Incêndios colocam cidades do Amazonas em emergência - Resenha crítica - 12min Originals
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Incêndios colocam cidades do Amazonas em emergência - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Queimada é fogo colocado de propósito, em geral para limpar terreno ou renovar pastagem. Incêndio florestal é o que acontece quando esse fogo escapa do controle e entra na mata. Em anos de seca forte, a diferença entre uma coisa e outra some: a vegetação está ressecada, o fogo não para onde deveria parar, e a fumaça sobe. Ela não fica onde o fogo está. Viaja centenas de quilômetros, se acumula sobre as cidades e vira um problema de respiração, de escola fechada e de voo cancelado para quem nunca chegou perto de uma chama.

É isso que está acontecendo no Amazonas. O estado vive uma crise de queimadas que, em outubro, colocou mais da metade de seus municípios em situação de emergência e deixou Manaus com a pior qualidade do ar do país por dias seguidos.

O que significa "emergência reconhecida"

No sábado, 10 de outubro, o governador Roberto Cidade (União Brasil) assinou decreto de situação de emergência em 36 dos 62 municípios do Amazonas, do entorno da capital ao sul do estado. Poucas horas depois, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional publicou o reconhecimento federal no Diário Oficial da União, em caráter sumário.

Esse reconhecimento não é formalidade. Segundo o ministério, é a etapa necessária para liberar recursos de qualquer órgão federal, e a União só pode atuar diretamente nos municípios depois que o próprio estado decreta a emergência. É a porta que se abre para repasse de dinheiro, envio de equipes e assistência humanitária à população atingida.

O tamanho da crise aparece nos dados do Painel do Fogo, do Censipam, centro de monitoramento ligado ao Ministério da Defesa. Nos dez primeiros dias de outubro, o Amazonas registrou 1.380 focos de incêndio, contra 372 no mesmo período do ano passado, alta de 271%. A maior parte, 1.186, em áreas públicas. Houve ainda 246 focos em assentamentos federais, 116 em terras indígenas e 97 em unidades de conservação. Quatro cidades amazonenses aparecem entre as vinte com mais queimadas do Brasil no mês: Lábrea, Boca do Acre, Autazes e Itacoatiara.

Outro recorte dá a dimensão em área queimada. Segundo o Sistema Alarmes, do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ, nos primeiros nove dias do mês a área queimada no estado somou 122.794 hectares, 97,3% acima da média histórica para outubro inteiro.

A força-tarefa em campo

Na quinta-feira, 9 de outubro, o Ministério do Meio Ambiente anunciou o envio de seis aeronaves e 290 brigadistas. Os primeiros helicópteros e aviões Air Tractor, modelo usado para lançar água sobre o fogo, chegaram a Manaus no dia seguinte. No domingo à noite pousaram na Base Aérea de Manaus dois cargueiros KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira, vindos das bases de Anápolis e do Galeão.

Um deles transportou materiais de apoio; o outro foi empregado no combate direto, com o Sistema Modular Aerotransportado de Combate a Incêndios, conhecido pela sigla em inglês MAFFS. É um tubo que projeta água pela porta traseira esquerda do avião e descarrega cerca de 12 mil litros por saída, com ou sem retardante. A primeira missão ocorreu na manhã de segunda-feira, 12, e a FAB previu em média três decolagens diárias, de cerca de duas horas cada. Os voos exigem baixa altitude, baixa velocidade e temperaturas elevadas.

No total, a operação federal reúne onze aeronaves e 290 brigadistas do Ibama, do ICMBio e da Força Nacional. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou que o combate intensivo começou quando a visibilidade permitiu: "sempre que o tempo permitir, que houver teto para os voos, nós faremos os voos necessários". As aeronaves devem ficar na região até os focos serem apagados.

São Paulo também enviou reforço. A força-tarefa paulista embarcou com bombeiros e integrantes da Defesa Civil, drones, cisternas, geradores e 11 mil litros de retardante, e iniciou o reconhecimento das áreas atingidas na segunda-feira.

Focos no meio da floresta preservada

No domingo, 11, os ministros Capobianco e Waldez Góes, da Integração, sobrevoaram as áreas atingidas. A decolagem atrasou porque a fumaça sobre Manaus reduziu a visibilidade e o teto operacional.

Ao voltar, Capobianco classificou o cenário como "mais grave do que eu imaginava" e descreveu o que viu: "identificamos muitos focos de incêndio no meio da floresta preservada. Não se trata apenas daquele fogo que foi colocado na pastagem e adentrou a floresta". Segundo ele, focos isolados em áreas de difícil acesso indicam ação humana intencional para degradar o bioma e preparar terreno para desmatamento futuro. O ministro defendeu a atuação conjunta de polícias, bombeiros e agentes federais: "é fundamental que esses indivíduos que estão agindo criminosamente vejam que serão punidos".

A Polícia Civil do Amazonas informou, por meio da Delegacia Especializada em Meio Ambiente e Urbanismo, que investiga possíveis crimes ambientais. Só em setembro foram registrados 69 boletins de ocorrência sobre o tema.

A divergência sobre quem pediu e quem recusou ajuda

A chegada do reforço veio junto com um embate público. Na sexta-feira, 9, o comandante do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, coronel Orleilso Muniz, afirmou em entrevista ao Jornal do Amazonas, da Rede Amazônica, que um pedido de apoio havia sido negado: "nós já tivemos um retorno negativo, de que não seria possível apoiar". Documentos enviados pela corporação ao g1 mostram solicitação feita ao Ministério da Justiça em 18 de setembro, incluindo quatro aeronaves de combate ao fogo, e resposta de 1º de outubro informando que a Secretaria Nacional de Segurança Pública não dispunha dos equipamentos para doação, com indicação de alternativas para obter recursos federais.

O Ministério do Meio Ambiente apresentou outra versão. Segundo a pasta, em 23 de setembro o centro de coordenação federal recebeu pedido do governo estadual e acionou combatentes e uma aeronave; em 30 de setembro, após chuvas ajudarem a controlar focos, o estado comunicou que não precisava mais do apoio, e a equipe foi dispensada antes de ir a campo. O ministério afirmou ainda ter orientado o estado a pedir recursos pelo sistema nacional de proteção e defesa civil, o que, até então, não havia sido formalizado. Waldez Góes sustentou em coletiva que a atuação direta da União dependia do decreto estadual, reconhecido no mesmo dia em que foi assinado.

O governo estadual, por sua vez, afirma ter ampliado a presença dos bombeiros de 11 para 25 municípios com base entre 2025 e 2026, elevado o efetivo e contratado brigadistas florestais, além de ter enviado 33 ofícios a ministérios federais entre abril e julho de 2026 pedindo apoio institucional. O governo federal, de seu lado, informa ter disponibilizado desde 2024 R$ 45 milhões pelo projeto ProAmazon para equipar o Corpo de Bombeiros, dos quais R$ 34,7 milhões já foram recebidos pelo estado.

A fumaça na rotina de Manaus

Para quem mora na capital, a crise chega pelo ar. Pelo quinto dia consecutivo, Manaus registrou índices críticos de poluição. O Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental, da Universidade do Estado do Amazonas, considera boa a qualidade do ar até 25 microgramas de material particulado por metro cúbico. No bairro Armando Mendes, o monitoramento marcou 218,2, classificação "péssima". Na terça-feira, 13, a cidade seguia com a pior qualidade do ar do Brasil mesmo após chuva na madrugada.

As aulas foram suspensas nas redes municipal, estadual e federal em Manaus, e também em escolas estaduais de Autazes e do distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba. A prefeitura cancelou eventos públicos ao ar livre e está em estado de atenção desde 24 de setembro. A federação de futebol do estado interrompeu competições de base por risco à saúde de atletas e arbitragem. Moradores relatam irritação na garganta, congestão nasal, dores de cabeça e dificuldade para dormir. O Ministério da Saúde enviou equipes da Força Nacional do SUS para reforçar atendimentos.

O que fazer com essa informação

Três sinais concretos dizem se a operação está contendo a crise ou apenas respondendo a ela, e todos são públicos. O primeiro é o número de focos ativos: o Painel do Fogo apontou mais de 1.500 incêndios ativos desde 1º de outubro, e é essa curva que mostra se aeronaves, brigadistas e eventuais chuvas estão fazendo diferença. O segundo é a investigação da Polícia Civil sobre incêndios em áreas preservadas: boletim de ocorrência registrado não é responsabilização, e vale acompanhar se a apuração avança. O terceiro é o índice de qualidade do ar medido pela universidade estadual, que já serve hoje para decidir se vale sair de casa com máscara, se a criança vai à escola e se a atividade ao ar livre pode esperar.

Vale também separar duas coisas que a cobertura mistura: a disputa sobre quem pediu e quem recusou apoio é uma questão de responsabilidade institucional, e segue em aberto com versões documentadas dos dois lados. Ela não altera o que está sendo queimado nem o que se respira.

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