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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.
ISBN: 978-65-5979-201-6
Editora: Zahar
Você já reparou como a gente vive sob uma pressão enorme para estar sempre bem? Parece que virou uma obrigação postar foto sorrindo e fingir que a vida é um comercial de margarina. Mas a verdade é que esse imperativo de alegria perene é uma das maiores fontes de angústia hoje em dia.
Neste microbook, baseado nas reflexões de Vera Iaconelli para a Folha de S.Paulo, vamos olhar para o que ela chama de felicidade ordinária. Esqueça aquela ideia de sucesso absoluto ou de uma vida sem problemas. A psicanálise nos ensina que a felicidade real é feita de momentos curtos, de frestas de prazer no meio de uma rotina que, muitas vezes, é difícil e cansativa.
Iaconelli usa a experiência do consultório e a observação do mundo para mostrar que reconhecer a nossa finitude e aceitar o sofrimento comum é o primeiro passo para uma vida mais autêntica. O que você ganha ao ler este conteúdo é um alívio imediato da culpa por não ser perfeito e uma lente nova para enxergar a beleza que existe na vida como ela é, sem filtros ou retoques artificiais.
A autora traça um paralelo curioso entre o nosso tempo e a época em que Freud viveu, há cerca de cem anos. Os dois períodos passaram por pandemias e pela subida de governos autoritários. Isso gera o que chamamos de trauma coletivo. O trauma acontece quando vivemos algo tão intenso que a nossa mente não consegue processar tudo de uma vez. Exige um trabalho de conversa e reflexão que nunca acaba de verdade.
Iaconelli mergulha em temas que mexem com todo mundo: como a gente cria os filhos, como lidamos com o feminismo, o sexo, a educação e a política inflamada do Brasil. Ela tira a psicanálise daquela torre de marfim e traz para o chão da cozinha, para a mesa do bar e para as reuniões de escola. O objetivo não é dar uma receita de bolo, mas ajudar você a se desalienar. Isso significa parar de seguir regras que não fazem sentido para você e assumir a responsabilidade pela sua própria jornada, entendendo que o mal-estar faz parte da civilização e que a arte pode ser um caminho muito melhor do que a agressividade para lidar com isso.
O conceito de felicidade ordinária é libertador porque ele tira o peso das grandes expectativas. Muitas vezes, a gente se perde buscando um ideal de relacionamento ou de carreira que simplesmente não existe na realidade. Quando você aceita que a vida é feita de altos e baixos, você para de brigar com os dias ruins e começa a aproveitar os dias bons com muito mais presença.
A psicanálise aqui funciona como uma tradutora do cotidiano. Ela pega aquele sentimento estranho que você sente no peito quando vê uma notícia ou quando briga com alguém da família e ajuda você a dar nome aos bois. Ao longo das próximas seções, vamos explorar como o desamparo de ser pai ou mãe, as dores do corpo e os conflitos da convivência moldam quem somos. Prepare você para um papo reto, sem jargões complicados, sobre o que realmente importa para a saúde mental e para o equilíbrio emocional em um mundo que parece ter perdido o juízo.
Muitas pessoas decidem ter filhos por uma espécie de inércia social. É como se fosse o próximo item de uma lista de tarefas: casar, comprar uma casa e, claro, procriar. Mas Iaconelli alerta que essa "inércia reprodutiva" pode ser perigosa. Muitas vezes, o que o casal deseja não é a criança real, com suas fraldas sujas e choros na madrugada, mas sim um "bebê sonhado" que serve para provar que os pais agora são adultos de verdade.
O problema é que o bebê real nunca corresponde totalmente àquela imagem perfeita. Quando o filho nasce, os pais se deparam com um desamparo enorme. Eles percebem que não têm todas as respostas e que a vida individual, aquele tempo de ler um livro ou sair com amigos, vira um artigo de luxo. Mas aqui vem o grande insight da autora: os pais precisam aprender que não podem dar conta de tudo. E isso é bom.
Uma parentalidade saudável exige que você aceite a sua própria falha. Se você tenta ser um super-herói que resolve todos os problemas do seu filho, você impede que ele desenvolva a própria autonomia. A ausência do pai ou da mãe, em momentos pontuais, é necessária para que a criança perceba que ela é um sujeito separado.
A escola, por exemplo, é um lugar fundamental para esse processo. Veja o caso de algumas instituições de ensino que adotaram grupos de mediação de conflitos em vez de apenas punir os alunos. O que elas fizeram foi trocar a autoridade cega pelo diálogo. Isso funcionou porque os jovens aprenderam a lidar com a frustração e com o outro. Você pode replicar isso em casa ao parar de dar soluções prontas toda vez que seu filho reclama de algo. Deixe que ele sinta o incômodo e ajude ele a pensar em como resolver a situação por conta própria.
Outro ponto crucial é o preconceito, que Iaconelli define como um mecanismo de defesa. Quando a gente sente um mal-estar diante de alguém que é muito diferente da gente, isso revela a nossa incapacidade de lidar com o que é "estranho" dentro de nós mesmos. Criar um filho para a alteridade significa ensinar ele a respeitar o diferente, mas para isso você precisa primeiro fazer as pazes com as suas próprias sombras.
A maternidade e a paternidade cobram um preço alto, especialmente para as mulheres. A sociedade tenta vender a ideia de que a mãe tem poderes sobrenaturais para o cuidado, o que é uma mentira deslavada que só serve para sobrecarregar a mulher e afastar o homem da responsabilidade real. Reconhecer que criar um humano é um trabalho coletivo e político ajuda a tirar o peso das costas de quem cuida.
Hoje ainda, tente observar um momento em que você se sente obrigado a ser perfeito no papel de cuidador ou de profissional. Quando esse sentimento surgir, faça um exercício consciente de "baixar a guarda". Permita-se dizer que não sabe a resposta ou que precisa de um tempo para você.
Na sua próxima interação com uma criança ou adolescente, em vez de dar uma ordem direta, faça uma pergunta que estimule a reflexão dele. "Como você acha que a gente pode resolver esse problema juntos?" é uma frase poderosa. Teste essa abordagem por 24 horas e veja como o clima ao seu redor fica mais leve. O aprendizado aqui é que a autonomia nasce do espaço que a gente deixa vazio, e não do excesso de controle que a gente tenta impor sobre a vida dos outros.
O corpo não é apenas uma máquina que nos carrega por aí; ele é o palco de todas as nossas emoções. Iaconelli trabalha muito com a clínica com bebês e mostra que eles se comunicam intensamente através da pele, do olhar e do choro. O que é dito para um bebê, mesmo que ele não entenda as palavras, afeta diretamente o desenvolvimento dele.
Existe um estado que a autora chama de "loucura materna" ou preocupação materna primária. É aquela fase logo após o parto em que a mulher fica com uma sensibilidade aguçada, quase em vigília constante pelo bem-estar do filho. O entorno muitas vezes não entende e acha que a mulher está exagerando, mas essa fase é vital para a sobrevivência do recém-nascido. O problema é que a sociedade ignora o ônus físico e profissional desigual que a reprodução cobra da mulher.
O feminismo entra nessa conversa como um grito de liberdade, mas ele precisa ser bem entendido. Não se trata de odiar a maternidade, mas de garantir que a mulher tenha o direito de escolher ser mãe ou não, sem ser julgada por isso. Quando a gestação e o pós-parto são tratados apenas como um assunto individual da mulher, a gente falha como sociedade.
Grandes empresas de tecnologia, por exemplo, começaram a oferecer auxílio-creche e licença-paternidade estendida. O que elas fizeram de específico foi reconhecer que o cuidado com a vida é uma tarefa de todos. Funcionou porque reduziu o estresse das funcionárias e aumentou a retenção de talentos. Você pode replicar essa lógica no seu dia a dia ao dividir as tarefas domésticas de forma real, e não apenas "ajudando" quando sobra tempo. O cuidado deve ser uma prioridade compartilhada.
Além da maternidade, a maturidade e a velhice também trazem desafios para o corpo. Envelhecer envolve um luto constante daquela imagem jovem que a gente vê no espelho, mas isso não pode significar o fim do desejo ou da vida política. A nossa cultura tende a infantilizar o idoso, tratando ele como alguém que não tem mais vontade própria ou vida erótica. Iaconelli defende que o desejo não tem prazo de validade.
Aceitar o corpo que envelhece é um ato de coragem em um mundo obcecado pela juventude eterna. O corpo que adoece ou que muda com o tempo exige que a gente aprenda uma nova linguagem de afeto e de autocuidado. A psicanálise ajuda a entender que, mesmo quando o corpo falha, o sujeito que habita ali continua sendo um poço de desejos e significados.
Para aplicar isso agora, olhe para o seu próprio corpo com um pouco mais de gentileza. Identifique uma dor ou um desconforto que você vem ignorando por causa da correria e pergunte: "O que esse incômodo está tentando me dizer sobre o meu ritmo de vida?".
Hoje mesmo, tenha uma conversa franca com as pessoas que moram com você sobre a divisão do trabalho invisível na casa. Quem planeja o cardápio? Quem lembra de marcar as consultas? Quem compra o presente de aniversário? Tente equilibrar essa balança.
Se você convive com pessoas mais velhas, faça um esforço para não falar com elas como se fossem crianças. Valorize a autonomia e a história de vida delas. O respeito pelo corpo e pela trajetória do outro é a base para qualquer relação saudável e duradoura.
Viver com outras pessoas é um dos maiores desafios da existência humana. Iaconelli traz um insight poderoso: às vezes, o ódio é uma cola muito mais forte do que o amor. Em muitos casamentos infelizes, o casal permanece unido não porque se gosta, mas porque o ódio que sentem um pelo outro cria um vínculo de dependência doentio. Quem odeia fica o tempo todo monitorando o outro, tentando impedir a sua liberdade. O ódio é uma forma de vínculo que não permite o crescimento.
Na adolescência, vivemos outro tipo de conflito necessário: os pais perdem a coroa de super-heróis. Para o jovem assumir o seu lugar no mundo, ele precisa enxergar as falhas dos pais. É um processo de luto para os adultos, que deixam de ser admirados incondicionalmente, mas é o que permite que o filho vire um adulto independente.
No campo macro, a autora coloca o Brasil no divã. O nosso país sofre sintomas graves de desigualdade e violência racial porque a gente tenta o tempo todo ignorar a nossa história de invasão e escravidão. Não tem como curar uma ferida se a gente finge que ela não existe. Iaconelli fala sobre o letramento racial como um passo essencial para quem quer ser antirracista de verdade. Isso exige ferir o próprio narcisismo, especialmente de quem ocupa lugares de privilégio. Não existe mudança social sem um constrangimento ético. Você precisa se sentir incomodado com a injustiça para começar a agir. A polarização política que vivemos hoje é, em parte, um reflexo desse nosso desespero em lidar com o que é diferente e com a perda de poder de certos grupos.
A tecnologia e as redes sociais também entram na conta desse mal-estar. A virtualização da vida cria um abismo entre a nossa imagem retocada e a realidade do nosso corpo. Nas redes, todo mundo parece feliz, bem-sucedido e viajado. Mas por trás da tela, a solidão e a ansiedade só aumentam.
Pais precisam mediar o acesso das crianças ao mundo virtual, porque a internet pode ser um ambiente desumanizador que não respeita o tempo do desenvolvimento infantil. A solução não é proibir tudo, mas estar presente e oferecer alternativas reais, como a arte, a poesia e o convívio presencial. A psicanálise é intrinsecamente política porque ela foca na desalienação. Ela quer que você assuma a sua parcela de responsabilidade pelo mundo em que vive.
Hoje, pergunte aos seus clientes ou colegas de trabalho como eles realmente se sentem em relação a um projeto, indo além do óbvio. Pratique o exercício de reconhecer que você nunca vai se conhecer totalmente; aceite que sempre haverá uma parte sua que é "estrangeira".
Na sua próxima discussão nas redes sociais, tente não reagir com o fígado. Pergunte-se se você está defendendo uma ideia ou apenas alimentando a "cola" do ódio.
Para ser antirracista hoje, procure ler um autor negro ou apoiar um negócio liderado por pessoas negras, reconhecendo o seu papel na mudança da estrutura. A felicidade ordinária não é um destino onde você chega e descansa, mas um jeito de caminhar que valoriza a conexão real, o respeito à diferença e a coragem de ser quem você é, com todos os seus defeitos.
A felicidade ordinária não é um prêmio de consolação, mas a conquista de quem parou de lutar contra a realidade e decidiu viver com o que tem em mãos. Vera Iaconelli nos lembra que o luto é o motor que nos permite investir o desejo na vida novamente após cada perda inevitável.
Ao longo destas crônicas, aprendemos que a parentalidade exige aceitar a nossa imperfeição, que o corpo é o nosso primeiro território de fala e que a convivência social demanda um compromisso ético com a verdade histórica e com o outro.
No final das contas, o papel da psicanálise é nos devolver a responsabilidade pela nossa própria vida. Diante do autoritarismo e do desamparo, a saída é sempre o diálogo, a arte e a capacidade de suportar o sofrimento ordinário para que possamos, finalmente, desfrutar das alegrias passageiras que realmente dão sentido à nossa existência.
Para complementar essa visão de que a vida não precisa ser perfeita para ser boa, recomendamos o microbook "A Sutil Arte de Ligar o F*da-se", de Mark Manson. Embora tenha um estilo mais direto e menos acadêmico, ele conversa muito bem com a ideia de Vera Iaconelli ao sugerir que a chave para uma vida melhor não é ter mais coisas ou ser mais feliz, mas sim escolher melhor pelo que vale a pena sofrer. Confira no 12min!
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