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ISBN: 9781909715257
Editora: ARENA SPORT
Imagine receber as chaves do time mais vitorioso do planeta, o que acabou de levantar Bundesliga, Copa da Alemanha e Liga dos Campeões no mesmo ano, e na primeira reunião dizer aos craques: esqueçam tudo o que vocês fizeram. A partir de amanhã, vamos jogar um esporte diferente.
Foi exatamente o que Josep Guardiola fez em julho de 2013, quando desembarcou em Munique para suceder Jupp Heynckes no Bayern. Ele não chegou para repetir uma fórmula vencedora. Chegou para destruí-la e reconstruí-la em alemão, idioma que ele se obrigou a falar já na entrevista de apresentação.
Este microbook te leva para dentro daquele ano sabático bávaro narrado pelo jornalista Martí Perarnau, único observador autorizado a circular pelos vestiários, treinos e jantares de Pep. Você vai ver como nasce o jogo posicional num corpo treinado para correr na floresta, como se domam egos de jogadores que já ganharam tudo, e como o próprio Guardiola, no momento mais alto, trai as próprias ideias e mergulha no fiasco mais doloroso de sua carreira.
Antes de Munique, houve um jantar em Nova York. Pep encontrou Garry Kasparov, e o campeão de xadrez explicou, sem rodeios, por que não enfrentaria mais Magnus Carlsen: a exaustão mental tinha vencido. Naquela noite, Guardiola entendeu o próprio colapso no Barcelona. Não tinha sido birra, nem ego ferido. Tinha sido cérebro fundido. A "regra dos 32 minutos" que ele admitia ter, o tempo máximo que conseguia pensar em qualquer coisa antes de voltar ao futebol, era o sintoma.
A ruptura com o presidente Sandro Rosell estava cravada como ferida aberta. Quando o Bayern o apresentou falando alemão, a mensagem era dupla: respeito ao novo lar e distância dos 6 mil quilômetros que ele tinha colocado entre si e o Camp Nou. Paul Breitner resumiu o desafio: o Bayern já havia vivido a posse rígida de Van Gaal e a velocidade de Heynckes; Pep seria a terceira fase, a vanguarda europeia dos próximos cinco anos.
No bolso, Manel Estiarte, ex-craque do polo aquático, virou termômetro emocional, amigo e tradutor de humores. Sem ele, a travessia teria rachado. Meses depois, quando o Bayern enfim contratou Thiago Alcántara sob pressão de Pep, o técnico explodiu publicamente contra a diretoria do Barça. Foi um desabafo represado havia meses.
O preparador físico Lorenzo Buenaventura entrou no vestiário e cancelou a tradição alemã da corrida longa. Adeus floresta, adeus quilômetros na chuva. Bem-vindos microciclos com bola, rondos curtos, exercícios técnicos de altíssima intensidade. Os jogadores estranharam: era treino ou recreio?
Em Trentino, nos treinos secretos da pré-temporada, Guardiola martelou uma regra inegociável: quatro segundos para recuperar a bola após a perda. Nada de perseguir o adversário pelo campo todo. Era pressão imediata, coletiva, calibrada. Ele apresentou aos jogadores os três pilares que repetiria à exaustão: a Ideia, dominar a bola; a Linguagem, o método de treino; as Pessoas, a crença cega no projeto.
Javi Martínez, acostumado à marcação individual estilo Bielsa, foi recapacitado para atuar como zagueiro central no sistema de zona. Pep gritava na chuva: "Javi, olha o Dante, olha a linha!". Repetição até virar reflexo. Guardiola, sem cerimônia, se declarava ladrão de ideias, roubando de Cruyff, Sacchi, Lillo, Bielsa, das lendas do passado, qualquer coisa que abrisse espaço novo. Correr sem critério, ele alertava, era falso esforço.
Num jantar, alguém elogiou o tiquitaca do Barcelona. Pep cortou seco: "Eu odeio o tiquitaca, é uma merda". A frase chocou. Para ele, troca de passes sem intenção, especialmente o famoso passe em forma de U na linha defensiva, era pecado. Posse de bola só serve para uma coisa: atrair o adversário para um lado do campo e matar a jogada no outro.
Sem Messi, o Bayern precisava de outra arma. Pep desenhou então o time para isolar Arjen Robben e Franck Ribéry no um contra um. O meio-campo virou isca: enche de gente o centro, atrai marcadores, libera os flancos. Foi nesse contexto que ele explodiu no vestiário, gritando "Pam! Pam!" para exigir velocidade e infiltração viscerais no terço final.
Para tornar a ideia visível, ele mandou pintar linhas brancas no campo de treino, dividindo o gramado em cinco corredores verticais. Lateral e ponta jamais no mesmo corredor. A regra era física, geométrica, inegociável. Era assim que Ribéry e Robben encontrariam espaço, longe da zona congestionada do meio.
Bastaram alguns amistosos para Pep deslumbrar com Lahm. O lateral lia o jogo como Iniesta, ele dizia. Quando a crise de lesões varreu o meio-campo, com Thiago, Schweinsteiger, Götze e Martínez machucados, Pep teve sua intuição definitiva: deslocou o capitão para volante. Lahm assumiu a sala de comando. Equilibrou posse, protegeu o território, garantiu a saída de bola recuada à moda de La Volpiana, com o volante caindo entre os zagueiros.
Por trás disso, havia uma máquina de análise. Carles Planchart, o analista de Pep, decupava cada adversário em vídeo, prevendo bolas paradas e rotas de ataque. Antes de cada jogo, Guardiola dava três preleções rígidas de 15 minutos cada, fatiadas, intercalando o frio tático e o calor emocional. Era preparação cirúrgica.
Mas havia também um mapa do tesouro mental. Pep entendeu que nem todo jogador suporta a mesma carga de informação. Para Ribéry, instruções diretas, viscerais. Para Lahm, partituras inteiras. Filtrar dados sem fundir o cérebro do craque virou parte do ofício. E Lahm, no auge da liga, era a extensão cerebral do técnico em campo.
A regra dos 15 passes iniciais nunca foi estética. Era estrutura: enquanto o time tocava, o bloco subia junto, evitando o vácuo que os contra-ataques alemães adoravam. Quando o ritmo da Bundesliga ainda parecia lento, Pep cortou a paciência horizontal. Inventou um 3-4-2-1 com os laterais jogando por dentro, e estreou o sistema demolidor contra o CSKA Moscou.
Veio então a noite que cravou a doutrina. Contra o Manchester City, na Liga dos Campeões, o Bayern jogou 80 minutos do que Pep depois chamou do melhor futebol que vira na vida. Vitória por 3 a 1, na Inglaterra, com um rondo monumental no meio do jogo: 94 passes consecutivos, quase quatro minutos de tortura psicológica para os ingleses.
Na visita ao Dortmund de Klopp na Bundesliga, Pep dobrou a aposta na densidade central. Botou Götze e Thiago juntos no meio, povoou a zona cerebral, e estraçalhou a retranca em 3 a 0. Em seis meses na Alemanha, ele já tinha testado mais invenções do que em quatro anos de Barcelona.
O começo, porém, doeu. Na Supercopa da Alemanha, o Borussia de Klopp meteu 4 a 2 com transições letais. Pep viu na carne que seu sistema estava vulnerável aos contra-ataques alemães. Mandžukić resistia às novas táticas. Müller não cabia no papel de meia construtor. O preço do paradigma novo aparecia em forma de atrito.
Em meio à tragédia familiar de Højbjerg, que perdeu o pai, o grupo se uniu emocionalmente. Na Supercopa da Europa contra o Chelsea de Mourinho, antes dos pênaltis, Pep não falou de tática. Apontou para Manel Estiarte e disse: "Rapazes, eu nunca bati um pênalti na vida. Mas aqui está o melhor batedor do mundo". A lenda do polo aquático tirou peso do elenco. O Bayern venceu.
Uli Hoeness, o presidente, era o porto seguro, o coração do clube, espaço onde Pep podia errar em paz. Já o diretor Matthias Sammer adotava outro método: criticar a equipe pela imprensa para evitar relaxamento. Pep aprendeu rápido: na Alemanha, fúria pública não é traição, é gestão. E mandou instalar cortinas anti-espiões no CT para proteger os ensaios.
O Mundial de Clubes no Marrocos coroou 2013 com o quinto troféu do ano. Pep usou variações que beiraram um 3-7-0, abraçou rotações agressivas e cravou em definitivo a sua doutrina sobre os escombros do trabalho passado. Quando Buenaventura ajustou cargas, o time emendou uma sequência brutal que chegaria a 53 vitórias.
A obsessão técnica de Pep não conhecia limite. Ele controlava dieta, monitorava a janela metabólica de nutrição pós-jogo para acelerar recuperação e blindar contra lesões. Cada detalhe era munição. Em fevereiro, o time virou sinfonia: tabelas em bloco aprisionavam adversários em seu próprio campo, vitórias esmagadoras se acumulavam. Thiago, em surdina, confessou exaustão mental. O líder mastigava o erro mínimo mesmo nas goleadas.
Então caiu a bomba: Uli Hoeness foi condenado por fraude fiscal e levado à prisão. Pep, abalado, prestou tributo público. O título da Bundesliga foi conquistado em março, o mais precoce da história, em Berlim, com banho de cerveja voador em Guardiola. No fundo, ele já temia: vitória cedo demais costuma cobrar caro depois.
Pep nunca se sentiu o melhor do mundo. O medo do fracasso, ele admitia, era o motor. Depois do título, o motor desacelerou. Thiago rompeu os ligamentos do joelho num lance brutal, perdeu temporada e Copa do Mundo. O elenco relaxou nas corridas, acreditando que a posse bastaria.
Contra o Manchester United de Moyes, o Bayern enfrentou ônibus estacionado. Volume gigantesco de passes, agressividade pequena. Pep insistiu na defesa por zona em escanteios como pilar inegociável, e sofreu gol de Vidic em bola parada justamente por isso. Mas inventou um 2-3-3-2 ousado no jogo de volta, com cinco meios criativos nas costas do adversário, e virou o jogo. Era resiliência tática nascida da repetição.
Aí veio o Real Madrid. No Bernabéu, 1 a 0 com 80% de posse estéril e contra-ataques cirúrgicos espanhóis. Em Munique, Pep cometeu o erro capital: cedeu à pressão emocional dos jogadores e abandonou os três zagueiros por um 4-2-4 passional. Sem superioridade no meio, o time foi destruído por 4 a 0 no Allianz. Rummenigge bancou a filosofia em público. Pep fez seu mea culpa solitário no vestiário: nunca mais trairia os próprios princípios para ser politicamente correto.
Sobrou uma final para reconstruir o orgulho: a Copa da Alemanha contra o Dortmund de Klopp. Pep leu o adversário com Planchart, viu que o Borussia havia trocado cruzamentos por penetração central rápida, e desenhou em segredo um 3-6-1 ousado. A ideia era bloquear o miolo, sufocar as transições rasteiras.
Em campo, o Bayern esperou no próprio terço, controlou silenciosamente o meio, e venceu por 2 a 0 na prorrogação, com sacrifício físico extremo. Robben, transformado pelo melhor condicionamento da carreira, virou operário letal, amarrando quatro defensores sozinho. Javi Martínez, na zaga, era reflexo puro.
No vestiário, depois da Dobradinha, Højbjerg falava da coragem visceral que tinha aprendido com Pep. Lahm resumia o orgulho do grupo. O veneno posicional, mesmo manchado pela queda na Champions, germinava na alma do time.
Pep terminou o ano com 44 vitórias em 56 jogos e quatro títulos, e mesmo assim sem descanso. A lição que sobra é desconfortável: liderar no topo é dissecar a própria soberba todo dia. Não basta o quadro tático. É preciso recusar o aplauso fácil, encarar o abismo do fracasso e voltar a pregar a mesma doutrina com a alma em pedaços.
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Martí Perarnau é jornalista catalão e ex-atleta que competiu no salto em altura nos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. Sua transição para o jornalismo esportivo culminou em um acesso inédito ao cotidiano de Pep Guardiola, sua comissão técnica e jogadores do Bayern de Muni... (Leia mais)
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