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Editora: 12min
O IPCA é o índice oficial de inflação do país. Calculado pelo IBGE, ele mede a variação de preços de uma cesta de consumo típica de famílias com renda de um a quarenta salários mínimos. Antes de fechar o número de cada mês, o instituto divulga o IPCA-15, a chamada prévia: mesma metodologia, mudando o período de coleta e a abrangência geográfica. É o primeiro sinal de para onde os preços estão indo.
Esse número é comparado a uma meta. O Banco Central persegue inflação de 3% ao ano, com tolerância de um ponto e meio para cima ou para baixo, o que coloca o teto em 4,5%. Desde 2025 a meta é contínua: ela é apurada pelo índice acumulado em doze meses, e considera-se que o alvo foi perdido quando a inflação fica fora do intervalo por seis meses seguidos. Isso já aconteceu uma vez. Em julho do ano passado, o Banco Central publicou carta aberta ao então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, depois de o IPCA fechar junho acima do teto pelo sexto mês consecutivo.
É nesse contexto que entra a prévia de setembro.
O índice subiu 0,70% no mês, depois de ter caído 0,40% em agosto. É a maior taxa para um mês de setembro desde 2021 e o avanço mensal mais forte desde abril, segundo o IBGE. O resultado superou todas as projeções de analistas coletadas pelo Valor Data e pelo Projeções Broadcast, cujas medianas estavam pouco acima de meio ponto percentual. Em doze meses, a prévia acumula 4,47%, contra 4,24% até agosto.
Todos os nove grupos pesquisados tiveram alta. Habitação registrou a maior variação e o maior impacto, seguida por despesas pessoais e transportes. Alimentação e bebidas voltou ao terreno positivo depois de dois meses de queda, com aumentos de tomate, arroz e carnes, e recuos de feijão carioca, cebola e café moído. A alta também se espalhou entre os itens: o índice de difusão, que mede a proporção de bens e serviços com preço em alta, subiu de agosto para setembro, segundo cálculos do Valor Data.
A energia elétrica residencial subiu 7,42% e foi o maior impacto individual do mês, depois de ter caído em agosto. Os dois movimentos têm a mesma origem: o bônus de Itaipu, um crédito que devolve aos consumidores valores apurados na conta de comercialização de energia da usina binacional. A Aneel aprovou a distribuição de 872 milhões de reais em descontos nas faturas emitidas em agosto. Em setembro esse desconto saiu da conta de luz, e o preço voltou ao patamar anterior. A bandeira tarifária amarela seguiu em vigor.
O segundo maior impacto individual veio do cigarro, que subiu 14% por causa de um reajuste em vigor desde o primeiro dia de agosto. O governo elevou a alíquota do IPI sobre o produto para compensar a perda de arrecadação com a isenção de tributos sobre o biodiesel e o querosene de aviação, parte de um pacote para conter os efeitos da alta dos combustíveis depois da guerra no Oriente Médio. Em transportes, a pressão veio das passagens aéreas, quase 10% mais caras.
Para Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, a reaceleração reflete tanto a "devolução pontual de itens voláteis e administrados", como energia e passagens aéreas, quanto uma dinâmica ainda pressionada, evidenciada pela alta da média dos núcleos e pelo patamar elevado dos serviços acumulados em doze meses.
Um dia antes da prévia, o Banco Central publicou seu Relatório de Política Monetária e elevou de 79% para 90% a probabilidade de a inflação ficar acima do teto da meta neste ano. A chance de ficar abaixo do piso segue nula, e a probabilidade de estouro no ano que vem também foi revista para cima. No mesmo documento, a autoridade monetária alertou que persistem riscos relevantes de repasse da alta internacional do petróleo aos preços ao consumidor no curto prazo.
O mesmo relatório trouxe a outra metade do quadro. O Banco Central reduziu de 2,0% para 1,8% a projeção de crescimento da economia neste ano e divulgou pela primeira vez a estimativa para o ano que vem, de 1,4%. A revisão veio depois de um segundo trimestre em que os setores mais sensíveis ao ciclo econômico, como indústria e serviços, e o consumo das famílias surpreenderam para baixo. O Ministério da Fazenda cortou sua projeção dias antes, para um cenário ainda um pouco mais otimista que o do Banco Central.
A Selic está em 13,75% ao ano, depois do quinto corte seguido. Na última reunião, o Copom deixou os próximos passos em aberto, afirmando que o cenário de incerteza exige serenidade e cautela, e defendeu juros em nível restritivo diante da pressão de demanda. A Fazenda registrou ainda que o comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida atingiu o maior nível da série histórica no segundo trimestre, o que limita a conversão do aumento de renda em consumo.
Os economistas se dividiram. Adriano Valladão, do Santander, avaliou que a surpresa está explicada em itens mais voláteis, como passagem aérea, gasolina, alimentação no domicílio e transporte por aplicativo, e que não deveria mudar a leitura do Banco Central. Ele projeta inflação de 5% neste ano. André Braz, coordenador dos índices de preços do FGV-Ibre, disse que o número não acende luz vermelha e espera mais um corte de juros em novembro, ainda que considere improvável o cumprimento da meta com o El Niño no caminho.
Do outro lado, Júlio Barros, do Daycoval, afirmou em comunicado que o resultado é desafiador para o Banco Central, porque eventos temporários que antes puxavam a inflação para baixo passaram a empurrar para cima, com o núcleo em patamar alto. Gabriel Pestana, da Genial Investimentos, escreveu em relatório que a combinação de serviços mais fortes, núcleos acima do esperado e riscos em alimentos e gasolina sinaliza inflação pior no fim do ano. "Se esses sinais persistirem, o Banco Central terá mais motivos para esperar antes de cortar novamente", disse. Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, viu um resultado menos confortável para a autoridade monetária: além do fim do bônus de Itaipu, a média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central acelerou de 0,23% para 0,34%.
A prévia saiu a poucos dias do primeiro turno da eleição presidencial, marcado para 4 de outubro, com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados nas pesquisas mais recentes. O preço da carne virou símbolo desse debate em 2022, quando Lula disse, em entrevista ao Jornal Nacional, que o povo teria de "voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha". Agora o senador Flávio Bolsonaro usa o nível dos preços da comida para desgastar o adversário, e chegou a erguer uma peça de picanha em agenda em São Paulo.
Dados do IPCA compilados pelo economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, a pedido da Folha, mostram que a picanha subiu 7,8% de janeiro de 2023 a agosto deste ano. No governo Bolsonaro, a alta acumulada foi de 38% entre janeiro de 2020, quando o corte entrou no cálculo do índice, e o fim do mandato. Para Romão, o que prepondera são questões de oferta, e não decisões de governo: o abate de bovinos vem crescendo e bateu recorde da série histórica no ano passado. Ainda assim, ele observa que parte da população sente mal-estar com o nível dos preços, porque a variação menor incidiu sobre um patamar que já pesava no orçamento das famílias.
O próximo marco é 9 de outubro, quando o IBGE divulga o IPCA fechado de setembro, depois do primeiro turno e antes do segundo, marcado para 25 de outubro. Ao ler o número, vale olhar menos para o total e mais para a composição. Se a alta continuar concentrada em energia, passagem aérea e cigarro, o argumento do choque temporário se sustenta. Se aparecer em serviços e na média dos núcleos, que o Banco Central acompanha justamente para separar ruído de tendência, o caso muda. Foi exatamente aí que os economistas se dividiram. A comunicação do próximo Copom é o outro sinal a acompanhar, porque é nela que o colegiado dirá se o ciclo de cortes continua ou trava.
Isso não é assunto só de mercado. A Selic define o custo do crédito, do financiamento e do cartão, e a Fazenda já apontou que o peso das dívidas no orçamento das famílias está no maior nível da série histórica. Juro parado por mais tempo significa crédito caro por mais tempo, consumo mais contido e uma economia crescendo menos do que se projetava no começo do ano. Para quem vota, é o pano de fundo do debate entre os dois turnos: conta de luz, comida e juros são justamente os itens que aparecem nos palanques.
Há ainda uma variável que atravessa tudo. Banco Central, Fazenda e economistas citam o El Niño como risco para a safra e para os preços dos alimentos a partir do fim deste ano, o que pode prolongar a pressão para além do susto de setembro.
Na sua conta do mês, quanto do aperto veio de coisas que vão sair da fatura, como o fim de um bônus na energia, e quanto veio de preços que não voltam atrás?
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