento militar, como a do USA Today, foram respondidas pelo Pentágono com a fórmula de que não comenta "cenários hipotéticos". Em paralelo, a Defesa Civil cubana distribuiu um guia de proteção para o caso de uma intervenção, segundo a Folha.

Quando a próxima manchete sobre Cuba aparecer, qual desses três sinais você vai procurar antes de concluir que alguma coisa de fato mudou?

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