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Investigação aponta plano suicida em voo da FlyDubai - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Em um avião comercial, as duas pessoas que ficam na cabine de comando, o comandante e o copiloto, trabalham atrás de uma porta de segurança que separa esse espaço do resto da aeronave. Foi dentro dessa cabine que, em 30 de setembro, o copiloto de um voo da FlyDubai que ia de Dubai a Tel Aviv atacou o próprio comandante com o machado de emergência da aeronave.

Isso alcança qualquer pessoa que embarca em um avião por um motivo simples: a triagem de quem senta nos controles é feita pelas companhias aéreas e pelos reguladores de cada país, e é exatamente esse processo que o caso pôs em questão. Nesta sexta-feira (9), o procurador-geral dos Emirados Árabes Unidos, Hamad Saif Al Shamsi, divulgou as conclusões preliminares da investigação pela agência estatal WAM: segundo ele, não houve surto nem impulso, mas um plano premeditado, inspirado nos atentados de 11 de setembro de 2001, para lançar o avião contra o terminal de passageiros do aeroporto Ben Gurion, perto de Tel Aviv.

O que aconteceu no voo FZ1073

O voo FZ1073 partiu de Dubai às 7h05 do dia 30 de setembro e subiu a 34 mil pés, de acordo com dados do site de monitoramento Flightradar24 citados pela Al Jazeera. Pouco mais de duas horas depois, a aeronave despencou mais de 17 mil pés em cerca de dois minutos. Havia 174 pessoas a bordo, 166 delas israelenses, segundo o jornal O Globo.

A queda brusca começou depois que o copiloto atacou o comandante indiano Smit Machchhar com o machado de emergência da cabine. Ferido, Machchhar conseguiu abrir a porta da cabine de comando. Outro piloto que estava a bordo e seria escalado para o voo de volta percebeu a porta se abrindo e fechando de forma incomum e entrou com uma comissária e vários passageiros, que resgataram o comandante e imobilizaram o suspeito, segundo as conclusões divulgadas pelos Emirados.

Um passageiro relatou ao Fantástico que o agressor chegou a ser amarrado com o cabo de um fone de ouvido até que aparecesse outra forma de contê-lo. O transponder, equipamento que identifica o avião para o controle de tráfego aéreo, foi acionado no código 7500, que sinaliza interferência ilícita. Dois pilotos de reserva que viajavam no voo assumiram os controles e pousaram em Tabuk, no noroeste da Arábia Saudita, às 9h45 no horário local. Os passageiros seguiram depois para Israel em outra aeronave, e apenas uma pessoa precisou ser levada ao hospital, segundo o Fantástico. As autoridades sauditas informaram que os dois pilotos foram hospitalizados e depois transferidos para Abu Dhabi.

Na quinta-feira (8), o presidente de Israel, Isaac Herzog, entregou o Prêmio Presidencial de Heroísmo Civil a cinco passageiros que ajudaram a conter o agressor.

O que a investigação dos Emirados concluiu

Segundo o procurador-geral, o suspeito, identificado por agências de notícias como Hamam al-Hammami, omanense de 29 anos, confessou, na presença de seu advogado, um "plano premeditado com fins terroristas" para assumir o controle do avião e usá-lo em um ataque suicida contra o terminal de passageiros do Ben Gurion, "com o objetivo de causar o maior número possível de vítimas".

Ele teria dito aos investigadores que os atentados de 11 de setembro de 2001, nos quais cerca de 3 mil pessoas morreram, influenciaram sua decisão de seguir carreira na aviação. A investigação também apontou que o voo de 30 de setembro era o terceiro dele para Tel Aviv: nos dois anteriores, segundo a procuradoria, ele teria se familiarizado com a rota e com o aeroporto como preparação para o ataque.

O comunicado afirma ainda que ele se preparou "psicológica e fisicamente", ampliando o contato com material que incitava ao terrorismo e treinando boxe com um instrutor particular. Al Shamsi disse que o suspeito "admitiu ter agido sozinho, sem o envolvimento de outras pessoas, embora as investigações prossigam para verificar essa afirmação". Fontes citadas pela imprensa israelense também avaliaram que ele provavelmente agiu sem ligação com uma organização radical ou com um governo estrangeiro.

Como ele passou pela triagem apesar dos sinais anteriores

A procuradoria examinou a contratação pela FlyDubai e concluiu que o copiloto cumpria os requisitos profissionais e de segurança exigidos: licença de piloto, certificado de bons antecedentes e aprovação nos exames. "Nenhum dos procedimentos revelou indícios de suas opiniões extremistas nem de sua intenção de executar um plano terrorista", afirmou Al Shamsi.

O histórico, porém, já tinha sinais conhecidos por outra empresa. Autoridades da região disseram à BBC que ele havia sido impedido de voar pela Oman Air, companhia nacional de Omã, e transferido para uma função administrativa por causa de suas posições extremistas. Uma fonte afirmou à CNN que ele foi retirado do treinamento de voo pelo mesmo motivo. Segundo a revista Veja, que cita reportagem do Wall Street Journal, não há confirmação de que as autoridades omanis tenham compartilhado essa informação com outros países ou companhias aéreas.

O percurso profissional, segundo o comunicado dos Emirados, passou pela Oman Air entre 2020 e 2024 e pela Royal Air Maroc em 2025. A companhia marroquina informou à Associated Press que ele participou de um treinamento de três meses naquele ano, como parte de um processo seletivo, mas não foi contratado. Em janeiro de 2026 ele ingressou na FlyDubai. O Guardian acrescenta que ele obteve um diploma de gestão em aviação a distância pela Buckinghamshire New University, no Reino Unido, em 2023.

Há ainda uma norma israelense que o caso expôs: as regras de aviação de Israel proíbem que pilotos de países sem relações diplomáticas formais com o país, como Omã, operem voos para território israelense.

O que Austrália e Nova Zelândia apuram

Segundo o procurador-geral, os primeiros sinais de aproximação com o extremismo surgiram em 2017, quando ele estudava na Austrália, sob influência de literatura extremista e de conteúdo on-line que glorificava organizações terroristas e ataques suicidas. A emissora australiana ABC informou que ele recebeu visto de estudante em 2014 e estudou no país entre 2015 e 2017; a universidade RMIT, de Melbourne, confirmou que ele esteve lá e saiu antes de concluir a graduação em engenharia.

Na Austrália, o Joint Counter Terrorism Team de Victoria, formado pela Polícia Federal Australiana, pela polícia estadual e pela agência de inteligência ASIO, informou que investiga os vínculos dele com o país. A polícia da Nova Zelândia confirmou que ele fez parte do treinamento de voo por lá cerca de um ano depois de abandonar o curso na Austrália, e as autoridades neozelandesas abriram sua própria apuração. O jornal Sydney Morning Herald localizou publicações de uma conta já apagada em que ele chamava os cinco anos de estudo na Austrália, no Reino Unido e na Nova Zelândia de "os anos dourados do meu compromisso religioso".

A procuradoria emiradense mencionou ainda que ele teria tido contato, na Austrália, com uma organização chamada MyCentre, dirigida por um libanês conhecido como Abu Hamza. Nem a entidade nem ele são acusados de crime. Em vídeo publicado nas redes sociais no domingo, Abu Hamza, identificado pela imprensa local como Samir Mohtadi, rejeitou o que chamou de "falsas acusações" e, em comunicado citado pela ABC, afirmou rejeitar qualquer tentativa de associar a si ou ao centro comunitário ao suspeito.

As revisões de segurança que o caso abriu

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, elogiou a atuação do comandante e dos passageiros e ordenou uma análise dos procedimentos de segurança da aviação civil estrangeira com destino a Israel. Nos Estados Unidos, o vice-presidente JD Vance disse na segunda-feira que os procedimentos de segurança de voo também estão sob revisão, segundo a Fox News.

A Arábia Saudita, onde o avião pousou, abriu uma investigação de segurança sobre o episódio, com foco em falhas, de acordo com três fontes ouvidas pela Reuters. Esse tipo de apuração é padrão após acidentes, mas não é obrigatório quando o evento decorre de um ato deliberado. Em paralelo corre a investigação criminal nos Emirados.

O que fazer com essa informação

Três coisas ainda estão em aberto e podem ser acompanhadas sem depender de especulação. A primeira é a verificação da confissão: os Emirados dizem que o suspeito afirmou ter agido sozinho e que seguem analisando provas, gravações e relatórios técnicos para confirmar ou descartar a participação de outras pessoas. A segunda é o que Austrália e Nova Zelândia vão concluir sobre os vínculos dele nos dois países, inclusive sobre afirmações já contestadas publicamente, como a que envolve o centro comunitário de Melbourne.

A terceira é a que mais afeta quem viaja: até agora, foram anunciadas revisões de procedimentos em Israel e nos Estados Unidos e aberta uma investigação de segurança na Arábia Saudita, mas nada indica mudança concreta nas regras de triagem de pilotos nem na forma como companhias e países trocam informações sobre profissionais afastados por suspeita de radicalização. O ponto que a própria procuradoria dos Emirados descreveu é esse: a checagem feita pela FlyDubai cumpriu o que era exigido e, ainda assim, não alcançou o que outra empresa já havia identificado.

Quando você embarca, quem você supõe que tenha verificado o histórico de quem está na cabine: a companhia aérea, o país que emitiu a licença ou o país de destino?

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