Maradona - Resenha crítica - Guillem Balague
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Maradona - resenha crítica

Biografias & Memórias

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978-65-88727-30-0

Editora: Editora Grande Área

Resenha crítica

Maradona

Imagine ter quinze anos e ser o único responsável por tirar sua família inteira da favela. Você ainda nem terminou de crescer, mas já carrega no ombro o peso de pais, irmãos e um bairro inteiro que projeta em seus pés a esperança que a vida negou a todo mundo ao redor.

Foi assim que começou Diego Armando Maradona. Não houve infância protegida, nem adolescência tranquila, nem aprendizado gradual da fama. Houve um menino de Villa Fiorito que driblou a pobreza com a mesma naturalidade com que driblou zagueiros adultos, e que pagou pela genialidade um preço que nenhum contrato milionário compraria de volta.

Este microbook percorre a vida do homem que se tornou D10S. Da poeira dos terrenos baldios à apoteose no México em 1986, do beijo envenenado da Camorra ao exílio melancólico, da Mão de Deus ao "cortaram minhas pernas". Você vai entender por que a mesma rebeldia que o fez gênio também o destruiu, e por que a Argentina ainda chora um ídolo cujas falhas eram tão humanas quanto sua magia era divina.

A poeira de Villa Fiorito.

Don Diego, pai do menino, descia todos os dias para a fábrica química Tritumol. Trabalhava em silêncio, voltava em silêncio, e à noite limpava as chuteiras do filho com a mesma devoção muda. Era um homem provavelmente descendente de povos indígenas, vindo de Esquina e Santiago del Estero, que plantou em Villa Fiorito a única coisa que tinha: Limites morais. Sem palavras.

Dentro de casa, Doña Tota era o oposto. Amor asfixiante, idealizado, totalizante. Diego diria a vida toda que sua mãe foi "a primeira mulher da sua vida", e quando ela morreu em 2011 algo nele desabou de forma irreversível. Esse amor sem fronteiras criaria no adulto uma necessidade permanente de ser protegido, mimado, perdoado. Sempre que o mundo apertasse, ele procuraria reconstruir o colo de Tota em outro canto qualquer.

Lá fora, nos potreros, jogava com Goyo Carrizo, o amigo que levaria Diego ao Argentinos Juniors. Goyo se machucou, voltou para a favela e terminou catando lixo. Foi Francis Cornejo quem descobriu o garoto e duvidou da idade pelo tamanho miúdo. Com ele nasceram os Cebollitas, time juvenil que acumulou 136 partidas invictas. Dois meninos da mesma rua, dois destinos opostos: a glória já começava a cobrar a solidão como adiantamento.

A inversão da pirâmide familiar.

Em outubro de 1976, com quinze anos, Diego estreou pelo Argentinos Juniors contra o Talleres de Córdoba. Logo no primeiro toque, atendendo ao pedido do técnico Juan Carlos Montes, aplicou uma caneta no adversário. A torcida riu, o país anotou o nome. Com o primeiro salário, o menino tirou a família da favela. A pirâmide se inverteu: o filho virou provedor, e Don Diego e Doña Tota passaram a depender do garoto que ainda dormia abraçado à bola.

Sob a ditadura militar argentina, o futebol era válvula de escape e ferramenta de propaganda. Maradona aprendeu cedo a controlar a narrativa com a imprensa, negociando contratos antes mesmo de ter idade para dirigir. Em 1979, a revista El Gráfico orquestrou o encontro com Pelé no Rio. O Rei aconselhou: cuide do corpo, cuide do dinheiro, segure as rédeas dos contratos. Diego ouviu com admiração. Cortado por Menotti da Copa de 1978, descontou ganhando o Mundial Sub-20 no Japão, eleito melhor do torneio — e Videla apropriou-se da vitória, obrigando os jogadores a cortar o cabelo para a foto oficial.

Nesse mesmo período, o amigo de infância Jorge Cyterszpiler fundou a Maradona Producciones, a primeira empresa do mundo construída ao redor da imagem de um único jogador. Era pioneirismo puro, mas vinha acompanhado de gastos descontrolados e investimentos sofríveis. Em 1981, contornando o pragmatismo europeu e o assédio do River, Diego foi para o Boca Juniors por empréstimo arriscado — o clube sequer tinha como pagá-lo. Coração da classe operária argentina, ele vestiu a camisa azul e ouro por amor, não por cálculo.

Jorge Cyterszpiler e a primeira ruína.

A Maradona Producciones era uma ideia à frente do tempo, mas mal administrada. Cyterszpiler, amigo desde os terrenos baldios, não tinha experiência para gerir o império que crescia mais rápido do que a contabilidade aguentava. Carros, casas, presentes para meio bairro, investimentos imobiliários fracassados, sócios duvidosos. Cada lesão de Diego derrubava receitas; cada festa elevava despesas. A engrenagem rangia.

No Boca, o título Metropolitano de 1981 veio acompanhado de excursões internacionais exaustivas, organizadas pelo clube apenas para cobrir o salário astronômico do astro. Diego jogava amistosos pelo planeta enquanto a empresa sangrava em Buenos Aires. Em Barcelona, depois da transferência por valor recorde, a estrutura inflou ainda mais — assessoria de imprensa privada, preparador físico exclusivo, um estafe inédito para a época. E os números não fechavam.

A ruptura entre Diego e Jorge não foi briga de uma noite. Foi a erosão lenta de uma amizade infantil esmagada por números que ninguém ali sabia ler. Quando a Maradona Producciones implodiu de vez, Cyterszpiler saiu de cena ferido, e Diego perdeu o último elo financeiro que ainda o ligava ao menino de Villa Fiorito. O próximo gerente da sua vida não viria dos potreros — viria das noites portenhas.

O choque com o pragmatismo europeu.

A Copa de 1982 na Espanha foi um trauma. Argentina ainda sangrando da Guerra das Malvinas, preparação caótica, e em campo a tesoura de Claudio Gentile cortando Diego em cada lance. Sem proteção da arbitragem, esgotado mentalmente, ele foi expulso contra o Brasil após um pontapé de revolta. Saiu chorando.

No Barcelona, era o jogador mais caro do mundo e o mais incompatível com a casa. O presidente Núñez era pragmático e conservador; Diego era passional e noturno. Veio o diagnóstico de hepatite, sombreado por rumores de doença venérea. Veio depois a fratura brutal de tornozelo por Andoni Goikoetxea, do Athletic Bilbao, que quase encerrou a carreira aos 23 anos. E veio a final da Copa do Rei contra o mesmo Athletic, uma batalha campal em campo aberto que decretou o fim da paciência espanhola.

O clã de Pedralbes e a entrada da cocaína.

Para sobreviver a Barcelona, Diego construiu uma muralha humana. A mansão de Pedralbes virou um pedaço de Buenos Aires transplantado: irmãos, primos, amigos de infância morando juntos, churrascos infinitos, festas que varavam a madrugada. Era o "clã Maradona", refúgio defensivo contra um país que não entendia seu jeito de existir.

Claudia Villafañe, namorada desde a adolescência, era a âncora silenciosa nesse caos. Suportava o machismo, suportava as infidelidades, suportava ver o homem que amava se distanciar de si mesmo. Foi em Pedralbes, naquele enclave de excesso disfarçado de aconchego, que a cocaína entrou na vida de Diego. Não como festa pontual, mas como fuga estruturada — da dor das lesões, do amor sufocante dos torcedores, da solidão de ser o jogador mais caro do mundo num clube que não o queria mais.

Em 1984, com a Maradona Producciones em frangalhos e a diretoria catalã aliviada, o estafe negociou a saída ruidosa. Adeus, Barcelona. Olá, Nápoles.

O redentor de Nápoles.

Corrado Ferlaino executou uma jogada burocrática alucinante, fechando o contrato minutos antes do prazo final da janela. Em julho de 1984, mais de 70 mil pessoas lotaram o Stadio San Paolo só para ver Diego pisar no gramado. Nápoles era a cidade marginalizada, ridicularizada pelo norte italiano com faixas que diziam "bem-vindo à Itália" e xingamentos de "terroni". Maradona absorveu essa humilhação coletiva e a transformou em combustível. Passou a ser o vingador de todo o sul pisado.

Foi nesse momento que Guillermo Cóppola substituiu Cyterszpiler. A mudança não foi só de empresário, foi de mundo. Cyterszpiler era o amigo da favela tentando administrar o impossível. Cóppola era a Buenos Aires elegante, das boates, dos relógios de ouro, das mulheres bonitas e do acesso irrestrito ao luxo italiano. Diego e Cóppola formaram uma simbiose perfeita — e perfeitamente destrutiva. Juntos, mergulharam nos contratos milionários, nas noites de Roma e Milão, e na cocaína de pureza inimaginável.

Na seleção, Carlos Bilardo montou um time inteiro para servir um homem só. Esvaziou o poder de Passarella, deu a braçadeira a Diego, transformou pragmatismo tático em ferramenta para libertar a genialidade do camisa 10. O palco do México estava montado.

A consagração do barrilete cósmico.

A concentração argentina no México em 1986 era um manicômio organizado. Superstições, churrascos, rituais coletivos, ameaças de demissão de Bilardo vindas do governo. Passarella adoeceu com uma infecção intestinal crônica e sumiu do grupo. Diego virou líder absoluto, e a equipe construiu uma muralha mental de "nós contra o mundo".

Contra a Inglaterra, o primeiro tempo foi truncado, jogado em altitude e calor, ainda saturado pelo rancor das Malvinas. No segundo tempo, em quatro minutos, Maradona resumiu a alma argentina. Saltou diante de Peter Shilton, empurrou a bola com a mão esquerda, e nem Ali Bennaceur nem o bandeirinha Bogdan Dotchev viram. Era a viveza criolla virada gol. Minutos depois, partiu do meio-campo, driblou meio time inglês por 55 metros em dez segundos, e Víctor Hugo Morales gritou o "barrilete cósmico" que entrou na história.

No vestiário, Gary Lineker e Terry Butcher fervilhavam de indignação moral. Na Argentina, o povo celebrava a transgressão como ato heroico de sobrevivência. Contra a Bélgica, Diego foi sublime. Na final contra a Alemanha, deu o passe cirúrgico para Burruchaga superar Briegel e cravar o título. Ergueu a taça ignorando autoridades políticas. Tornou-se intocável.

A gaiola de ouro e o beijo da Camorra.

A glória cobrou o preço imediato. Cristiana Sinagra apareceu na RAI italiana anunciando que tinha tido um filho de Diego — Diego Jr. Ele negou veementemente a paternidade, e a crise pessoal acelerou o consumo de cocaína. Em paralelo, o Napoli venceu o Scudetto de 1987 e a Copa da Itália. A cidade endeusava-o; ele se afundava.

A relação com a Camorra se consolidou. O clã Giuliano, comandado por Carmine Giuliano, oferecia proteção, presentes, festas privadas, mulheres, um sistema de apostas clandestino conhecido como totonero, e suprimento infinito de cocaína. Em troca, queria apenas a presença do deus em suas mesas. Diego aceitou. A intocabilidade que sentia no estádio se estendia à noite napolitana, e ele acreditou que essa liberdade era real.

Veio a Copa da Uefa em 1989, o segundo Scudetto em 1990, o casamento luxuoso no Luna Park em Buenos Aires. E veio a Itália-1990, com o tornozelo destruído, à base de infiltrações. Diego pediu publicamente aos napolitanos que torcessem contra a Itália na semifinal — dividiu o país anfitrião. Houve o caso da "água batizada" oferecida a Branco no jogo contra o Brasil. Após perder a final para a Alemanha, chorou de revolta acusando a "máfia da Fifa". Em março de 1991, o exame antidoping pós-jogo contra o Bari acusou cocaína. Suspensão de 15 meses. Fuga noturna da Itália. O deus tinha se tornado incômodo, e o sistema o expurgou.

A imortalidade do ídolo caído.

No Sevilla, sob Bilardo de novo, foi indignidade pura. Multas por noitadas, detetives contratados pelo clube para seguí-lo, excesso de peso, briga física no vestiário em que Diego desferiu um soco no próprio técnico. Fim melancólico de uma centelha espanhola que nunca deveria ter acontecido.

A AFA implorou seu retorno para salvar as Eliminatórias de 1994. Passagem fugaz pelo Newell's, reabilitação radical, programa de emagrecimento brutal. Na Copa dos Estados Unidos, voltou a brilhar contra a Grécia, comemorou com aquele rosto possuído gritando para a câmera. Dias depois, saiu de mãos dadas com a enfermeira Sue Carpenter, sorrindo sem entender. O exame acusou efedrina. "Cortaram minhas pernas", disse. A narrativa do gênio vitimizado por um establishment corrupto se cristalizou.

Veio o retorno ao Boca, internações, recaídas, tentativas frustradas como treinador no Mandiyú e no Racing. A despedida na Bombonera em 2001, com a frase imortal "a bola não se mancha", absorvendo todas as culpas para imaculizar o esporte. Vieram os infartos, a obesidade, a recuperação supervisionada em Havana por Fidel Castro, a Igreja Maradoniana cultuando D10S. E em 2020, durante a pandemia, a morte solitária num corpo já castigado, seguida pelo funeral caótico na Casa Rosada e pelo luto mundial.

O homem que precisou ser deus.

Diego foi gênio e autodestrutivo no mesmo corpo, e um precisava do outro para existir. A rebeldia que o ergueu também o consumiu. A Argentina não chora um santo — chora um espelho. Aceitar Maradona é aceitar que a bola não se mancha, mas o homem que a conduziu sangrou até o último arranhão.

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