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Editora: 12min
O xilitol é um álcool de açúcar — uma substância de sabor doce que aparece naturalmente em alguns alimentos, mas em quantidades muito baixas. O que o tornou comum não foi essa presença natural, e sim o uso industrial: ele é adicionado a alimentos, bebidas e produtos de higiene bucal, muitas vezes em quantidades mil vezes maiores do que as encontradas na natureza. Segundo o National Institutes of Health, os institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos, ele é usado como adoçante de baixa caloria e substituto do açúcar.
Na prática, isso significa que ele está em lugares que o consumidor não associa a uma decisão sobre a saúde do coração: goma de mascar, pasta de dente, geleia, iogurtes e sorvete, além de bebidas e produtos de cuidado dental. É um ingrediente que costuma acompanhar rótulos escolhidos justamente por parecerem a alternativa mais saudável ao açúcar.
Apesar do uso crescente, os efeitos do xilitol sobre a saúde no longo prazo nunca tinham sido amplamente estudados. É nesse ponto que entra a notícia desta semana.
Pesquisadores apresentaram no congresso anual da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), em Munique, na Alemanha, dados que associam níveis altos de xilitol no sangue a um risco maior de eventos cardiovasculares graves — o conjunto que reúne morte por causa cardiovascular, infarto e derrame. O congresso da ESC é a maior conferência de cardiologia do mundo, e o trabalho foi descrito como o maior estudo desse tipo já feito.
Os pesquisadores acompanharam duas coortes, com 17.710 participantes ao todo, no Canadá e no Reino Unido, e compararam o quarto da amostra com os níveis mais altos de xilitol no sangue contra o quarto com os níveis mais baixos.
No grupo canadense, do Canadian Longitudinal Study on Aging, um estudo de longo prazo sobre envelhecimento, quem tinha os níveis mais altos apresentou risco 57% maior de morrer, sofrer infarto ou derrame ao longo de seis anos de acompanhamento, em comparação com quem tinha os níveis mais baixos. No grupo britânico, do EPIC-Norfolk, ramo local de uma grande investigação europeia sobre câncer e nutrição, o acompanhamento foi de 30 anos, e o risco de eventos cardiovasculares graves foi 18% maior.
O detalhe que os autores destacam não é apenas o tamanho dessas diferenças, mas o formato delas. Somando os resultados dos grupos intermediários, as duas coortes apontaram uma relação que cresce com a dose: quanto maior a concentração de xilitol no sangue, maior a taxa de eventos cardiovasculares. O aumento apareceu de forma consistente independentemente de características de partida como idade e sexo.
Os pesquisadores também afirmam que a associação se manteve depois de levar em conta fatores que poderiam explicar o resultado por outro caminho — índice de massa corporal, hipertensão, diabetes e níveis de lipídios no sangue. São justamente as condições que poderiam levar alguém a preferir produtos de baixa caloria, o que criaria a impressão de que o adoçante causa o problema quando na verdade ele só acompanha quem já está em risco.
Uma associação estatística fica mais forte quando existe uma explicação biológica plausível por trás dela, e é isso que os autores dizem ter. Marco Witkowski, do hospital universitário Charité, em Berlim, que apresentou o trabalho, afirmou que os resultados se somam a pesquisas anteriores que já haviam levantado preocupações sobre a substância.
"Em estudos anteriores, mostramos que o xilitol pode aumentar a capacidade das plaquetas de formar coágulos", disse. As plaquetas são as células do sangue envolvidas na formação de coágulos, e coágulos são o mecanismo direto por trás de boa parte dos infartos e derrames. Witkowski e seus colegas também já haviam encontrado uma ligação entre níveis altos de xilitol no sangue e eventos cardíacos adversos em pessoas de alto risco, ao longo de um período de três anos.
O argumento que ele faz a partir daí é sobre o que se sabe, e não sobre o que está provado. "Adoçantes artificiais são consumidos por pessoas que acham que eles são mais saudáveis que o açúcar, e eles são geralmente considerados seguros pelas agências reguladoras", afirmou. "Nossos achados de longo prazo na população geral mostram o quão pouco sabemos sobre a segurança cardiovascular do xilitol e indicam que novos estudos são necessários, especialmente porque a quantidade de xilitol nos produtos continua a aumentar."
O trabalho é observacional. Isso quer dizer que ele compara pessoas que já viviam como viviam e mede o que aconteceu com elas — não distribui doses de xilitol a um grupo e placebo a outro. Um desenho assim consegue mostrar que duas coisas andam juntas, mas não que uma causou a outra. Os próprios pesquisadores registram que mais estudos são necessários para confirmar os achados.
Há uma segunda ressalva, e ela é específica desta substância. O estudo mediu xilitol no sangue, não xilitol na dieta, e não estabelece se um nível alto no sangue reflete necessariamente o que a pessoa consumiu. O corpo humano também produz xilitol naturalmente, como parte do metabolismo da glicose. Ou seja: o marcador que separou os grupos pode ter mais de uma origem.
Dan Atar, membro do comitê de comunicação da ESC, que não participou do trabalho, resumiu o dilema. "Os adoçantes artificiais são amplamente adotados pela sociedade moderna, e as classificações de segurança eram boas e concedidas por autoridades regulatórias", disse. "Neste trabalho observacional, no entanto, parece que o xilitol tem um efeito negativo de longo prazo sobre eventos cardiovasculares na população geral. Como em todos os estudos observacionais, é difícil inferir relações de causa, mas este trabalho mostra que novos estudos são obrigatórios sobre um tema tão importante para a sociedade."
Dell Stanford, nutricionista sênior da British Heart Foundation, uma organização beneficente, apontou o comportamento do consumidor. "Adoçantes artificiais como o xilitol estão em muitos alimentos e bebidas, e as pessoas podem supor que são a escolha mais saudável, então consomem mais do que percebem", afirmou. Ela repetiu a ressalva sobre o desenho do estudo e acrescentou uma advertência na direção oposta: "não é sinal verde para consumir mais açúcar em vez disso, já que ainda precisamos reduzir a ingestão de açúcares livres". Para ela, o recado prático é reduzir alimentos e bebidas processados que costumam ter muito açúcar, sal ou adoçantes.
Aseem Malhotra, cardiologista e ativista de saúde pública de Londres que também não participou da pesquisa, foi mais enfático ao Fox News Digital: "esses achados preocupantes, com um mecanismo plausível de o xilitol aumentar o risco cardiovascular, devem ser levados muito a sério". Ele diz orientar seus pacientes a evitar açúcares processados e adoçantes artificiais por seis semanas.
O passo concreto é olhar o rótulo. Xilitol não aparece só em produtos de dieta óbvios: ele está em goma de mascar, pasta de dente, geleia, iogurte e sorvete, e a lista de ingredientes é o único lugar onde dá para saber se você o consome e com que frequência. Vale conferir especialmente aqueles itens que entram no dia a dia várias vezes — o chiclete depois do almoço, o iogurte da manhã —, porque o achado do estudo é sobre concentração no sangue, e o padrão observado cresce com a dose.
O que não decorre destes dados é a troca imediata por açúcar comum. Tanto Stanford quanto o desenho do próprio estudo apontam na mesma direção: a associação não foi provada como causa, e substituir adoçante por açúcar livre contraria uma recomendação que já existe. A saída que os especialistas ouvidos descrevem é reduzir de forma geral o consumo de alimentos e bebidas processados muito adoçados, seja com açúcar, seja com adoçante.
E vale acompanhar o que vem a seguir. O ponto em que Witkowski, Atar e Stanford convergem é que faltam estudos — nenhum deles afirma que a questão está resolvida, e os três pedem novas pesquisas. Até que elas existam, o que há é uma associação forte, com uma explicação biológica plausível ligada à coagulação, e uma dúvida honesta sobre quanto do xilitol medido no sangue vem do que se come.
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