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Editora: 12min
Estados Unidos e China não estão em guerra comercial aberta nem em paz. Há mais de um ano a relação entre as duas maiores economias do mundo funciona sob um arranjo provisório: tarifas parcialmente suspensas, controles de exportação adiados, compras prometidas. Tudo com data para vencer. Quando o prazo se aproxima, os dois lados sentam, renovam e empurram a discussão para a frente.
Isso não é assunto apenas de diplomata. É esse arranjo que define se a soja americana entra em portos chineses e que regula o fluxo de terras raras, os minerais usados em ímãs, eletrônicos, equipamento de defesa e no hardware que sustenta a inteligência artificial. Quando Pequim restringiu esses embarques, a Ford parou por uma semana a produção do Explorer em Chicago por falta de ímãs, e fornecedores automotivos japoneses e europeus desligaram linhas à espera de material.
Foi nesse contexto que Xi Jinping desembarcou em Washington na noite de quarta-feira, 23 de setembro, para a primeira visita de Estado de um líder chinês aos Estados Unidos em mais de dez anos. Horas antes do pouso, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou à Fox News que a trégua comercial, que expiraria em 10 de novembro, fora estendida até 10 de janeiro.
A escalada começou logo depois que Trump voltou ao cargo, em janeiro de 2025, com uma tarifa de 10% sobre produtos chineses justificada por fentanil e imigração. Pequim respondeu com taxas sobre carvão, gás natural liquefeito, petróleo e automóveis americanos, além de restrições à exportação de cinco metais de terras raras. A partir dali, os dois países se hostilizaram até as tarifas chegarem a três dígitos: 145% do lado americano, 125% do lado chinês.
O recuo veio por etapas. Negociadores se encontraram na Suíça em maio de 2025 e cortaram as alíquotas; o arranjo foi prorrogado em agosto; e em outubro daquele ano Trump e Xi fecharam, na Coreia do Sul, o chamado acordo de Busan. Por ele, a China suspendeu controles sobre terras raras e se comprometeu a comprar produtos agrícolas americanos, enquanto os Estados Unidos reduziram tarifas e suspenderam outras retaliações.
Mesmo com a trégua, os dois países seguem se taxando pesado. Em julho, a alíquota efetiva americana sobre produtos chineses era de 22,8%, a mais alta entre os grandes parceiros comerciais dos Estados Unidos, segundo o Penn Wharton Budget Model, da Universidade da Pensilvânia. O comércio de bens entre os dois caiu quase 30% em 2025 e continuou encolhendo nos primeiros sete meses de 2026.
Em maio deste ano, Trump foi a Pequim e os dois anunciaram a criação de um conselho de comércio e investimento, além de compras chinesas de aviões Boeing e de produtos agrícolas. Bessent reconheceu em entrevista à CNBC que parte do que foi acertado em Busan "não foi completamente cumprida". A senadora Tammy Duckworth foi mais direta ao citar as promessas de 200 aeronaves da Boeing e de US$ 17 bilhões em produtos agrícolas: "Nenhuma das duas se concretizou."
Trump foi buscar Xi na pista da Base Aérea Conjunta Andrews, em Maryland, acompanhado da primeira-dama Melania Trump. Havia um tapete vermelho de 30 metros, uma guarda de honra, crianças com buquês, salvas de canhão e o sobrevoo de dois bombardeiros B-1 enquanto tocavam os hinos dos dois países. Segundo a BBC, é a primeira vez desde 1962, quando John F. Kennedy recebeu o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan, que um presidente americano vai pessoalmente à base receber um líder estrangeiro.
Melania Trump disse à Fox News que a decisão partiu do marido, porque os dois líderes "têm uma ótima relação". Em declaração escrita divulgada pela agência estatal Xinhua, Xi afirmou que os dois países "deveriam ser parceiros, e não rivais".
Nem todos leram a cena da mesma forma. Danny Russel, que foi funcionário do Departamento de Estado no governo Obama e hoje é pesquisador do Asia Society Policy Institute, afirmou que Pequim usa imagens assim interna e externamente para demonstrar a estatura de Xi, e que o gesto pode ser interpretado na China como sinal de fraqueza americana.
A IA foi o item da pauta em que os dois governos chegaram mais perto de um entendimento. Depois de se reunir em Nova York com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, no domingo anterior à visita, Bessent disse que os Estados Unidos propuseram um "mecanismo de notificação" para que os dois países avisem um ao outro sobre incidentes de IA graves o bastante para ameaçar a segurança nacional. "Passar da opacidade para maior transparência entre a primeira e a segunda maiores potências de IA do mundo é muito importante", afirmou.
A preocupação tem casos concretos por trás. A OpenAI informou que um de seus modelos de pesquisa obteve acesso não autorizado a partes da Hugging Face, plataforma usada para hospedar e distribuir modelos de IA. A Anthropic identificou o uso de IA para automatizar etapas de ciberataques.
No mesmo dia em que Xi chegou, o Conselho de Segurança da ONU discutiu o tema com Sam Altman, da OpenAI, presente, e Dario Amodei, da Anthropic, e Clément Delangue, da Hugging Face, por vídeo. França, Reino Unido e China defenderam mecanismos de cooperação internacional. O conselheiro de ciência do governo americano, Michael Kratsios, repetiu a posição de Trump: não há motivo para pausar o avanço da tecnologia nem submetê-la a regras globais.
O que não estava em discussão era justamente o mais duro. Chris McGuire, do Council on Foreign Relations, disse à CNBC que um acordo para desacelerar o desenvolvimento é "extremamente improvável", e que a China historicamente usa esse tipo de diálogo para reclamar dos controles de exportação americanos. O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que controles sobre chips não estavam na agenda das conversas preliminares.
Washington mantém restrições à venda dos chips de IA mais avançados da Nvidia para a China, ao mesmo tempo em que Trump autorizou vendas limitadas do modelo H200. Do outro lado, Pequim colocou sete elementos de terras raras sob controle de exportação no ano passado, obrigando empresas a pedir autorização do governo para embarcá-los. A China respondeu por mais de 70% da mineração global e mais de 87% do refino desses minerais em 2024, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos.
Taiwan é o ponto mais sensível. Um pacote de venda de armas de US$ 14 bilhões aprovado pelo Congresso está parado há meses à espera da assinatura de Trump, que já descreveu essas vendas como "uma boa moeda de troca". Em dezembro, o governo aprovou um pacote anterior de US$ 11 bilhões, o maior já autorizado para a ilha. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a China deve levar à mesa sua interpretação do comunicado conjunto de 1982, pelo qual os EUA afirmaram pretender reduzir gradualmente essas vendas.
Trump também deveria pedir a libertação de americanos presos na China. Uma autoridade da Casa Branca confirmou à Fox News que o caso do médico Youlin Chen, detido em 2024, seria levantado. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que Youlin Chen e Min Zin foram designados como detidos injustamente. A Casa Branca também declarou que os Estados Unidos pedem liberdade condicional humanitária para o empresário de Hong Kong Jimmy Lai, condenado a 20 anos.
Por trás de tudo isso há uma mudança de terreno. A confiança nos Estados Unidos como parceiro confiável caiu de 83% em 2022 para 35% neste ano no Canadá, segundo levantamento do Pew Research Center, e o Canadá acaba de ser convidado a ser o primeiro "membro associado" da União Europeia. Enquanto isso, o superávit comercial global da China chegou a US$ 1,2 trilhão em 2025 e está a caminho de superar US$ 1 trilhão pelo segundo ano seguido.
A data a marcar no calendário é 10 de janeiro. Dois meses é bem menos do que a China queria, segundo Wendy Cutler, ex-negociadora comercial americana hoje no Asia Society Policy Institute, e ela lê o prazo curto como sinal de que Washington segue preocupado com o cumprimento dos compromissos chineses, sobretudo em minerais críticos e compras agrícolas. Craig Singleton, da Foundation for Defense of Democracies, resumiu a lógica: "É menos sobre comprar dois meses de calma do que sobre fazer a China merecer a próxima extensão."
Na prática, acompanhe três coisas. Primeiro, se as compras de soja e os embarques de terras raras aparecem nos dados, porque foi o descumprimento dessas promessas que encurtou o prazo agora. Segundo, se o mecanismo de notificação de incidentes de IA ganha forma escrita, com alguma maneira de verificar o que cada lado informa, ou se fica na declaração de intenção. Terceiro, a decisão sobre o pacote de armas para Taiwan: um funcionário da Casa Branca disse que Trump decidirá em prazo relativamente curto, e essa é a variável que mais mexe com os aliados dos EUA na Ásia.
Há ainda duas oportunidades marcadas para que a conversa continue: a cúpula da Apec sediada pela China em novembro e a reunião do G20 em Miami, em dezembro. Com os dois lados emitindo comunicados separados em vez de uma declaração conjunta, o que cada um disser ao próprio público vai valer tanto quanto o que ficou acertado na mesa.
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