Estudo põe comissários no topo do risco de câncer - Resenha crítica - 12min Originals
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Estudo põe comissários no topo do risco de câncer - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Um estudo publicado na segunda-feira pela JAMA Internal Medicine, revista médica americana, comparou o risco de morte por cânceres ligados à radiação em mais de 500 profissões nos Estados Unidos. Quem aparece em primeiro lugar não trabalha em usina nuclear nem em serviço de radiologia: são os comissários de bordo. Logo atrás vêm os pilotos.

A suspeita não é nova — havia evidências limitadas, vindas de estudos pequenos, de que voar com frequência estivesse associado a mais mortes por câncer entre tripulações. O que muda agora é o tamanho da base. Dois especialistas australianos em radiação que não participaram da pesquisa, Catherine Olsen e Ken Karipidis, escreveram em um comentário publicado junto ao trabalho que o estudo "traz novas evidências importantes para essa questão".

Comissários em primeiro, pilotos em segundo

Os pesquisadores usaram dados nacionais dos Estados Unidos: mais de 12 milhões de atestados de óbito que traziam informação sobre a profissão do falecido. A partir daí, separaram as mortes causadas por cânceres que a literatura associa à exposição à radiação — leucemia, linfoma, mieloma múltiplo e tumores de pele, mama, tireoide, próstata e sistema nervoso central — e compararam a proporção dessas mortes em cada ocupação.

Entre mais de 500 profissões, os comissários de bordo tiveram a maior proporção de mortes por esses cânceres, e os pilotos ficaram em segundo lugar. Para as duas categorias, as chances de morrer eram excepcionalmente altas em cada um dos tipos de câncer relacionados à radiação — não é um tumor puxando a média, é o conjunto.

Em números absolutos, cerca de 6,9% das mortes de comissários foram causadas por esses cânceres, aproximadamente uma em cada quatorze. Entre pilotos, 6,7%. Na população ocupada em geral, 5%, segundo Vishal Patel, da Faculdade de Medicina de Harvard, primeiro autor do estudo. Traduzido em chance relativa: comissários tinham cerca de 50% mais probabilidade de morrer de um câncer ligado à radiação do que o trabalhador médio, e pilotos, cerca de 36%. Anupam B. Jena, também autor do trabalho, resumiu à Fox News Digital que as duas profissões lideram a lista de mais de 500 ocupações analisadas.

Risco maior que o de quem lida com material radioativo

A comparação que dá o tamanho do achado é essa: as tripulações aéreas aparecem à frente até de quem trabalha diretamente com material radioativo.

A fonte da exposição é a radiação cósmica, que vem do espaço. Só uma parcela pequena dela chega à superfície da Terra, mas a exposição é maior para quem voa em grandes altitudes — e é isso que separa a cabine do escritório no chão.

Há um detalhe nos dados que ajuda a sustentar a hipótese da radiação contra explicações alternativas. Nenhum dos dois grupos apresentou taxas de morte acima do normal por cânceres que não são ligados à radiação. Para Olsen e Karipidis, esse contraste "reforça a hipótese de que a exposição ocupacional à radiação, e não fatores de estilo de vida ou socioeconômicos, esteja por trás do excesso observado". Se o problema fosse dieta, tabagismo ou renda, seria de esperar que outros tumores também subissem — e eles não subiram.

A FAA reconhece a exposição, e ninguém mede a dose

A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, a FAA, que regula a aviação civil no país, reconhece que tripulações aéreas são expostas à radiação ionizante. Mas o governo americano não estabelece limites federais de dose nem exige o monitoramento dessa exposição, observaram os autores do estudo.

Na prática, isso significa que não existe registro de quanta radiação cada comissário ou piloto recebeu ao longo da carreira. A lacuna aparece inclusive dentro da pesquisa: os próprios autores dizem não saber a que nível de exposição cada profissional esteve sujeito.

"Você não pode controlar uma exposição que decidiu não medir", disse Patel por e-mail.

"Ninguém assume a responsabilidade"

Sara Nelson, presidente da Associação de Comissários de Bordo-CWA, sindicato que representa 55 mil comissários nos Estados Unidos, afirmou que o relatório reforça que a exposição à radiação precisa ser levada a sério — algo que a entidade vem defendendo há anos.

"O risco é conhecido, mas as tripulações não recebem orientação nem informação. E ninguém assume a responsabilidade", disse Nelson.

Do lado médico, os autores do comentário fizeram três sugestões concretas. Exames anuais de pele podem ser indicados para todas as pessoas que trabalham em voos de grande altitude. Mulheres nessas profissões podem considerar fazer mamografias mais cedo ou com maior frequência. E médicos que atendem pilotos e comissários deveriam ter uma "atenção redobrada" para a possibilidade de câncer ao avaliar esses pacientes.

O que o estudo não consegue provar

Os autores listaram as próprias limitações, e elas importam para não ler o resultado como uma relação de causa e efeito fechada.

A primeira já foi citada: não se sabe a dose recebida por cada pessoa, nem nos voos nem por outras fontes. A segunda é a qualidade do registro — é possível que a profissão tenha sido anotada de forma incorreta em parte dos atestados de óbito.

A terceira é a mais interessante, porque aponta para outro suspeito. O risco de câncer pode ser agravado por alterações frequentes no relógio biológico do corpo, algo que o jet lag, a mudança de fusos horários e as jornadas irregulares provocam — e essas são características da rotina de quem trabalha voando. O estudo não conseguiu separar esse fator da radiação. Ou seja: o excesso de mortes está medido, mas a fatia que cabe a cada causa, não.

O que fazer com essa informação

Se você trabalha em aviação ou tem alguém da família na profissão, a pergunta prática a acompanhar nos próximos meses é uma só: empregadores e reguladores vão passar a medir e informar a exposição individual à radiação? Hoje isso não acontece — os autores registram que o governo americano não fixa limites de dose nem exige monitoramento, e o estudo, sendo uma publicação científica, não muda essa regra por si. A mudança, se vier, virá de decisão regulatória ou de acordo trabalhista, e é aí que vale olhar.

Vale acompanhar também se a pressão da Associação de Comissários de Bordo-CWA, que representa 55 mil profissionais e diz cobrar o assunto há anos, se converte em alguma política concreta. Nelson resume a queixa em duas partes: falta informação às tripulações e falta um responsável definido. Qualquer resposta que apareça terá de tocar em pelo menos uma dessas duas.

No plano individual, o que existe de recomendação vem do comentário assinado por Olsen e Karipidis, e é razoável levar ao consultório: exame anual de pele para quem trabalha em voos de grande altitude, e conversa com o médico sobre antecipar ou intensificar mamografias no caso das mulheres nessas funções. A sugestão dos dois vale também para o profissional de saúde do outro lado da mesa, que deveria considerar o histórico ocupacional ao avaliar esses pacientes.

Uma ressalva de leitura: os dados, o órgão regulador e o sindicato citados são dos Estados Unidos. E o estudo mostra uma associação forte em uma base enorme, não uma dose medida — a discussão sobre quanto da diferença vem da radiação e quanto vem da desregulação do relógio biológico continua aberta.

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