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Editora: 12min
Antimicrobianos são substâncias usadas para conter microrganismos: antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasitários. Na criação de animais, eles servem para tratar e prevenir infecções, mas em alguns casos também aceleram o crescimento e aumentam a produtividade do rebanho. É esse segundo uso que a União Europeia proíbe.
A razão declarada é de saúde pública. O uso indiscriminado desses medicamentos favorece o surgimento de bactérias resistentes aos antibióticos disponíveis. Segundo a Organização Mundial da Saúde, citada pelo jornal O Globo, superbactérias resistentes a antimicrobianos são diretamente responsáveis por mais de um milhão de mortes por ano e contribuem para quase cinco milhões de mortes adicionais. As regras europeias, parte da agenda "Uma Só Saúde" do bloco, valem para os produtores europeus desde 2022 e proíbem tanto o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento quanto o uso de substâncias reservadas ao tratamento de infecções em humanos. A lista de produtos restritos inclui virginiamicina, avoparcina, tilosina, espiramicina, avilamicina e bacitracina.
Para vender produtos de origem animal ao bloco, um país precisa estar numa lista de nações que comprovam cumprir essas normas. Em maio de 2026, o Brasil ficou de fora. Segundo a Comissão Europeia, a decisão não teve relação com contaminação ou problema sanitário encontrado nos produtos brasileiros, mas com a falta de comprovação de que o país se adequou às regras no prazo. O Brasil foi o único exportador retirado da lista por esse motivo, e o único país do Mercosul afetado: Argentina, Uruguai e Paraguai seguem autorizados.
É nesse ponto que a história deixa de ser regulatória e passa a mexer com o bolso e com a diplomacia.
A suspensão anunciada em maio, formalizada em junho por decisão assinada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, entrou em vigor em 3 de setembro. Desde essa data, carne bovina, carne de aves, ovos, mel e pescados brasileiros não entram mais nos 27 países do bloco. Segundo o Estadão, o entendimento das autoridades europeias e brasileiras é de que as remessas certificadas antes de 3 de setembro ainda podem ser recebidas pelos importadores europeus.
O prazo de volta é diferente para cada cadeia, e a razão é biológica. Uma auditoria europeia percorreu Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul até 4 de setembro, inspecionando cooperativas, fábricas de ração, incubatórios, granjas, frigoríficos e produtores de mel. Como o frango leva cerca de 45 dias do nascimento ao abate e as novas regras brasileiras passaram a valer em 1º de julho, os inspetores puderam avaliar um ciclo produtivo completo já sob o novo protocolo. No caso do mel, o Estadão informa que não há uso de antimicrobianos na produção brasileira, porque não existem produtos autorizados e registrados para esse fim.
Com o boi é outra conta. O ciclo de vida de um bovino leva de 24 a 36 meses, e a União Europeia passou a exigir garantia de que o animal não recebeu as substâncias proibidas durante toda a vida. "Exigimos garantias para todo o ciclo de vida dos animais; isso é importante e, no caso da carne bovina, isso não está acontecendo no momento", disse a porta-voz da Comissão Europeia, Eva Hrncirova, em entrevista coletiva em Bruxelas. A estimativa do setor e do governo, segundo o Estadão, é de que o primeiro ciclo completo de bovinos criados sob os novos procedimentos só se conclua por volta de agosto de 2028. Até lá, não há nem auditoria europeia agendada para a carne bovina.
Em volume, a Europa é pouco. Segundo dados do Ministério da Agricultura citados pelo g1, o bloco respondeu em 2025 por 3,7% do volume de carne bovina exportado pelo Brasil e por 5,8% do valor. A China, maior compradora, leva cerca de metade das exportações brasileiras.
O que muda tudo é o preço. Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea-USP, afirmou ao g1 que a China paga em média US$ 6,50 pelo quilo, enquanto a União Europeia paga cerca de US$ 10. O bloco compra praticamente cinco cortes do boi, quase todos do traseiro: filé mignon, contrafilé, alcatra e coxão mole, além do filé de costela. Os chineses preferem os cortes dianteiros.
Além do preço, há o selo. Nem todos os estados brasileiros podem exportar para a Europa: apenas Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Cada fazenda passa por avaliação de requisitos sanitários, veterinários e de bem-estar animal, e cada boi precisa ser rastreado individualmente. "Se um país recebe o aval para exportar para a Europa, ele está recebendo um certificado de alto padrão regulatório", disse ao g1 Fernando Enrique Iglesias, analista da Safras & Mercado.
O risco que preocupa o setor é o de desmonte silencioso desse padrão. Como criar um boi na regra europeia custa mais, e a premiação chega a 10% acima da cotação nacional segundo Carvalho, o pecuarista que perde o comprador perde também o incentivo de manter a rastreabilidade. O pecuarista Rafael Andrade Asato, de Mato Grosso do Sul, disse ao g1 que deixará de seguir os protocolos europeus se não conseguir um valor adicional: "Não faz sentido eu agregar um custo de rastreabilidade, de chip, se eu não tiver um prêmio por isso".
A intuição diz que carne que não sai do país sobra no mercado interno e faz o preço cair. Neste caso, provavelmente não.
"É pouquíssimo provável que isso aconteça", disse Iglesias ao g1. O volume que ia para a Europa é pequeno demais para mover o preço interno, e há dois fatores puxando na direção contrária. O primeiro é o ciclo pecuário: o Brasil atravessa a baixa do ciclo, período com menos bois disponíveis para abate. O segundo é a China. Segundo Iglesias, os embarques desaceleraram em julho e agosto, mas a partir de outubro os frigoríficos devem retomar os abates voltados ao mercado chinês para aproveitar a cota de 2027, já que o transporte leva de 45 a 60 dias. Menos carne disponível internamente, preço em alta.
Os dados do IBGE citados pelo g1 já mostram o movimento: na prévia da inflação de agosto, as carnes acumulavam alta de 8,53% em 12 meses, com filé mignon subindo 15,2%, contrafilé 11,5%, coxão mole 10% e alcatra 9,31%. São justamente os cortes que a Europa comprava.
O Ministério da Agricultura afirmou em comunicado, no dia 3, que consideraria medidas recíprocas caso não houvesse solução satisfatória. Segundo a nota, as autoridades brasileiras expressaram indignação com a falta de diálogo antes da adoção da medida, que "não corresponde à profundidade da parceria estratégica entre Brasil e UE", e o país "se reserva o direito de recorrer aos instrumentos apropriados", incluindo medidas de reciprocidade previstas na legislação nacional e mecanismos do acordo Mercosul-União Europeia.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) agiu em duas frentes. Ao Itamaraty, o presidente da entidade, João Martins, pediu o acionamento do Mecanismo de Reequilíbrio de Concessões, instrumento que permitiria ao Brasil suspender benefícios tarifários concedidos aos europeus como compensação. No ofício, Martins classifica a medida europeia como "grave e injustificada distorção no acesso ao mercado europeu".
A segunda frente é o azeite. A CNA pediu ao Ministério da Agricultura uma apuração sobre os azeites importados, para verificar se produtos vendidos como extravirgens correspondem aos padrões da legislação brasileira. A nota da entidade não menciona a União Europeia, mas o alvo é evidente: das quase 90 mil toneladas de azeite importadas pelo Brasil em 2025, 89% vieram do bloco, principalmente de Portugal, Espanha e Itália, num total de cerca de US$ 540 milhões. Entre janeiro e julho deste ano, das 56 mil toneladas importadas, 40 mil foram portuguesas. Não se trata, por ora, de sobretaxa ou proibição, e sim de fiscalização de classificação, que tem efeito tributário porque categorias diferentes pagam tributos diferentes.
Do outro lado, a leitura de que o veto é político circula abertamente. Robson Gonçalves, economista e professor da Fundação Getulio Vargas, disse à Associated Press esperar que a União Europeia adote medidas adicionais contra o Brasil até que o acordo com o Mercosul entre plenamente em vigor, descrevendo o mecanismo usado como "uma medida política". Bruxelas nega: afirma que se trata de exigência sanitária ligada ao combate à resistência antimicrobiana.
Há dois prazos concretos para acompanhar, e eles não se confundem.
O primeiro é novembro. O resultado da auditoria de frango e mel, concluída em 4 de setembro, deve ser comunicado ao Brasil até o fim de setembro e será submetido ao Scopaff, o Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações da Comissão Europeia, que se reúne em 16 e 17 de novembro. É nessa data que a exclusão do Brasil pode ser revertida para essas duas cadeias. Se não for, o setor de frango tem para onde ir: Ricardo Santin, da ABPA, lembrou ao g1 que o Brasil já ficou quatro meses sem vender à Europa no ano passado por causa da gripe aviária e que o produto pode ser redirecionado ao mercado interno e aos cerca de 150 países que já compram frango brasileiro. O ponto sensível é o peito de frango, cujo principal destino é a Europa, segundo o Estadão.
O segundo prazo é 2028. Enquanto o primeiro lote de bovinos criados sob o novo protocolo desde o nascimento não completar o ciclo, não há auditoria nem previsão de retomada. Vale observar dois sinais nesse intervalo: quantas fazendas aderem ao protocolo homologado em julho pelo Ministério da Agricultura (cerca de 200 haviam solicitado adesão, ainda em fase documental, segundo o Estadão) e se a Abiec consegue emplacar o regime de transição que pede, para comprovar o protocolo sem interromper as vendas. Executivos de grandes frigoríficos consultados pelo Estadão acreditam que a demanda europeia fará o bloco rever a decisão antes de 2028.
No supermercado, a orientação prática é separar as causas. Se a carne subir nos próximos meses, o motivo mais provável não é a Europa: é a baixa do ciclo pecuário e a retomada dos embarques para a China a partir de outubro. E se o azeite português entrar no radar da fiscalização, o efeito sobre a prateleira é a outra ponta da mesma disputa, agora com o consumidor brasileiro pagando a conta da reciprocidade.
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