EUA ampliam ataques a barcos e incluem Brasil na estratégia contra o narcotráfico - Resenha crítica - 12min Originals
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EUA ampliam ataques a barcos e incluem Brasil na estratégia contra o narcotráfico - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O que são esses ataques

Desde setembro de 2025, as Forças Armadas dos Estados Unidos vêm destruindo pequenas embarcações no Mar do Caribe e no Pacífico Oriental. O procedimento é sempre parecido: o Comando Sul, estrutura militar americana responsável pela América Latina, anuncia em uma publicação na rede social X que atacou um barco que, segundo "informações de inteligência confirmadas", estava envolvido com narcotráfico, e informa quantas pessoas morreram. Não há abordagem, não há prisão, não há julgamento. O barco é destruído com as pessoas dentro.

A justificativa jurídica está num documento que o governo Trump elaborou em 2025, um parecer sigiloso do Escritório de Assessoria Jurídica do Departamento de Justiça americano, segundo o qual o presidente pode autorizar força letal contra uma ampla lista de cartéis porque eles "representam uma ameaça iminente aos americanos". Ao Congresso, o governo informou que está em "conflito armado" com os cartéis e classificou os mortos como "combatentes ilegais", alegando o direito de agir sem revisão judicial.

A escala já não é pequena. No ataque mais recente relatado, em 19 de setembro, quatro pessoas morreram numa lancha rápida no Caribe, dez dias depois de outro ataque que matou três. Somados, os números oficiais analisados pela CNN chegam a pelo menos 234 mortos e ao menos 80 embarcações destruídas. O governo americano não apresentou provas conclusivas de que os barcos atingidos transportavam drogas.

É esse conjunto de operações que virou objeto de contestação pública nesta semana, ao mesmo tempo em que o nome do Brasil entrou no vocabulário da campanha.

Parlamentares de 13 países chamam as mortes de execuções extrajudiciais

Mais de 70 parlamentares de 13 países das Américas assinaram uma declaração conjunta que se opõe "firmemente" aos ataques, afirmando que eles resultaram em "centenas de execuções extrajudiciais de civis". A lista reúne políticos de Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Guatemala, Honduras, México, Paraguai, Peru e Uruguai, além de Porto Rico. Entre os americanos está a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez. Pelo Brasil assinam duas deputadas federais, Luciene Cavalcante (PSOL-SP) e Ana Pimentel (PT-MG).

O argumento central é a ausência de prova: segundo os signatários, não há evidências de que qualquer um dos alvos representasse ameaça iminente que justificasse o uso de força letal, e a identidade da maioria das vítimas permanece desconhecida, sem que as famílias tenham meios seguros de obter informação ou buscar reparação. O texto diz ainda que especialistas em direito, organizações de direitos humanos e integrantes e ex-integrantes das Forças Armadas americanas levantaram dúvidas sobre a legalidade das operações.

A declaração também contesta a eficácia. Citando avaliações do próprio governo dos EUA, afirma que os ataques não reduziram significativamente o fluxo de cocaína para o país e que a produção na região não diminuiu. E pede que os demais governos das Américas não colaborem com compartilhamento de inteligência, cessão de bases, apoio logístico ou qualquer outra forma de cooperação.

Trump compara cartéis ao Estado Islâmico

Na 81ª Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, Trump defendeu a escalada. "Eu designei os cartéis de drogas como organizações terroristas e autorizei o Exército americano a lidar com eles", disse. "Os cartéis são o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental." E completou: "Como o Estado Islâmico, eles devem ser mortos, exilados ou presos como combatentes, sem a possibilidade de libertação, como estamos fazendo."

No mesmo discurso, ele celebrou a detenção de Nicolás Maduro, capturado em Caracas por uma operação militar americana e preso desde 3 de janeiro em território americano, onde responde a quatro acusações ligadas a tráfico de drogas e de armas. Trump também afirmou buscar "uma mudança fundamental na situação em Cuba".

A mudança de escala não é só retórica. O Pentágono planeja transferir para a América do Sul drones MQ-9 Reaper hoje baseados na África, aeronaves usadas tanto para vigilância quanto para ataques de precisão. Segundo seis fontes ouvidas pela CNN, a transferência precede operações previstas de combate ao narcotráfico e ao terrorismo na região, incluindo possíveis ações no Equador, que já realiza operações militares conjuntas com os EUA. O Pentágono não comentou. A tendência aparece também na Estratégia de Defesa Nacional divulgada em janeiro, em que o secretário Pete Hegseth define a defesa do hemisfério ocidental como prioridade número um.

O Brasil entra na mira

Meses atrás, o governo americano designou o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Na terça, Trump afirmou que o Brasil "falhou" no combate a essas organizações e que elas transformaram o país "em um centro de distribuição global de cocaína", cobrando "medidas enérgicas" com urgência. O governo brasileiro classificou a designação como um "desaforo" e teme que ela sirva de pretexto para interferência no país, incluindo ação territorial, argumento usado antes para capturar Maduro e bombardear barcos no Caribe.

No mesmo dia, o Escudo das Américas, aliança de nações com líderes conservadores criada pelo governo Trump, divulgou documento aderindo à designação. Assinam Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago. O Brasil não integra o grupo. Segundo interlocutores ouvidos pela Folha, a diplomacia brasileira desconhecia a possibilidade do documento e foi pega de surpresa. Os efeitos práticos ainda não estão claros, mas, segundo analistas, o movimento ajuda a preparar terreno para eventuais ataques militares contra grupos criminosos.

Lula discursou pouco antes de Trump. "O Brasil não subestima o crime organizado. Estamos preparados para enfrentar os criminosos. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas", afirmou, pedindo cooperação para estancar o fluxo de armas e dinheiro. Disse também que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém" e criticou a ingerência externa em processos eleitorais, às vésperas da eleição de 4 de outubro, em que disputa a reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL). Na véspera, em entrevista à CNN, tinha dito: "Se tinha narcotráfico na Venezuela, prende o narcotraficante. Agora, mataram muita gente lá, nos barcos, e não provaram ainda nenhum traficante."

Quem paga a conta no mar

Numa vila do litoral colombiano, pescadores relataram à CNN Brasil o efeito dos ataques no trabalho diário. "Os pescadores têm medo, já não querem ir para longe das margens. Mas perto da margem tem menos peixe. Então antes, a gente precisava pescar quatro, cinco dias e agora tem que ficar 12 dias pescando para conseguir a mesma quantidade", disse Iroldo Mato Manigua. Francisco Cuello Garay descreveu a distância em que trabalham, cerca de 55 quilômetros da costa, e o risco de confusão: "não temos nada a ver com esses negócios, e eles começam a nos explodir". Roger Cantillo, que continua pescando longe da costa, resumiu a rotina: "A gente sempre sai com medo."

É a esse cenário que a declaração dos parlamentares se refere ao dizer que as comunidades costeiras e pesqueiras enfrentam risco à vida e ao sustento.

O que fazer com essa informação

O que está em jogo para o Brasil não é o que já aconteceu no mar, e sim se a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas sai da retórica e vira ação. Três coisas indicam esse caminho, e todas são verificáveis pela imprensa nos próximos meses: para onde vão os drones MQ-9 e sob qual comando ficam; se algum país vizinho passa a receber operações conjuntas em terra, como já ocorre no Equador; e se o governo americano articula com o Brasil ou apenas anuncia por fora, como fez com o documento do Escudo das Américas, que pegou o Itamaraty de surpresa.

Do lado brasileiro, vale acompanhar dois movimentos que tendem a se confundir na campanha. Um é diplomático: a proposta de cooperação que Lula diz ter entregue pessoalmente a Trump, focada em fluxo de armas e de dinheiro, e o que acontece com ela. O outro é eleitoral: soberania e crime organizado viraram tema de disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro a duas semanas do pleito, e cada declaração sobre os ataques passa a ser lida também por essa chave.

Também vale separar duas discussões que costumam vir grudadas. Uma é se o crime organizado transnacional é um problema grave, ponto em que os parlamentares signatários, o governo americano e o governo brasileiro dizem concordar. A outra é se matar pessoas em barcos sem identificá-las, julgá-las ou apresentar provas é um meio legal de enfrentá-lo, e é aí que a divergência está posta, com especialistas em direito, organizações de direitos humanos e parte do Congresso americano de um lado e o parecer sigiloso do Departamento de Justiça do outro.

Quando o assunto voltar na sua conversa, você consegue dizer o que exatamente foi apresentado como prova nesses 234 mortos?

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