My Story - Resenha crítica - Donald McRae
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4 leituras ·  5 avaliação média ·  1 avaliações

My Story - resenha crítica

translation missing: br.categories_name.modo_copa, Biografias & Memórias e Esportes

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978-1-405-92442-9

Editora: Penguin Random House

Resenha crítica

My Story (Biografia de Steven Gerrard).

Imagine carregar nas costas o sonho de uma cidade inteira por quase três décadas. Você é o capitão. Falta um passe para colocar a mão na taça que seu clube não levanta há 24 anos. E então, numa fração de segundo, o gramado some debaixo dos seus pés. A bola escapa. Demba Ba dispara. E o título se desfaz no ar.

Era 27 de abril de 2014, Anfield, Liverpool contra Chelsea. Steven Gerrard escorregou. No carro, voltando para casa, o homem que liderou Liverpool numa virada histórica em Istambul chorou como criança. Não pela derrota. Pelo peso de saber que aquela talvez tivesse sido sua última chance real de erguer a Premier League pelo clube que ama desde os sete anos.

Este microbook reconstrói os bastidores dessa devoção quase impossível. Você vai sentir a pressão asfixiante de vestir a braçadeira em Anfield, a fúria sem censura dos vestiários, a tragédia que assombra a cidade desde Hillsborough, e a lição mais dura de todas: como permanecer de pé quando o mundo desmorona na sua frente. É a história de um homem que escolheu ficar — e pagou o preço inteiro por essa escolha.

O preço da lealdade na era dos bilionários.

Verão de 2013. O Arsenal envia uma proposta de 40 milhões de libras mais 1 libra por Luis Suárez — uma piada calculada para acionar uma cláusula contratual. Suárez quer sair. Gerrard, capitão, marca uma conversa cara a cara. Não fala como executivo, fala como companheiro. Pede mais uma temporada. Sugere que ele mire Real Madrid ou Barcelona, não um rival inglês. Suárez fica.

Esse é o trabalho invisível do capitão moderno. Enquanto Roman Abramovich injetava bilhões no Chelsea e os xeques transformavam o Manchester City numa potência montada à base de talão de cheques, o Liverpool tentava competir com lealdade, vestiário coeso e a memória do Boot Room — aquele cômodo apertado onde Bill Shankly e seus discípulos construíram um império tático tomando chá.

Gerrard cresceu na Ironside Road fingindo ser John Barnes e Peter Beardsley. Em Suárez, reconheceu a mesma obstinação genial dos ídolos da infância. Convenceu o uruguaio a ficar não porque tinha dinheiro para oferecer, mas porque entendia que devoção, em futebol, ainda valia alguma coisa. Por mais um ano, pelo menos.

O luto e a psicologia do vestiário.

Daniel Sturridge era talento puro com a confiança de uma porcelana trincada. Antes de um clássico contra o Manchester United, sentia dor. Queria sair. Gerrard puxou cadeira, bajulou, lembrou do gol que Sturridge faria, da torcida que esperava. Convenceu. Sturridge jogou com dor. Marcou.

Com Suárez era o oposto — bastava soltar o cachorro. Com Sturridge, era terapia diária. O capitão moderno virou psicólogo informal de talentos voláteis, e Gerrard aprendeu cedo que liderar não é gritar, é ler cada companheiro como livro aberto e ajustar o tom para cada um.

Mas havia um peso que nenhum manual de liderança ensina a carregar. Em 1989, seu primo Jon-Paul Gilhooley, dez anos, foi a vítima mais jovem da tragédia de Hillsborough. Noventa e sete torcedores morreram esmagados. Cada vez que Gerrard entrava em Anfield, jogava por Jon-Paul. Cada partida era uma missão póstuma. A alma do clube e a alma do jogador eram, na verdade, a mesma ferida que nunca fechava.

O escrutínio esmagador da seleção.

Aos catorze anos, Gerrard foi rejeitado pela escola de futebol de Lilleshall, o templo da formação inglesa. Voltou para casa devastado. O pai disse: ótimo, foque no Liverpool. Foi um dos melhores conselhos da vida dele.

Mas vestir a camisa da Inglaterra trouxe um tipo diferente de tortura. A imprensa britânica é uma trituradora — infla um garoto como salvador nacional na quarta-feira e o crucifica como fracassado na sexta. A chamada Geração de Ouro, com Beckham, Lampard, Rooney, Terry, virou pó em torneio após torneio, esmagada por ego, indisciplina e a comparação cruel com os alemães, que ganhavam jogando menos bonito.

E havia humilhações pessoais. Stuart Pearce, então auxiliar técnico, certa vez puxou Gerrard para dentro de um banheiro para avisar, ali, entre azulejos, que tiraria dele a braçadeira de capitão. Em 2010, Fabio Capello tratava o grupo com frieza brutal de quartel italiano. O gol contra a Polônia em Wembley, classificando a Inglaterra para 2014, foi êxtase puro — mas era êxtase comprado a parcelas longas de sofrimento.

O frio tático e o famoso erro dos fatos.

Em 2009, com o título inglês ao alcance, Rafa Benítez resolveu travar guerra mental contra Alex Ferguson. Convocou uma coletiva, abriu uma folha de papel e leu calmamente uma lista de "Facts" — fatos sobre supostos privilégios arbitrais do United. Pareceu cirúrgico. Foi desastroso. O vestiário do Liverpool gelou. O United engatou e levou a liga.

Benítez era um xadrezista frio. Brendan Rodgers, anos depois, era o oposto: calor humano, papo olho no olho, abraço no corredor. Ferguson, na autobiografia, atacou Gerrard com dureza e mirou também o jovem Jordan Henderson. Gerrard blindou Henderson, repetindo que críticas de Ferguson só significavam que ele temia o garoto.

Foi Rodgers quem fez o movimento tático mais inteligente da carreira tardia de Gerrard: tirou-o da função ofensiva e o recuou para o estilo Andrea Pirlo, ditando o ritmo de trás. Aceitar limitação física virou superpoder. O capitão não corria mais — pensava o jogo dois passes adiante.

A euforia implacável da temporada 2013-14.

Houve uma partida da FA Cup contra o Bournemouth em que Gerrard sofreu uma lesão íntima absurda — um rasgo na região do pênis. Os médicos costuraram em silêncio cômico no vestiário. Ele voltou a jogar. Era o tipo de sacrifício bizarro que define um capitão obcecado por título.

E o Liverpool voava. Suárez e Sturridge formaram a dupla SAS, com Coutinho e Sterling em transições fulminantes. O 5 a 1 sobre o Arsenal foi declaração de guerra. A cada fim de semana, o estádio inflava de uma fé que não se via desde os anos 90. A torcida, que anos antes protestava furiosa contra os donos americanos Tom Hicks e George Gillett — que quase falimentaram o clube —, agora cantava sem parar.

Veio o 3 a 2 dramático sobre o Manchester City. No círculo central, abraçados, jogadores ofegantes, Gerrard gritou em lágrimas: "This does not fucking slip now!" Isso aqui não escorrega agora. Uma profecia gritada de cabeça erguida. E uma ironia que o destino arquivou para usar contra ele duas semanas depois.

O escorregão e a fuga para Mônaco.

Dias antes do Chelsea, dores agudas nas costas. Analgésicos pesados. Gerrard sabia que precisava jogar — era a decisão. Do outro lado, José Mourinho montou um plano cirúrgico: paralisar o jogo, atrasar reinícios, sufocar a empolgação de Anfield.

Primeiro tempo, perto do intervalo. Bola chega aos pés de Gerrard. O domínio falha. Os pés escorregam no gramado pesado. Demba Ba dispara sozinho. Gol. O título começa a vazar pelos dedos ali, naquela fração de segundo que ele revive até hoje.

Depois da temporada, Gerrard fugiu para Mônaco. Não para festa — para respirar. Foi quando se aprofundou o trabalho com o psiquiatra Steve Peters, criador do conceito do chimpanzé interior: a parte primitiva do cérebro que sequestra o atleta no pior momento. Peters ensinou a separar o homem do chimpanzé. Sem isso, Gerrard talvez nunca tivesse jogado outra partida de futebol.

Tentativas vãs, mordidas e o fim na seleção.

Copa de 2014, Brasil. A Inglaterra treinou em Portugal sob calor extremo para simular Manaus, hidratação em camadas, ciência aplicada. Pirlo, calmamente, dominou a estreia da Itália. E na partida contra o Uruguai, foi Suárez — companheiro de Anfield, amigo — quem aproveitou um cabeceio falho de Gerrard para marcar o gol da eliminação.

Depois do jogo, no celular, Gerrard viu as fotos: Suárez mordendo o ombro de Giorgio Chiellini. Mais uma suspensão monstruosa. O fim melancólico da carreira internacional acompanhado pela loucura reincidente do amigo.

Já como espécie de embaixador do clube, Gerrard mandou mensagens pessoais por SMS para Alexis Sánchez e Toni Kroos, tentando seduzi-los. Sánchez foi para o Arsenal. Kroos, para o Real Madrid. O Liverpool, sem Suárez vendido ao Barcelona, contratou Mario Balotelli. No primeiro dia, Balotelli avisou que não marcaria em escanteios defensivos. Gerrard pensou: se déssemos a Rickie Lambert o corpo de Balotelli, teríamos um craque mundial.

O chimpanzé, o pisão e o adeus.

Veio a reunião que selou o fim. Quinze minutos gélidos com a diretoria. Oferta de 40% de corte salarial com bônus por produtividade. A mensagem era clara: obrigado por tudo, mas é hora. Doeu como em 2005, quando ele quase aceitou o Chelsea de Mourinho — episódio que quase consumiu sua relação com o Liverpool até o pai e o irmão sentarem com ele e perguntarem se ele tinha enlouquecido. Ficou por amor. Dez anos depois, o amor não bastava mais para a planilha.

Antes do fim, momentos sublimes e insanos. O chute contra o Olympiakos em 2004, o voleio nos 90 minutos da final da FA Cup de 2006. E uma anedota que define o caos: 2007, vésperas de jogo contra o Barcelona, noite de karaokê, Craig Bellamy ataca John Arne Riise com um taco de golfe, um 8-iron. No dia seguinte, ambos jogam. Ambos marcam. Liverpool vence no Camp Nou. Futebol não tem manual.

Houve também o quase fim em 2011: ruptura no adutor, cirurgias em sequência, infecção no tornozelo vazando pus amarelado detectada horas antes de um jogo. Aos 31 anos, deprimido no hospital, achou que estava acabado. Foi Steve Peters quem o ajudou a racionalizar: família linda, filhas saudáveis, finanças garantidas. Se não chutasse mais uma bola, ainda assim era um homem de sorte.

Mas o chimpanzé ainda dava ar. No clássico contra o United, começou no banco. Entrou no segundo tempo fervendo de ego ferido. Trinta e oito segundos depois, deu um pisão violento em Ander Herrera. Expulso. Em casa, confessou à esposa e a Peters que tinha agido como animal enjaulado. Recebeu, das mãos de John Terry, uma carta de Mourinho chamando-o de "meu mais querido inimigo".

Hollywood, lágrimas e o legado de Anfield.

Quando Raheem Sterling pressionou por uma saída, Gerrard foi direto: você é jovem demais para fugir, priorize minutos como titular, status prematuro destrói carreira. Nos treinos do sub-16, onde fazia o curso de técnico nível B, ficou deslumbrado com um garoto chamado Trent Alexander-Arnold — ferocidade rara, leitura precoce. Sonhava em treinar o Liverpool um dia, com Xabi Alonso e Jamie Carragher como auxiliares.

Os amigos sugeriram um clipe para aliviar o discurso de despedida: a cena de O Lobo de Wall Street em que Leonardo DiCaprio grita "I'm not fucking leaving!" Gerrard riu pela primeira vez em semanas. O adeus em Anfield contra o Crystal Palace foi ruidoso ao ponto de assustar suas filhas pequenas. Até a torcida adversária aplaudiu de pé. A última partida da Premier League foi um cruel 6 a 1 para o Stoke, com gol de honra dele. Em Dubai, dias depois, o elenco entregou um livro artesanal recheado de mensagens. Maldini. Zidane. Mourinho. Suárez. Cada palavra um lembrete: ele se foi como lenda global do clube que sempre amou.

O que pesa mais que o troféu.

Prateleiras vazias de Premier League não apagam o homem que se recusou a abandonar a cidade que enterrou seu primo. A história aqui se escreveu na capacidade de suportar expectativas titânicas, domar o chimpanzé interior, escorregar diante do mundo e, ainda assim, voltar de pé para a próxima partida. Lealdade, no fim, é o único troféu que ninguém pode tirar de você.

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Quem escreveu o livro?

Donald McRae é um escritor sul-africano que se mudou para o Reino Unido em 1984 para escapar do serviço militar durante o Apartheid. Colaborador do The Guardian desde 2003, é o único escritor a vencer duas vezes o prêmio Will... (Leia mais)

Steven Gerrard é uma lenda do futebol inglês que passou vinte anos no Liverpool, clube que integrou aos oito anos de idade e pelo qual disputou mais de 700 jogos. Capitão icônico do Liverpool e da seleção inglesa, acumulou 114 convocações pela... (Leia mais)

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