Nepal sofre enchente sem chuva pelo segundo ano seguido - Resenha crítica - 12min Originals
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Nepal sofre enchente sem chuva pelo segundo ano seguido - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Uma onda sem chuva desceu a fronteira

Na manhã de quarta-feira, uma enchente repentina desceu pelos vales do distrito de Rasuwa, no norte do Nepal, na fronteira com o Tibete, e varreu povoados inteiros. O detalhe que desorientou moradores e autoridades é que não estava chovendo. "Não houve chuva no Nepal, então não esperávamos nada parecido com isso", disse Narendra Pariyar, chefe da administração distrital de Rasuwa. Kosh Raj Koirala, editor do jornal Republica Daily, em Katmandu, contou à Al Jazeera que muitas pessoas foram pegas em casa: "várias casas foram levadas, arrastadas pelo rio".

Imagens divulgadas pela polícia do Nepal mostraram torrentes de água barrenta descendo vales de montanha e arrastando casas. Suman Chalise, professor de 34 anos, disse à AFP, no distrito de Nuwakot: "Vi a enchente levar oito ou nove caminhões, junto com casas e pessoas. Foi de partir o coração. Eu nunca tinha visto uma devastação assim." A televisão exibiu casas destruídas, carros boiando e uma ponte metálica sendo arrastada pela correnteza do rio Bhote Koshi.

O número de mortos ainda oscila de fonte para fonte, o que costuma indicar resgate em andamento. O porta-voz da polícia nepalesa, Abi Narayan Kafle, falava em oito corpos recuperados; o Guardian registrou nove mortos; BBC e CNN citaram a polícia da província de Bagmati para dizer que ao menos 17 pessoas morreram. Do outro lado da fronteira, a emissora estatal chinesa CCTV relatou "numerosas vítimas e desaparecidos" no porto de Gyirong, no Tibete, sem divulgar números.

O gatilho não foi a monção

Entre junho e setembro, as chuvas de monção provocam com regularidade enchentes e deslizamentos no sul da Ásia. Desta vez, a água veio antes da chuva — e há duas explicações em circulação.

O ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shishir Khanal, disse à Câmara dos Representantes que um terremoto às 8h37 provocou um grande deslizamento que bloqueou o rio, e que esse bloqueio parece ter causado a enchente. O Serviço Geológico dos Estados Unidos registrou um tremor de magnitude 4,4 na região no mesmo horário.

Especialistas do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado da Montanha (ICIMOD), com sede em Katmandu, apontam outro mecanismo: uma avalanche de gelo e rocha vinda de uma geleira do lado nepalês. Sarthak Shrestha, analista de sensoriamento remoto do centro, disse à AFP que uma avaliação preliminar não encontrou "nenhuma anomalia" do lado chinês da fronteira: "Acreditamos que houve uma avalanche de rocha e gelo no Nepal, bloqueando o rio Lhende e causando o evento de enchente em cascata." Qianggong Zhang, também do ICIMOD, ressalvou à AFP que a causa exata ainda será determinada.

As duas versões convergem num ponto: alguma coisa entupiu o leito do rio lá em cima, a água represou e depois arrebentou de uma vez.

Duas vezes em 14 meses no mesmo rio

É esse o dado que já está firme, independentemente de como o número de mortos evolua. "O Lhende Khola inundou duas vezes em quatorze meses, desta vez provocado por uma avalanche de gelo e rocha de uma geleira do lado nepalês, que bloqueou o rio e liberou uma onda repentina rio abaixo", disse Saswata Sanyal, especialista em redução de risco de desastres do ICIMOD, à agência Associated Press. O Lhende Khola é afluente do Bhote Koshi e foi onde a cheia atingiu o pico.

A enchente anterior, em agosto do ano passado, teve origem diferente e destino parecido. Um lago glacial no Tibete transbordou com as altas temperaturas na montanha, a água desceu pelo Bhote Koshi, nove pessoas morreram, 24 ficaram desaparecidas e a "ponte da Amizade", que liga Nepal e China, foi levada — o comércio e o transporte entre os dois países ficaram interrompidos por meses.

O pano de fundo apontado pelos pesquisadores é o degelo. O Himalaia aquece mais rápido que a média global, e um levantamento do próprio ICIMOD divulgado neste ano indicou que as geleiras da região do Hindu Kush Himalaia estão derretendo em ritmo acelerado, com a taxa de perda de gelo dobrando desde 2000. "Num Himalaia em aquecimento, o alerta antecipado é a primeira linha de adaptação", disse Sanyal.

Turistas, hidrelétricas e pontes: a escala do que foi levado

O Conselho de Turismo do Nepal informou que 384 viajantes estavam desaparecidos nas áreas atingidas, sendo 291 estrangeiros e 93 nepaleses, incluindo guias. Entre as nacionalidades citadas estão indianos, americanos, britânicos, malaios, australianos, holandeses e sul-africanos. O ministro Shishir Khanal disse ao parlamento que 26 policiais, nove agentes da polícia armada e 44 militares também estavam desaparecidos.

A infraestrutura de energia foi um dos alvos principais. Sessenta funcionários de um projeto hidrelétrico em construção, o Langtang Khola, de 20 megawatts, estavam desaparecidos, segundo a agência estatal RSS; a equipe fazia concretagem dentro de um túnel. A Associação de Produtores Independentes de Energia do Nepal contabilizou 14 projetos hidrelétricos afetados, cinco deles em obras. A Autoridade de Eletricidade do Nepal informou danos em cerca de 430 megawatts de capacidade de geração — mais de 12% da capacidade hidrelétrica nacional, segundo cálculo da Reuters —, com interrupção no fornecimento. Várias rodovias foram fechadas, incluindo a estrada principal para Katmandu.

Rasuwa, o distrito mais atingido, tem cerca de 50 mil habitantes e vive de agricultura de montanha, comércio de fronteira, trekking e das hidrelétricas instaladas em seus rios rápidos. "Há devastação por toda parte", disse à Reuters Tula Bahadur BK, profissional de saúde no distrito. "Os assentamentos junto ao rio foram completamente varridos. Cinco parentes meus estão desaparecidos."

Dos dois lados da fronteira, respostas separadas

O Exército nepalês mobilizou 14 helicópteros e equipes de resposta a desastres, mas o porta-voz Raja Ram Basnet informou que as aeronaves não conseguiam pousar em Syapru Besi e Timure enquanto a água não baixasse. O primeiro-ministro Balendra Shah convocou reunião de emergência da autoridade nacional de gestão de desastres e disse que polícia e militares se somaram ao resgate: "Foram dadas instruções para levar quem vive nas áreas baixas a lugares seguros." O governo pediu ajuda a Índia e China, segundo o porta-voz Sasmit Pokharel, e a Cruz Vermelha ativou equipes de emergência com suprimentos.

Do lado chinês, a agência Xinhua disse que o deslizamento de lama ocorreu em território nepalês e atingiu o porto de Gyirong, cortando estradas, comunicações e energia na região de Shigatse. Entre os desaparecidos estão oito sul-coreanos que trabalhavam em uma usina hidrelétrica. O presidente Xi Jinping ordenou esforços "totais" de busca e pediu reforço no monitoramento e nos alertas para evitar desastres secundários. O premiê Li Qiang deu instruções às agências centrais e o vice-premiê Zhang Guoqing foi enviado ao Tibete. A CCTV informou o envio de 30 mil itens de socorro, como barracas, fogareiros e roupas de cama, e a mobilização inicial de 200 profissionais de geologia, engenharia e emergência, com drones de reconhecimento, escâneres a laser e detectores de vida.

O bloqueio continua no rio

O alerta mais concreto que sobrou do dia não é sobre o que já passou. "Com um bloqueio ainda alojado rio acima, no rio da fronteira entre Nepal e China, as autoridades alertam que uma segunda enchente pode ocorrer", disse Qianggong Zhang, chefe de riscos climáticos e ambientais do ICIMOD, à AFP.

Isso importa porque o Bhote Koshi não termina em Rasuwa. Ele nasce no Tibete, desce por desfiladeiros, deságua no rio Trishuli, no Nepal, e segue para a Índia como Gandak. As autoridades nepalesas emitiram alertas para moradores das margens do Bhotekoshi, do Trishuli e do Narayani, pedindo que se afastem dos rios. Na região de Shigatse, o departamento de trânsito tibetano avisou que as estradas estavam "sob risco de deslizamentos e inseguras para tráfego".

O que fazer com essa informação

Dois pontos concretos definem o que vem a seguir, e ambos podem ser acompanhados nos próximos dias. O primeiro é se autoridades nepalesas e chinesas confirmam uma nova onda de cheia: segundo o ICIMOD, o bloqueio que causou esta segunda inundação em 14 meses continua no leito do rio, e enquanto ele estiver lá o risco não é hipotético, é uma quantidade de água represada esperando. O segundo é o número final de mortos e desaparecidos. Hoje ele varia entre oito e 17 confirmados conforme a fonte, com centenas de pessoas ainda não localizadas, e o desfecho dirá se este episódio se aproxima ou supera a escala da enchente do ano passado no mesmo rio, que matou nove pessoas e deixou 24 desaparecidas.

Para quem viaja pelo Himalaia ou tem contatos na região, o alerta prático é mais simples: vigiar os comunicados oficiais sobre Rasuwa, sobre o condado de Gyirong e sobre o curso do Bhote Koshi antes de se aproximar de margens de rio na temporada de monção. O episódio desta semana mostrou que a ausência de chuva não significa ausência de risco — a água veio de gelo e rocha, não do céu. E vale reter o que o próprio pesquisador do ICIMOD colocou como prioridade depois do resgate: num Himalaia que aquece, o sistema de alerta antecipado é a primeira linha de defesa das comunidades que vivem rio abaixo.

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