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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
Quarta-feira, treze de maio. Pela manhã, uma pesquisa séria de intenção de voto, encomendada por uma das maiores casas de investimento do país, mostrou Flávio Bolsonaro e Lula virtualmente empatados dentro da margem de erro para um eventual segundo turno. Para o senador, era a confirmação de que a pré-candidatura tinha tração... que o filho mais velho de Jair Bolsonaro não era apenas um substituto, mas um nome competitivo no tabuleiro de dois mil e vinte e seis. A direita comemorou. O Planalto se assustou. E o mercado começou a precificar uma disputa real... apertada, polarizada, mas equilibrada.
Às duas e meia da tarde, o Intercept Brasil publicou uma reportagem que mudou o tom da pré-campanha em poucos minutos. No centro do furo, um áudio do próprio senador Flávio Bolsonaro... endereçado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso desde novembro do ano passado em meio ao escândalo da liquidação da instituição pelo Banco Central. No áudio, Flávio cobra dinheiro. E não é pouco. Cento e trinta e quatro milhões de reais... cerca de vinte e quatro milhões de dólares na cotação da época, destinados a financiar o filme "Dark Horse"... uma cinebiografia internacional sobre o pai dele, Jair Bolsonaro.
Em horas, o que era unidade virou estilhaço. Aliados próximos da família torceram o nariz. Adversários da própria direita pediram explicações. E pelo menos um pré-candidato pediu, em alto e bom som, a prisão do senador.
A primeira peça é a relação. Em nota, depois da reportagem, Flávio admitiu que conhecia Vorcaro e disse que o contato começou em dezembro de dois mil e vinte e quatro, quando, segundo ele, ainda não havia acusações públicas contra o banqueiro. As mensagens reveladas pelo Intercept, porém, abrangem um período que vai de dezembro de dois mil e vinte e quatro até novembro de dois mil e vinte e cinco. E mostram um tom que vai além do profissional. Em quinze de novembro, véspera da prisão de Vorcaro, Flávio escreve: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente". Era um dia antes de o banqueiro ser interceptado tentando deixar o país.
A segunda peça é o dinheiro. O acordo previa o aporte total de vinte e quatro milhões de dólares no projeto. Documentos indicam que pelo menos dez milhões e seiscentos mil dólares já haviam sido transferidos em seis remessas... entre fevereiro e maio do ano passado. Quase sessenta milhões de reais em pouco mais de três meses, em parcelas que iam se acumulando enquanto o Banco Master afundava sob a fiscalização do Banco Central.
A terceira peça é o áudio em si. Enviado em oito de setembro de dois mil e vinte e cinco, poucos dias antes de Jair Bolsonaro ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal pela trama golpista, é uma gravação curiosa pelo tom. Flávio começa quase pedindo desculpas. "Fico sem graça de ficar te cobrando", diz, antes de explicar que está em "um dos momentos mais difíceis" da produção, que tem contas para pagar no mês e no seguinte, e que o atraso ameaça o contrato com a equipe internacional... incluindo o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.
A quarta peça é o ecossistema. As mensagens mostram que o senador não estava sozinho na operação. O deputado federal Mário Frias, ex-secretário de Cultura e produtor executivo do filme, aparece em conversas com Vorcaro. O empresário Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias, também. E Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como o principal operador financeiro do banqueiro, completa o quadro. Frias, em nota, garantiu que não há "um único centavo" de Vorcaro no projeto e que Flávio cedeu apenas direitos de imagem da família.
A quinta peça é a reação do próprio Flávio. Pela manhã da quarta, quando perguntado de surpresa por um repórter perto do Supremo, ele negou. Disse que era mentira. Riu. Foi embora. Algumas horas depois, com o áudio já publicado, mudou de versão. Reconheceu o contato, disse que se tratava de patrocínio privado para um projeto privado, defendeu uma CPI do Master para "separar inocentes de bandidos", e afirmou não ter recebido nenhuma vantagem pessoal nem usado dinheiro público.
A versão pode ser exatamente essa. Ainda não há acusação formal, não há indiciamento, e o senador segue presumindo inocência até prova em contrário... como manda a Constituição. O que não dá para ignorar, no entanto, é o efeito político imediato.
Romeu Zema, do Novo, gravou um vídeo chamando o episódio de "imperdoável" e "tapa na cara dos brasileiros". Ronaldo Caiado, do PSD, pediu transparência e clareza, e horas depois recuou para defender a "união do centro-direita". O partido Missão, de Renan Santos, foi além e prometeu duas ações... uma no Conselho de Ética do Senado pedindo a cassação, outra no Ministério Público Eleitoral, para apurar suposto uso de recursos irregulares. Até Rodrigo Constantino, comentarista historicamente alinhado à família Bolsonaro, reagiu nas redes com perplexidade: "Reputação ilibada", ironizou. Carlos e Eduardo Bolsonaro saíram em defesa de Flávio e acusaram Zema de oportunismo. A bancada do PL fechou questão, mas em conversas reservadas admite que o estrago é grande.
No outro lado do espectro, o PT viu a oportunidade. Jaques Wagner subiu à tribuna do Senado para repercutir o caso. Parlamentares passaram a defender quebra de sigilos bancário e telefônico, busca e apreensão, ampliação das investigações sobre o Banco Master. O timing é desfavorável para Flávio... mas também é desfavorável para o governo, porque a investigação esbarra em encontros do próprio Vorcaro com Lula no Planalto, em dezembro de dois mil e vinte e quatro.
É um lance que rachou a direita e expôs também o lado de cá.
A resposta mais direta está no painel da bolsa.
Enquanto a reportagem virava notícia, o Ibovespa caía. Quando o texto foi publicado, perto das duas e meia da tarde, o índice operava em torno de cento e setenta e oito mil pontos. Em poucos minutos, perdeu essa marca. Renovou mínimas durante toda a tarde. Fechou em queda de um vírgula oitenta por cento, aos cento e setenta e sete mil pontos... na mínima do dia, chegou a recuar quase dois por cento. O dólar, que estava perto de quatro reais e noventa e três centavos, disparou. Encerrou o pregão em alta de dois vírgula trinta e um por cento, cotado a cinco reais... o maior fechamento desde dez de abril e a maior alta percentual em um único dia desde dezembro do ano passado. A curva de juros futuros abriu junto.
A leitura dos analistas é direta. O mercado precificava uma eleição competitiva entre Lula e um candidato de direita que sinalizasse mais controle fiscal. Flávio era esse candidato. O áudio enfraqueceu a viabilidade dele... e, sem uma alternativa clara já posicionada, o investidor reagiu reduzindo exposição ao risco Brasil. Não é uma reação contra Flávio em si. É uma reação à incerteza.
Para quem acompanha mercado, a leitura prática se desdobra em três caminhos.
Primeiro: o cenário eleitoral ficou mais aberto. Nomes como Zema, Caiado e Michelle Bolsonaro podem ganhar tração. Vale acompanhar as pesquisas das próximas semanas para enxergar quem capitaliza o desgaste.
Segundo: o caso Banco Master tende a virar pauta recorrente. Vorcaro negocia uma delação premiada que pode atingir parlamentares e autoridades dos dois lados. Cada novo capítulo trará volatilidade. Quem investe em ativos brasileiros precisa contar com solavancos políticos até a convenção partidária, no segundo semestre.
Terceiro: o dólar acima de cinco reais e a abertura da curva de juros são indicadores úteis. Se a crise se aprofundar, os dois tendem a piorar. Se o desgaste for absorvido e a direita encontrar um nome de consenso, eles podem aliviar.
A história ainda está longe do final. O que mudou em poucas horas foi a percepção. Até quarta-feira, a corrida de dois mil e vinte e seis tinha contornos definidos. Agora ela tem mais perguntas do que respostas... e o mercado, sempre frio nessa hora, já deu o seu recado.
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