KLOPP - Resenha crítica - Raphael Honigstein
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KLOPP - resenha crítica

Biografias & Memórias, translation missing: br.categories_name.modo_copa e Esportes

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978-85-69214-22-9

Editora: Grande Área

Resenha crítica

KLOPP

Imagine o vestiário de um time pequeno, na lanterna da segunda divisão alemã, numa Segunda-Feira de Carnaval. O técnico acabou de ser demitido. A diretoria entra e aponta para um lateral veterano, de pernas pesadas e olhos vivos. "Você assume o time agora." Esse homem nunca treinou ninguém. Mas em poucas horas ele vai pegar um quadro negro, desenhar uma linha de quatro defensores e mudar a vida de cada jogador na sala.

Esse homem é Jürgen Klopp. E o que ele faz a seguir não cabe em manual de tática. Ele olha nos olhos de gente comum e os convence de que juntos podem virar o jogo. Em duas décadas, esse mesmo homem vai tirar o Borussia Dortmund da quase falência, destronar o Bayern de Munique, levar o Liverpool de volta ao topo da Europa e ensinar uma nação inteira a entender futebol pela televisão.

A história que você vai ouvir agora não é sobre talento puro. É sobre paixão, suor e a arte rara de incendiar a alma das pessoas. Sobre como um menino da Floresta Negra virou um dos líderes mais magnéticos do esporte mundial. E sobre o que isso ensina a qualquer um que precise mover um grupo na direção do impossível.

A herança suábia e o peso do pai.

Jürgen Klopp nasceu em 1967 em Glatten, vilarejo encravado na Floresta Negra, região da Suábia. Por lá circula um ditado que define o jeito de viver: "Schaffe, schaffe, Häusle baue". Trabalhe, trabalhe, construa sua casinha. Não se espera por conquistas. Se sua por elas. Foi com essa ética operária que Klopp aprendeu a ver o mundo: nada vem fácil, e está tudo bem.

Mas a maior força que moldou o menino não veio da paisagem. Veio do pai. Norbert Klopp tinha ambições esportivas frustradas, sonhos de glória que nunca virou realidade. Ele projetou cada uma dessas ambições no filho. Cobrava treinos rigorosos de tênis, futebol e esqui. Elogios eram raros. Críticas, muitas. Jürgen aprendeu a ler nas entrelinhas, a achar afeto disfarçado em correção dura. Aprendeu a não desabar diante da exigência.

Norbert morreu em 2000, vítima de câncer no fígado, poucos meses antes de o filho assumir seu primeiro time. Não viu o auge. Não viu nada do que viria. E essa ausência virou combustível silencioso. Cada conquista de Klopp, daquele momento em diante, foi também uma carta endereçada a um pai que não estava mais lá.

As pernas de operário e a cabeça de estrategista.

Klopp gostava de se descrever com humor cortante: pés de sexta divisão e cabeça de Bundesliga. Era jogador modesto, atleta de muita corrida e pouca técnica. Passou anos nas divisões inferiores, em Ergenzingen, Frankfurt, até chegar ao Mainz. Sabia que não ia sustentar carreira só com talento. Então virou outra coisa: estudante obsessivo do jogo.

Cursou ciências do esporte na Universidade Goethe, em Frankfurt. Lia, anotava, analisava. E foi ali, no Mainz, que encontrou o homem que mudaria sua cabeça. Wolfgang Frank chegou ao clube trazendo conceitos importados do Milan de Arrigo Sacchi. Marcação por zona. Linha de quatro defensores. O fim da era do líbero solitário. Frank assistia aos vídeos de Sacchi obsessivamente, anotando cada movimento, cada deslocamento coletivo, cada detalhe de preparação mental.

Para a Alemanha da época, aquilo era heresia. Para Klopp, foi revelação. Ele virou o braço direito tático de Frank, absorvendo tudo. Aprendeu que futebol não é heroísmo individual. É engrenagem coletiva, compactação, ciência aplicada ao caos. Suas pernas limitadas viraram bênção: como não podia confiar nos pés, aprendeu a confiar na cabeça. E essa cabeça começou a desenhar o futuro.

O milagre às margens do rio Reno.

Fevereiro de 2001. Segunda-Feira de Carnaval. O Mainz estava afundando na zona de rebaixamento da segunda divisão. O diretor Christian Heidel demitiu Eckhart Krautzun e tomou uma decisão que parecia loucura: nomeou Klopp, jogador do elenco, como técnico interino. Klopp tinha trinta e três anos e zero experiência.

O que ele fez na primeira semana definiu sua carreira. Reimplementou a linha de quatro de Wolfgang Frank. Olhou os jogadores e disse, em essência: vamos correr juntos, vamos sofrer juntos, vamos acreditar juntos. Venceu o primeiro jogo. Salvou o time do rebaixamento. E começou uma jornada de obstinação coletiva que beirou o sobrenatural. Em 2002 e 2003, o Mainz perdeu o acesso à Bundesliga no último minuto do último jogo, em dois anos seguidos. Tragédias capazes de quebrar qualquer elenco.

Mas a base não se quebrou. Em 2004, na terceira tentativa, subiu. Um time sem estrelas, com orçamento ridículo, derrubou rivais bilionários. Em 2007 veio o rebaixamento, e ninguém foi demitido — a lealdade era a lei do clube. Em 2008, depois de não conseguir subir de volta, Klopp se despediu. Trinta mil torcedores se aglomeraram na Gutenbergplatz para chorar com ele. Algo inédito para um treinador no futebol mundial.

A sala de aula transmitida para milhões.

Em paralelo à carreira de técnico, algo curioso aconteceu em 2006. A rede ZDF convidou Klopp para ser comentarista da Copa do Mundo. Apareceu ali um personagem que a televisão alemã nunca tinha visto. O "Fernseh-Bundestrainer", o treinador da TV, usava uma tela sensível ao toque para destrinchar jogadas, marcar deslocamentos, mostrar erros sistêmicos.

Era pioneiro. Klopp pegava o caos do gramado e traduzia em estrutura, em padrão, em causa e efeito. Sem psicologia de botequim, sem mística do talento cru. Pura didática apaixonada. O grande público entendeu, pela primeira vez, que futebol tem gramática. E que os erros não eram de craques mal-inspirados, mas de sistemas mal-desenhados.

O programa ganhou o prêmio de melhor produção esportiva da televisão alemã. Franz Beckenbauer, ícone máximo do futebol germânico, declarou reverência pública ao trabalho do jovem técnico. Foi um divisor de águas: legitimou Klopp nacionalmente e abriu portas para que treinadores estudiosos, vindos de fora do clube dos ex-craques, pudessem sonhar com os grandes clubes. A dinastia das lendas no banco começou a rachar ali, no estúdio da ZDF.

O estrondo do Gegenpressing.

Em 2008, o Borussia Dortmund era um gigante adormecido. O CEO Hans-Joachim Watzke acabara de tirar o clube da beira da falência. Faltava futebol. Faltava emoção na Muralha Amarela. Watzke chamou Klopp. E Klopp prometeu devolver a alma operária do Ruhr ao gramado do Westfalenstadion.

A receita era brutal. Chamou-se Gegenpressing: recuperar a bola no instante exato em que ela é perdida, sufocando o adversário antes que ele respire. Exigia corrida desumana, sincronia milimétrica, entrega física que beirava o sacrifício. Klopp instaurou um pacto de sete regras e um slogan que virou bandeira: "Corra como se não houvesse amanhã". Apostou em jovens. Promoveu os "Kinderriegel", os garotos Mats Hummels e Neven Subotić, na zaga. Confiou em Mario Götze como gênio criador.

O resultado foi o terremoto. Bicampeonato alemão em 2011 e 2012. E, em 2012, a goleada histórica de 5 a 2 contra o Bayern de Munique na final da Copa da Alemanha, coroando a dobradinha. Uma ideia sólida atropelou orçamentos faraônicos. O futebol alemão nunca mais foi o mesmo.

O limite humano e o discernimento da partida.

Toda revolução cobra preço. Em 2013, o Dortmund perdeu a final da Champions League para o Bayern, e Mario Götze, o talento da geração, foi vendido justamente ao rival. Em 2014, perdeu Robert Lewandowski, também para Munique. O time foi sangrando peças críticas. E os adversários, que antes apanhavam sem entender, agora estudavam o Gegenpressing e se fechavam, esperando, anulando o antídoto.

A temporada 2014-15 foi um pesadelo. Lesões musculares em série. O time caiu para a 17ª posição, zona de rebaixamento. O homem que tinha redesenhado o futebol alemão estava emperrado, vendo seu sistema ser decifrado e devolvido contra ele.

Klopp tomou a decisão mais difícil de sua carreira. Procurou Watzke e pediu para sair. Não exigiu trocar o elenco inteiro. Não culpou ninguém. Entendeu que parte da grandeza de um líder está em saber a hora exata de abrir mão, antes que o desgaste destrua a instituição e a amizade. Saiu pela porta da frente, com Watzke do lado, sem rancor. Sete anos de era de ouro encerrados com a mesma dignidade com que começaram.

A pregação do Normal One em Merseyside.

Em 2014, o Manchester United bateu à porta. Klopp recusou — tinha dado palavra ao Dortmund. Em 2015, com o ciclo encerrado, surgiu o Liverpool. Mas o Fenway Sports Group, dono do clube, não escolheu por carisma. Avaliou Klopp por métricas objetivas, dados, padrões de jogo. O encontro decisivo aconteceu em Nova York, em sigilo. Filosofia bateu com filosofia. Estava selado.

Klopp chegou a Merseyside e se apresentou como "The Normal One", piscando para a vaidade dos colegas. Prometeu futebol "heavy metal" e lançou o projeto que virou hino: transformar a torcida de "céticos em crentes", "doubters to believers". A cidade portuária, orgulhosa, de classe trabalhadora, de simpatia política à esquerda, encontrou nele um espelho. Klopp falava de bem-estar social, de solidariedade, de dignidade do trabalho. Anfield rugiu de novo.

No campo, instalou o Gegenpressing acelerado. Contratou a nutricionista Mona Nemmer e o preparador físico Andreas Kornmayer, refinando ciência aplicada ao corpo dos atletas. Na primeira temporada, levou o time a duas finais europeias. Na sequência, evoluiu o modelo: somou posse de bola para vencer defesas recuadas, somou precisão tática à intensidade caótica. E, ao lado dos fiéis assistentes Željko Buvač e Peter Krawietz, devolveu ao Liverpool a Champions League, o título inglês e a posição de colosso continental que parecia perdida para sempre.

O que fica quando o jogo acaba.

Vitórias estrondosas não nascem de planilhas frias nem de folhas de pagamento generosas. Nascem de vulnerabilidade, honestidade implacável e da arte rara de conectar pessoas comuns por um propósito que arde. Transformar céticos em crentes é a essência. E essa essência cabe em qualquer vestiário, qualquer escritório, qualquer vida.

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Quem escreveu o livro?

Raphael Honigstein é jornalista e escritor alemão radicado em Londres desde 1993. Correspondente de futebol inglês para o Süddeutsche Zeitung, ele também participou do The Athletic UK até 2024 e é presença frequente no BBC Radio 5 Live e no podcast The Totally Footbal... (Leia mais)

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