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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
No fim de junho de 2026, a Europa virou notícia pelo motivo mais físico possível: o calor. Pesquisadores já classificam o episódio como a pior onda de calor já registrada no continente. A França teve o dia mais quente da sua história, e também com a média diária passando dos 30 °C, marca que nenhum termômetro nacional havia cravado desde o início das medições, em 1947. O Reino Unido bateu seu recorde para junho. A Espanha viveu os dias de junho mais quentes desde 1950, e a Península Ibérica chegou perto dos 44 °C. A Organização Mundial da Saúde classificou o evento como urgente para a saúde do povo europeu.
A cena que melhor resume o momento talvez seja a do rei Charles III, numa recepção da Semana do Clima de Londres, sendo abanado por um pequeno ventilador de pilha segurado por um assessor. O continente que durante séculos exportou a ideia de clima temperado, descobriu, da pior forma, que não foi construído para isso. Museus fecharam na Itália por falta de energia. Na Bélgica, o preço da eletricidade passou de um euro por quilowatt-hora ao anoitecer, com as usinas no limite para dar conta dos aparelhos de ar-condicionado. Na Suécia, um trilho entortou com o calor e descarrilou um trem de carga. Na França, a maior parte das mortes não veio da insolação clássica, mas de afogamentos, gente entrando em rios e lagos para escapar do calor.
A tentação é atribuir tudo a um nome só, e o nome que costuma aparecer é El Niño. Aqui mora o primeiro mal-entendido. O que está cozinhando a Europa neste momento é um domo de calor, um sistema de alta pressão persistente que os meteorologistas apelidaram de bloqueio Ômega. Ele puxou ar quente do norte da África e o estacionou sobre o oeste europeu, deixando o céu limpo e o solo assando dia após dia. Sobre essa máquina atmosférica existe um piso que sobe ano a ano, o aquecimento global, que transforma o que seria um verão quente numa sucessão de recordes.
O El Niño existe, está se formando e se intensificando agora. Mas a sua influência sobre o verão do Hemisfério Norte é fraca. No verão europeu, ele é coadjuvante. O protagonista é o bloqueio atmosférico sobre uma base já aquecida. A Europa não está quente por causa do Pacífico. Está quente porque o ar africano ficou preso em cima dela.
Se na Europa o El Niño é figurante, do nosso lado do mundo ele é o personagem principal. E é por isso que vale separar as duas histórias. Uma máquina assa a Europa hoje. A outra está sendo carregada no Pacífico, e quem vai sentir o efeito dela com força é o Brasil.
O El Niño é o aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico equatorial. Esse aquecimento reorganiza ventos e chuvas em escala planetária, com efeitos opostos entre o norte e o sul do Brasil. A leitura mais recente dos centros internacionais mostra o índice de referência do Pacífico já acima de um grau e meio em meados de junho, com condições de El Niño estabelecidas e em fortalecimento. As probabilidades sobem ao longo do ano: passam de 60% para o trimestre que começa agora e superam 80% no segundo semestre, segundo os boletins da agência americana NOAA acompanhados pelo INMET.
A geografia do fenômeno por aqui é quase um espelho partido. No Norte e no norte do Nordeste, também em partes do Centro-Oeste e do Sudeste, o El Niño tende a reduzir as chuvas e elevar as temperaturas. O resultado é maior risco de estiagem prolongada e de queimadas, com atenção especial para a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal. No Sul, o sinal se inverte: chuvas mais intensas e concentradas, com risco de enchentes e deslizamentos. Quem viveu a tragédia do Rio Grande do Sul em 2024 sabe o que esse tipo de aviso carrega.
Os efeitos práticos vão além da agenda do tempo. A matriz elétrica brasileira depende fortemente das hidrelétricas, e bacias como as do Xingu, do Madeira e do Tocantins-Araguaia entram no radar de quem planeja energia. Menos água nos rios significa menos geração e mais pressão sobre os preços, justamente no momento em que o calor empurra o consumo para cima. Na lavoura, a conta também é desigual. No Norte, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste, a estiagem ameaça as culturas de sequeiro, soja e milho à frente. No Sul, o excesso de chuva encharca o solo, favorece doenças fúngicas e atrapalha o plantio e a colheita, com efeito mais duro sobre os cereais de inverno.
A história do Brasil guarda um aviso sobre o que um El Niño forte é capaz de fazer. Um Super El Niño, quando a anomalia do mar ultrapassa dois graus acima da média, aconteceu apenas quatro vezes em 150 anos: 1877, 1982, 1997 e 2015. Modelos atuais indicam que 2026 pode ser o quinto. O de 1877 desencadeou uma das piores secas da história do Nordeste, com lavouras destruídas, fome e êxodo em massa, uma ferida que marcou gerações inteiras.
A diferença entre aquele século e este não está no clima, que pode até ser mais hostil hoje. Está no que temos nas mãos. O século XIX encontrou a seca às cegas. Nós temos ciência, satélite e previsão sazonal. A pergunta que fica é se vamos usar o que sabemos.
Há um detalhe que os próprios meteorologistas fazem questão de lembrar, e que separa a informação séria do alarme. No Nordeste, El Niño não é sinônimo automático de seca. O comportamento do Atlântico Tropical pesa tanto quanto o do Pacífico. Quando as águas do Atlântico Sul estão mais quentes, elas geram umidade que pode compensar parte do efeito vindo do outro oceano. Foi o que aconteceu neste começo de ano, quando o semiárido escapou por pouco de uma estação seca, ainda que irregular.
O período que de fato importa para o Nordeste vai de outubro a maio, quando se concentra a maior parte das chuvas. Por isso a postura correta diante do noticiário não é o susto, é a atenção. O fenômeno sozinho não decide o clima de uma região inteira. Ele inclina a balança, e quem acompanha a previsão consegue se preparar antes de ela pender.
Para quem decide em empresa ou em gestão, o ponto de partida é a exposição a energia e a insumos. Vale revisar contratos e cenários de custo de energia para o segundo semestre, mapear dependência de água e de safras sensíveis, e tratar a previsão sazonal como variável de planejamento, não como curiosidade de noticiário.
Para quem acompanha o mundo por interesse, o aprendizado é não embaralhar as duas máquinas. O calor europeu e o quadro brasileiro têm causas diferentes. Ler os boletins do INMET e do INPE rende mais do que reagir a manchetes de recorde, porque é ali que o sinal aparece antes do efeito.
Para quem só quer atravessar o ano com tranquilidade, a regra é simples e regional. No Sul, atenção redobrada a chuva forte e a áreas de risco. No Norte e no Nordeste, olho no calor e na água. Nada disso é destino selado. É tendência, e tendência se acompanha.
São duas máquinas, não uma. Uma assa a Europa agora. A outra se forma no Pacífico e vem em nossa direção.
A Europa mostra o preço de não estar pronta. Recordes, mortes, apagões, trilhos entortados, tudo num continente rico que se imaginava protegido.
O Brasil ainda tem tempo. O El Niño não chegou com força total, e a previsão está na mesa. O século XIX enfrentou a seca no escuro. Nós não precisamos repetir o erro.
O calor é notícia. O que vem depois dele é decisão.
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