Entenda a mediação internacional por trás do acordo entre EUA e Irã - Resenha crítica - 12min Originals
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Entenda a mediação internacional por trás do acordo entre EUA e Irã - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Quando um conflito armado envolve potências que não se falam há décadas, alguém precisa carregar as mensagens de um lado para o outro. Esse trabalho tem nome: mediação. São países que não estão em guerra, mas têm canal aberto com os dois lados, e passam propostas, prazos e recados até que uma conversa direta se torne possível.

Isso parece distante de quem lê daqui, mas não é. O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã fechou o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de petróleo e gás do mundo. Com a via bloqueada, o preço do barril passou de US$ 100, provocando nova alta da inflação global, segundo a Folha de S.Paulo. O que esses mediadores conseguem ou não conseguem arrancar na mesa chega à bomba de combustível.

É nesse contexto que aparece o fato recente: Estados Unidos e Irã assinaram um memorando de entendimento para encerrar a guerra. E, quase no mesmo compasso, novos ataques testaram o que tinha acabado de ser assinado.

Quem senta à mesa

A guerra começou em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã e mataram o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. Teerã respondeu com bombardeios contra alvos americanos em países do Golfo e fechou o Estreito de Ormuz. Em 2 de março, o Líbano entrou no conflito com ataques do Hezbollah contra Israel.

Nos dias seguintes, um grupo de países se ofereceu para mediar: Catar, Turquia, Egito e Omã, conforme registrou a Veja. O Catar negou publicamente atuar como mediador direto entre Washington e Teerã, mas disse apoiar "todos os canais diplomáticos formais e informais". O porta-voz do ministério das Relações Exteriores catari, Majed Al Ansari, afirmou em Doha que o país trabalha para "encontrar uma saída para a crise e impedir ataques aos nossos países".

A Turquia operou por telefone. O chanceler Hakan Fidan fez mais de uma dúzia de ligações em 48 horas, segundo registros do próprio ministério relatados à CNN, falando com colegas do Irã, do Egito, do Catar, da Arábia Saudita, do Paquistão, dos Estados Unidos e da União Europeia. Ancara não comentou oficialmente seus esforços de mediação.

Mas foi o Paquistão que assumiu o papel mais visível, ao lado do Catar. E, num momento decisivo, segundo relato da Folha baseado em entrevistas com funcionários iranianos e paquistaneses, foi a China que destravou o impasse: maior compradora de petróleo iraniano, Pequim disse a Teerã que aceitasse o cessar-fogo porque poderia ser a única oportunidade, e pediu que o país considerasse o impacto econômico da guerra sobre seus aliados.

Como um acordo foi negociado em 36 horas

O episódio que melhor mostra a mecânica dessas negociações ocorreu em abril. Donald Trump deu um prazo para o Irã reabrir o Estreito de Ormuz e ameaçou atacar pontes e usinas de energia. No Irã, moradores de Teerã esvaziaram prateleiras de supermercados e dezenas de milhares de pessoas fugiram em direção ao mar Cáspio, criando um engarrafamento que levou a polícia a fechar uma estrada de montanha.

Irritados com o ultimato, líderes iranianos avisaram ao Paquistão que cortariam a comunicação com Washington. Seguiu-se uma rodada de ligações: o primeiro-ministro e o chanceler paquistaneses falaram com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian e com o chanceler Abbas Araghchi; Turquia, Egito e Catar também procuraram Teerã. À noite, o chefe do Exército do Paquistão, Syed Asim Munir, ligou para Trump dizendo que os iranianos tinham aceitado a proposta paquistanesa. Trump anunciou uma pausa de duas semanas nos bombardeios.

O acordo começou a se desfazer em menos de um dia. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, disse que a trégua valia "em todos os lugares, incluindo o Líbano". Trump, na manhã seguinte, afirmou à PBS que via o conflito entre Israel e o Hezbollah como uma "escaramuça separada". Naquele mesmo dia, Israel lançou os ataques mais intensos contra o Líbano em mais de um mês de guerra com o Hezbollah.

O que ficou acordado

Em junho, as partes chegaram a um texto. Trump anunciou a reabertura do Estreito de Ormuz sem pedágio, o fim do bloqueio naval aos portos iranianos e a suspensão das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano. O vice-ministro iraniano Kazem Gharibabadi confirmou o fim do bloqueio e declarou que o memorando foi "redigido com desconfiança", acrescentando que Teerã monitoraria o cumprimento dos compromissos americanos.

O memorando, de 14 pontos, foi assinado em 17 de junho e abre um prazo de 60 dias para negociar os temas mais difíceis: a retirada das sanções, a liberação de ativos iranianos congelados e o programa nuclear. Washington vinha defendendo o desmantelamento do programa; Pezeshkian afirmou que o Irã não abrirá mão do direito de enriquecer urânio, mas que não deseja armas nucleares.

A reação internacional foi de apoio. O secretário-geral da ONU, António Guterres, parabenizou os dois países e agradeceu a Paquistão, Catar, Egito, Arábia Saudita, Turquia e outros países da região. China e Rússia saudaram o entendimento; Moscou destacou que a retomada da navegação em Ormuz deve reduzir a volatilidade nos mercados de energia e alimentos. O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, disse que agora começa o trabalho técnico.

Nas primeiras conversas na Suíça, delegações lideradas pelo vice-presidente americano JD Vance e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, criaram um canal de contato para "evitar incidentes e falhas de comunicação" no Estreito de Ormuz e uma célula de gestão do conflito no Líbano. O preço do petróleo recuou: o barril de Brent foi negociado a US$ 79,38.

Cada trégua é testada no dia seguinte

O padrão se repetiu em todas as etapas. Horas antes do anúncio do acordo em junho, Israel bombardeou um distrito ao sul de Beirute. Segundo Benjamin Netanyahu, a ação respondeu a disparos do Hezbollah contra território israelense. A Defesa Civil libanesa relatou três mortos e ao menos quinze feridos. Trump afirmou em sua rede social que o ataque "não deveria ter acontecido" e que todos os lados deveriam recuar; disse ao portal Axios que o episódio atrasou o anúncio em algumas horas. Para Ghalibaf, principal negociador iraniano, o ataque mostrou que "não fazia sentido" manter o diálogo. Fontes diplomáticas disseram ao New York Times que uma resposta iraniana foi suspensa após intervenção de Trump.

Depois da assinatura, a sequência continuou. No fim de semana seguinte, a Guarda Revolucionária iraniana afirmou ter lançado mísseis e drones contra instalações militares americanas no Kuwait e no Bahrein, onde um edifício residencial foi danificado e o governo pediu uma sessão de emergência do Conselho de Segurança da ONU. Israel informou ter atacado posições do Hezbollah no Líbano. Em paralelo, Trump escreveu que, se não for possível "agir com razoabilidade", os Estados Unidos concluirão militarmente o que começaram.

Também há divergência sobre o que foi combinado. Teerã negou que houvesse reuniões técnicas marcadas em Doha; Trump disse que o Irã pediu um encontro, marcado para o dia seguinte na capital catari. Pezeshkian afirmou que metade dos US$ 12 bilhões em ativos iranianos congelados no Catar será liberada e que as sanções ao setor de petróleo foram suspensas, classificando o resultado como "uma grande vitória". No Líbano, o presidente do Parlamento, Nabih Berri, aliado do Hezbollah, criticou o acordo paralelo entre Líbano e Israel e disse que ele não será implementado.

O que fazer com essa informação

O teste prático dos próximos dois meses é verificável sem depender de declarações. Primeiro, se o Estreito de Ormuz permanece aberto: um alto funcionário americano disse à Folha que, se ele voltar a fechar, o acordo desmorona. Segundo, o Líbano. Araghchi afirmou que o primeiro "teste real" do entendimento é o fim do conflito lá, e foi justamente ali que todas as tréguas anteriores foram furadas. Terceiro, se as reuniões técnicas dos 60 dias saem do papel, já que as duas partes apresentaram versões divergentes sobre o que foi acertado.

Vale acompanhar também quem continua na sala. Paquistão e Catar são os mediadores formais; Turquia, Egito e China atuaram nos bastidores em momentos de impasse. Quando esses canais deixam de ser citados nos anúncios, costuma ser sinal de que o processo travou. O Brasil, por sua vez, tem defendido uma solução negociada, e o governo lembrou a Declaração de Teerã de 2010, proposta ao lado da Turquia e rejeitada pelos Estados Unidos à época.

Para quem lê daqui, o efeito mais direto continua sendo o preço da energia. A reabertura de Ormuz derrubou a cotação do petróleo; um novo bloqueio a empurraria de volta.

Acompanhando as notícias dos próximos dias, qual sinal você vai usar para saber se a trégua está valendo: o que é anunciado nas coletivas ou o que acontece no Líbano e em Ormuz?

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