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Editora: 12min
Um liceu, na França, é a escola onde adolescentes de 15 a 18 anos cursam os três últimos anos antes da universidade. É lá que se prepara o baccalauréat, o exame que define o acesso ao ensino superior, e é de lá que saiu, no fim de setembro, o maior movimento de protesto juvenil que o país vê em décadas.
Começou pequeno. No dia 17 de setembro, alunos de um liceu no subúrbio parisiense de Créteil aderiram a uma greve dos próprios professores, que reclamavam de falta de pessoal e de recursos. Dias depois, em outra escola da periferia de Paris, o colégio Saint-Exupéry, um protesto semelhante terminou quando o governo mandou funcionários extras. A greve acabou, mas a faísca ficou. Em três semanas, o movimento chegou a cidades de todo o país, levou centenas de milhares às ruas, provocou milhares de detenções e colocou o governo diante de um problema que ele mesmo reconhece ser legítimo e não tem como pagar.
As queixas são antigas e bastante concretas. Estudantes descrevem salas sem carteiras e cadeiras suficientes, banheiros sem porta nem papel, goteiras caindo em baldes durante a aula, baratas e ratos, tetos que desabam. Nas ondas de calor de maio e junho, muitas salas passaram dos 35 graus, sem ar-condicionado. Vídeos de professores carregando cadeiras de uma sala para outra circulam há anos.
O segundo problema é o tamanho das turmas. Segundo o analista francês da OCDE Éric Charbonnier, as aulas de língua francesa têm em média 29 alunos, contra 26 na média dos países da organização, e a média esconde diferenças grandes entre as grandes cidades e o campo. Em Paris e nos subúrbios, estudantes relatam turmas de 36 ou mais.
O terceiro é a falta de professores. O Ministério da Educação reconhece que cerca de 10% das horas de aula previstas no ano não são dadas e diz ser urgente resolver isso. O sindicato SNES-FSU estimou que faltava ao menos um professor em mais da metade das escolas públicas de ensino fundamental e médio no início do ano letivo de setembro. Nas barricadas, os alunos dizem que a ausência não reposta é mais frequente nas escolas de área pobre.
E há a jornada. Charbonnier afirma que a França tem mais horas de instrução que a maioria dos países da OCDE, concentradas em menos semanas de aula por ano. Estudantes relatam rotinas das 8h às 18h, com buracos no meio do dia, resultado das grades fragmentadas depois da reforma do baccalauréat.
O que a França não tem é falta de dinheiro no ensino médio. Charbonnier afirma que o gasto francês com essa etapa é 28% superior à média da OCDE, enquanto o gasto com a educação infantil e os primeiros anos fica abaixo dela. O problema, segundo ele, é onde esse dinheiro vai parar e com que resultado. Os salários de meio e fim de carreira dos professores são comparativamente baixos. E, segundo a OCDE, uma criança criada e escolarizada em bairro pobre na França tem menos chance de escapar da própria origem socioeconômica do que na maioria dos países desenvolvidos.
A partir de Paris, o movimento se espalhou para Lille, Marselha, Lyon, Nantes, Rennes, Estrasburgo, Toulouse, Montpellier, Bordeaux. Alunos passaram a bloquear as entradas das escolas com lixeiras e barricadas. Em parte dos casos houve incêndio de contêineres, destruição de pontos de ônibus e confrontos com a polícia de choque. Numa escola de Nantes, o fogo destruiu a entrada envidraçada e áreas internas, com prejuízo estimado pelo governo regional em mais de 2 milhões de euros.
O governo respondeu primeiro com polícia. A certa altura, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, disse à TF1 que o país estava "deslizando para o tumulto e a violência urbana". O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, afirmou que se passou de manifestação estudantil para questão de ordem pública e pediu aos promotores que responsabilizem civilmente os pais pelos danos. O ministro da Educação, Édouard Geffray, disse que o movimento havia sido sequestrado por grupos ultraviolentos de fora das escolas.
Na terça-feira, 6 de outubro, veio o maior dia. O Ministério do Interior estimou 266 mil participantes em todo o país; os organizadores falaram em 450 mil. Autoridades começaram a suspender aulas para esvaziar os bloqueios, e naquele dia as aulas estavam total ou parcialmente suspensas em 891 escolas, segundo o Ministério da Educação, de um total de 3.700 liceus no país.
O ponto de virada foi o uso de armas pela polícia. Na segunda-feira, 5 de outubro, um adolescente de 15 anos perdeu a mão e parte do antebraço em Lens, no norte, depois de pegar uma granada lançada pela polícia, segundo o jornal regional La Voix du Nord. Antes, um menino de 14 anos em Saint-Ouen-l'Aumône havia perdido vários dentes ao ser atingido no rosto por uma granada de gás lacrimogêneo disparada a curta distância. Um estudante em Tours perdeu a visão de um olho. Na quarta-feira, 7, Nuñez anunciou a suspensão do uso de granadas de efeito moral nas manifestações estudantis até que se esclareçam as circunstâncias, e informou que 18 investigações internas foram abertas desde o início dos protestos. O governo contabiliza 215 adolescentes, 715 policiais e 85 funcionários de escola feridos, e o Ministério do Interior fala em mais de 6.500 detidos, a maioria menores.
O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, reconheceu que as queixas são legítimas e ordenou que os ministros apresentem propostas até o fim de outubro: reposição de professores ausentes, revisão da jornada escolar, intervalos de almoço mais longos, reparos nos prédios e mais transparência no Parcoursup, o sistema online de inscrição nas universidades. "Incendiar um liceu não melhora o estado dos prédios escolares", disse ele no Parlamento.
O problema é a conta. O governo apresentou ao Parlamento um orçamento para 2027 que pretende reduzir o déficit de 5,4% do PIB neste ano para 5%, com um corte da ordem de 54 bilhões de euros em relação aos gastos previstos. Lecornu não tem maioria parlamentar e depende de votos da oposição, às vésperas de uma eleição presidencial.
A pressão vem também dos juros. O rendimento dos títulos franceses de dez anos passou brevemente de 5% na semana anterior aos grandes protestos, o maior nível desde 2002, e o prêmio sobre os títulos alemães chegou a cerca de 1,5 ponto percentual, segundo a DW o patamar mais alto desde a crise da dívida do euro. Com a dívida em torno de 119% do PIB, a França gastará no orçamento de 2027 mais com juros do que pode gastar com escolas ou defesa. Segundo o ministro das Finanças, Roland Lescure, os juros já consomem mais da metade do déficit.
Dinheiro para educação, aliás, há, e ele até cresce: o orçamento do setor deve aumentar cerca de 1,2 bilhão de euros em 2027. Críticos dizem que o reajuste fica abaixo da inflação. Para Eileen Keller, do Instituto Franco-Alemão, a contradição mostra que o dinheiro é só parte do problema, e que o descontentamento tem a ver com prioridades e com o rumo do sistema de ensino.
Na Bélgica, estudantes das regiões de língua francesa saíram às ruas de Liège contra turmas superlotadas e dificuldade de acesso a recursos, com 107 pessoas presas, segundo a agência Belga. Amelia Di Salve, de 19 anos, que estuda para ser professora, disse à Reuters que a França "nos influenciou um pouco". Os protestos de Liège vêm depois de manifestações em Bruxelas contra o aumento da anuidade no ensino em francês, de 835 para 1.194 euros.
Em Portugal, o principal sindicato de professores, a FENPROF, iniciou em meados de setembro uma greve por tempo indeterminado contra horas extras não pagas acima das 35 semanais. Na Espanha, professores de Madri planejam greve para 14 de outubro, pedindo jornada menor, turmas menores e salários maiores.
A disputa política é aberta. O governo e a direita acusam o partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI) de instigar os bloqueios. Marine Le Pen, da extrema direita, disse que não se trata mais de protesto estudantil e sim de "tumultos organizados por profissionais e supervisionados por deputados da LFI", e pediu uma nova lei antitumulto. Jean-Luc Mélenchon, candidato da LFI, chamou o movimento de o mais poderoso desde 1968, pediu aos estudantes que evitem a violência e acusou a polícia de abusos. Segundo a BBC, pesquisas dão a ele cerca de 40% de apoio entre os jovens de 18 a 24 anos, faixa que também é a que mais se abstém.
Donald Trump entrou no assunto pelo Truth Social, afirmando que o que acontece na França é "migração em massa fora de controle" e que "não se trata de escolas". As reivindicações apresentadas pelos estudantes não tratam de imigração nem de religião.
Há três datas que dizem se o movimento esfria ou escala. A primeira é o fim de outubro, prazo que Lecornu deu aos ministros para apresentar propostas com financiamento e cronograma. O teste é se o que sair de lá vem com dinheiro atrelado ou se fica na consulta: o principal sindicato de diretores de escola já disse que o dia de "democracia interna" convocado pelo governo é insuficiente, e as organizações estudantis pedem investimento de 10 bilhões de euros em liceus e universidades.
A segunda é 17 de outubro, novo dia nacional de protesto convocado pelos sindicatos estudantis. Ali se mede se o movimento mantém a adesão depois da suspensão das granadas e das promessas, ou se perde fôlego.
A terceira é 12 de novembro, quando o Parlamento debate a proposta orçamentária, que inclui, segundo Lecornu, 64 bilhões de euros para a educação. Sem maioria, o governo depende da oposição em plena pré-campanha, e qualquer concessão aos estudantes tem de caber num pacote que corta dezenas de bilhões.
Vale acompanhar também o que as 18 investigações internas da polícia apurarem, porque foi a reação às armas usadas contra adolescentes, mais do que as pautas de infraestrutura, que transformou um protesto de escola em crise nacional.
E, na sua escola ou na do seu filho, qual é a queixa repetida há anos que só apareceria se alguém bloqueasse o portão?
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