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Editora: 12min
A ANPD — Autoridade Nacional de Proteção de Dados, órgão federal ligado ao Ministério da Justiça — determinou nesta quarta-feira (12) que o Discord suspenda as transmissões ao vivo no Brasil. O Discord é um aplicativo de conversa por texto, voz e vídeo criado em 2015 para jogadores, hoje com mais de 200 milhões de usuários mensais no mundo, segundo a própria empresa. A decisão veio depois da morte de uma adolescente de 13 anos que teria sido induzida por outros adolescentes à automutilação e ao suicídio, em cenas exibidas na plataforma.
A medida não é o banimento que parte do governo pediu, e o caminho entre uma coisa e outra é justamente onde está a disputa.
A ANPD deu ao Discord um prazo de três dias úteis. A determinação alcança não só as transmissões ao vivo — as chamadas lives — mas também recursos equivalentes de transmissão e compartilhamento de vídeo, e exige que a empresa implemente mecanismos tecnicamente eficazes contra tentativas de burlar a suspensão. Se descumprir, a plataforma pode sofrer sanções que incluem multa de até R$ 50 milhões por infração.
Em nota, a agência afirmou que a suspensão ocorre porque usuários ficam expostos a "conteúdos ou práticas que representem graves violações de direitos de crianças e adolescentes", entre elas indução, incitação e auxílio à violência, à automutilação e ao suicídio. Segundo a ANPD, depois da promulgação do ECA Digital — a lei 15.211/2026, que criou obrigações de proteção a menores nas plataformas —, o Discord fez mudanças técnicas na funcionalidade de transmissão em servidores fechados que tornaram as lives ainda menos protetivas. A suspensão vale até a empresa demonstrar que implementou medidas de segurança.
O Discord respondeu que está "cuidadosamente analisando" a decisão e que "a caracterização do Discord feita pela ANPD não reflete a plataforma que construímos nem os investimentos que temos feito na segurança dos usuários". A empresa também classificou a medida como prematura: diz que recebeu o processo de fiscalização na sexta-feira (7) e ainda estava dentro do prazo para apresentar sua defesa.
Na terça-feira (4), o Ministério da Justiça deflagrou a Operação Lívia contra redes criminosas que usavam plataformas digitais, entre elas o Discord, para promover violência contra mulheres e meninas. Dois dias depois, durante a cerimônia em que o presidente Lula sancionou uma lei que endurece penas por violência sexual contra crianças e adolescentes, a primeira-dama Janja Lula da Silva fez um apelo público: "A gente precisa bloquear o Discord no Brasil de qualquer forma. A gente precisa encontrar instrumentos para isso acontecer." E acrescentou: "A gente precisa atuar junto ao Judiciário para tirar essa rede horrorosa do ar."
No mesmo evento, o advogado-geral da União, Jorge Messias, disse que pediria ao Ministério da Justiça todas as informações do caso para que a AGU — a Advocacia-Geral da União, que representa o governo federal na Justiça — entre com uma ação contra a plataforma.
O secretário de Direitos Digitais do Ministério da Justiça, Victor Oliveira Fernandes, afirmou que houve falha de todos os mecanismos de proteção a menores de 18 anos e que a plataforma não verificou a idade de nenhum dos participantes da transmissão, assistida por mais de 200 pessoas. Desde o ECA Digital, a autodeclaração de idade deixou de ser aceita como forma de verificação no Brasil; segundo as investigações, um dos adolescentes alvo da Operação Lívia entrou na plataforma informando ter 148 anos. Para o governo, a transmissão ficou cerca de 50 minutos no ar e deveria ter sido interrompida, com comunicação imediata à polícia.
Em documento enviado ao Ministério da Justiça e à ANPD, ao qual o Estadão teve acesso, o Discord reconheceu que seus sistemas automáticos não geraram alerta suficiente para agir.
Os números são da própria empresa: o servidor onde a transmissão foi hospedada recebeu pontuação de risco de 0,12, enquanto o limiar para identificação automatizada era de 0,95 — cerca de um oitavo do necessário. "Os sistemas de aprendizado de máquina processaram os sinais disponíveis, mas não geraram alerta com nível de confiança suficiente para aplicação automatizada", diz a resposta. O Discord argumenta que os termos no nome do servidor não eram, isoladamente, indicadores confiáveis: a palavra "proxy", usada ali, aparecia em cerca de 34.279 servidores da plataforma. E sustenta que baixar o limiar aumentaria muito os falsos positivos, comprometendo a intervenção automática. A empresa afirma que está reexaminando esses critérios.
Pela cronologia apresentada pelo Discord, a atividade no canal começou por volta das 2h20 e o servidor foi removido às 4h15, cerca de 25 minutos após o primeiro contato das autoridades; em dois dias, a empresa recebeu seis notificações de órgãos públicos, e ao menos seis contas de envolvidos foram banidas às 15h20. O Discord sustenta que derrubou o servidor antes da morte, que a transmissão do suicídio ocorreu em outras plataformas e que a atividade criminosa foi coordenada fora dali, antes e depois. Informa ainda que, desde março, o áudio e o vídeo das transmissões são criptografados, e que por isso a plataforma não tem acesso direto ao conteúdo enquanto ele ocorre. Entre 2024 e junho, diz ter removido no Brasil 9,7 mil servidores e mais de 259 mil contas ligadas a autolesão, exploração sexual infantil, violência extrema, sextorsão ou crueldade contra animais.
Especialistas ouvidos pela Folha concordam que a medida atrapalha os grupos criminosos e discordam sobre sua base legal.
Para o advogado Luiz Augusto Filizzola D'Urso, especialista em crimes cibernéticos, a transmissão ao vivo é parte do método: os criminosos exigem que a vítima ligue a câmera para provar que está cumprindo as ordens. "A suspensão da live prejudica bastante o modus operandi aplicado por essas quadrilhas", diz — mas pondera que os grupos podem migrar para outros aplicativos de videochamada, o que ainda pode atrapalhar investigações em curso com agentes infiltrados. A delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, da Polícia Civil de São Paulo, afirma que se trata de "um crime multiplataformas", cuja etapa final, a transmissão, é preferencialmente feita pelo Discord. Maria Mello, do Instituto Alana, diz que o aplicativo costuma ser o fim de um aliciamento iniciado em outras redes e defende a suspensão enquanto medidas mais amplas não vêm.
O advogado criminalista Hélio Ramos discorda do caminho: "A ANPD não tem essa competência. Nem a lei 13.709/2018, que rege a agência, lhe deu essa atribuição, e nem mesmo a lei 15.211/2026, o ECA Digital, conferiu poderes para bloqueio ou suspensão de funcionalidades." Para ele, suspensão em escala nacional exige decisão judicial, mesmo que temporária, porque atinge também quem usa a plataforma para estudo e para jogos. D'Urso avalia o contrário: uma restrição temporária, válida até a empresa apresentar resultados, lhe parece aceitável — e, na sua leitura, o banimento viria só depois de multas, exigência de mudança de conduta e suspensões parciais.
Nada disso apareceu com o caso. Em julho de 2025, a delegada Lisandrea Salvariego já descrevia ao g1 o funcionamento das "panelas" — nome que os próprios adolescentes dão a servidores fechados do Discord, espaços digitais que reúnem grupos de usuários. Dentro deles há hierarquia, de usuário a "dono", e desafios propostos pelos líderes para quem quer subir de posição. Vítimas também são chantageadas com imagens íntimas obtidas antes. Há panelas com três, quatro mil pessoas. O núcleo da Polícia Civil de São Paulo já identificara mais de 600 vítimas no país, 90% delas meninas, e aponta jogos como Roblox e Minecraft como porta de entrada para a cooptação.
Segundo o diretor de tecnologia Thiago Ayub, o desenho do Discord ajuda a explicar o uso: é conhecido do público jovem, permite criar grupos privados com facilidade e tem moderação descentralizada, feita pelos próprios criadores das comunidades.
Três frentes são verificáveis nos próximos dias. A primeira é se o Discord cumpre o prazo de três dias úteis ou leva a medida ao Judiciário — a empresa já chamou a decisão de prematura e alegou que ainda estava no prazo de defesa, o que sinaliza contestação. A segunda é se a AGU protocola a ação anunciada por Messias: é esse o caminho que Hélio Ramos aponta como único capaz de sustentar um bloqueio nacional, e ele é diferente, em natureza e em alcance, da suspensão administrativa das transmissões. A terceira é a migração. Os três especialistas ouvidos pela Folha preveem que os grupos vão para outras plataformas com videochamada; se isso ocorrer, o efeito da suspensão sobre o crime será menor do que o efeito sobre o Discord.
Vale acompanhar também se a empresa altera o limiar de detecção que ela mesma informou — reduzir 0,95 é a mudança técnica concreta que está sobre a mesa, e ela envolve o custo dos falsos positivos que a empresa levantou.
Para quem tem crianças e adolescentes em casa, há duas coisas práticas. O Discord tem desde setembro de 2023 a Central da Família, ferramenta que mostra aos responsáveis com quem o adolescente conversa e de quais comunidades participa — não o conteúdo das mensagens —, e que precisa ser ativada com o consentimento dele, por leitura de um código no aplicativo. E há a orientação repetida por quem investiga esses casos: a delegada diz que o sinal está no comportamento, não no acesso. Isolamento social, mudança de rotina e frases como "não tem mais o que eu faça nesse mundo" aparecem tanto em vítimas quanto em agressores. Ela lembra ainda que adolescentes nessa situação raramente contam a pais ou professores — contam a um colega. O seu filho pode ser esse colega.
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