O capital estrangeiro que está chegando ao Brasil em novos setores - Resenha crítica - 12min Originals
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O capital estrangeiro que está chegando ao Brasil em novos setores - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Fusão, aquisição e greenfield: o vocabulário da entrada de dinheiro

Quando se fala em capital estrangeiro entrando num país, há dois caminhos bem diferentes. No primeiro, uma empresa de fora compra uma empresa que já existe, ou a fatia de controle dela. É o que o mercado chama de fusão e aquisição. Nada de novo é construído: muda quem manda. No segundo, o investidor chega e ergue algo do zero, uma fábrica, uma linha de transmissão, um parque solar. É o que se chama de projeto greenfield, literalmente "campo verde", terreno onde ainda não há nada.

A diferença importa porque as duas coisas produzem efeitos distintos na vida de quem mora aqui. Comprar controle move dinheiro entre acionistas. Construir gera obra, emprego e capacidade nova de produzir ou de gerar energia. E há um terceiro tipo de fluxo, mais volátil que os dois: o dinheiro que compra ações na bolsa e pode sair no dia seguinte.

É nesse contexto que aparecem as notícias desta semana, e elas mostram os três tipos ao mesmo tempo.

Renault e Geely anunciam carro elétrico feito no Paraná

Lula recebeu no Planalto, numa quarta-feira, dia 16, executivos da Renault e da chinesa Geely para anunciar um investimento de R$ 2 bilhões nos planos da montadora para o Brasil. Com isso, o total investido pela empresa no país entre 2025 e 2027 sobe para R$ 5,8 bilhões.

O destaque é um novo modelo elétrico da Renault, que começa a ser fabricado a partir do próximo ano usando a plataforma GEA, tecnologia mais recente do grupo para carros elétricos. A empresa também confirmou que o Geely EX2, um hatch totalmente elétrico, sai de fábrica a partir de dezembro, e que a tecnologia híbrida Renault E-Tech 4x4 flex fuel entra em produção em 2027.

A parceria entre as duas montadoras é recente: foi fechada em novembro de 2025, quando a Geely comprou 26,4% da Renault do Brasil. A produção está concentrada no Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais, no Paraná, que hoje tem cerca de 5 mil funcionários em duas fábricas. Segundo as empresas, o local está se tornando um dos parques automotivos mais modernos da América Latina, capaz de produzir na mesma planta carros a combustão, híbridos e 100% elétricos. Da reunião participaram o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa.

Nas grandes compras de energia, o cheque é estrangeiro

Um levantamento da consultoria Acorn Advisory, obtido pela CNN, mostra que o capital estrangeiro respondeu por 60% do valor divulgado das aquisições de controle no setor de energia no Brasil entre julho de 2023 e junho de 2026, embora tenha participado de cerca de 30% do número de transações.

A diferença entre as duas proporções é o ponto. O estrangeiro não faz mais negócios que o brasileiro; faz negócios maiores. O ticket médio das operações com compradores de fora foi de R$ 1,2 bilhão, contra pouco mais de R$ 200 milhões nas transações domésticas. No período, foram 189 aquisições de controle no setor, uma média superior a cinco por mês.

Para Gabriel Silva, sócio da Acorn, o salto "tem menos a ver" com investidores estrangeiros chegando ao Brasil e mais com eles concentrando os maiores cheques. Ele cita a Neoenergia como exemplo: em 2025, a espanhola Iberdrola pagou cerca de R$ 12 bilhões pela participação da Previ e depois avançou para deter 100% da companhia. O custo de capital explica parte do movimento, segundo Silva: com juros altos no Brasil, compradores domésticos que dependem de dívida perdem competitividade, enquanto grupos globais e fundos de infraestrutura têm acesso a capital de longo prazo.

A transmissão de energia aparece como o segmento mais atraente, porque as concessões são longas, a receita é regulada e o fluxo de caixa é previsível. Em 2025, a Equatorial vendeu sua divisão de transmissão para o fundo de pensão canadense La Caisse por R$ 9,4 bilhões. Já em renováveis, o capital ficou mais seletivo: cortes de geração e preços baixos de energia reduziram o apetite. "Hoje, o investidor busca menos o megawatt em si e mais a qualidade e a previsibilidade dos contratos associados a ele", disse Silva. A Europa segue como principal compradora, e entre os dez países que mais investiram estão Estados Unidos, Canadá, França, Reino Unido e China.

Os chineses mudam de estratégia: menos compra, mais construção

A China ocupa a décima posição nesse ranking, mas o setor elétrico brasileiro atrai há anos investimentos do país. As estatais State Grid e China Three Gorges lideram o movimento, com negócios como a aquisição da CPFL Energia pela State Grid e a compra das usinas de Jupiá e Ilha Solteira pela Three Gorges.

A mudança está no tipo de entrada. Se antes as fusões e aquisições eram a principal porta, agora os projetos novos ganham espaço, impulsionados pelos megaleilões de transmissão, pela expansão das renováveis e pelo interesse em data centers. A Spic Brasil, subsidiária local de uma estatal chinesa, foi uma das vencedoras do leilão de capacidade.

O interesse se estende ao armazenamento. Para o leilão de baterias previsto para dezembro, considerado um dos certames mais aguardados do setor, o BNDES listou empresas asiáticas como You.On, TBEA, Gotion, Trina e BYD. O certame, porém, já tem contestação: segundo reportagem do Valor, uma empresa interessada questiona a forma como a contratação será remunerada, já que lei aprovada em 2025 exige que ele seja pago pelos geradores de energia.

O dinheiro que entra rápido também sai rápido

Nem todo capital estrangeiro se fixa em fábrica ou linha de transmissão. Na bolsa, o vaivém é diário. Segundo dados da B3, no pregão de 10 de setembro os estrangeiros aportaram R$ 1,2 bilhão em ações, num dia em que o Ibovespa subiu 1,42%. Quatro dias depois, em 14 de setembro, retiraram R$ 324,7 milhões, com o índice em queda de 0,91%.

O saldo do ano continuou positivo nos dois momentos, em torno de R$ 25 bilhões. Mas a oscilação de um pregão para o outro mostra a natureza desse fluxo: ele responde ao humor do dia, e não a um plano de década.

O obstáculo: o projeto dos minerais críticos e a incerteza que vem com ele

Em 2 de setembro de 2026, o Senado aprovou o Projeto de Lei 2.780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e cria um conselho vinculado à Presidência para industrialização desses minerais. Minerais críticos são os insumos considerados essenciais para a transição energética, como lítio, terras raras, cobre, níquel, nióbio e grafite. O texto foi aprovado na mesma versão que já havia passado pela Câmara em maio de 2026 e segue direto para sanção presidencial.

O projeto traz medidas que o setor considera avanços, como um fundo garantidor da atividade mineral, créditos fiscais para beneficiamento e debêntures de infraestrutura. A objeção está concentrada em um dispositivo específico, o parágrafo 2º do artigo 3º.

Esse trecho prevê que mudanças de controle de empresas com direitos minerários de minerais críticos, contratos de fornecimento de longo prazo e participação relevante de estrangeiros sejam homologados depois de consumados. A operação pode ser fechada antes da análise do governo, mas fica sujeita a recusa posterior. Em artigo publicado no CNN Infra, Oswaldo Dalla Torre, sócio de M&A e mineração do escritório TozziniFreire, argumenta que isso cria um limbo jurídico que encarece o financiamento, porque investidores e bancos passam a precificar a possibilidade de desconstituição futura do negócio.

Ele aponta uma contradição interna: o parágrafo anterior do mesmo artigo promete estabilidade regulatória e previsibilidade. Durante a tramitação na Câmara, emendas chegaram a propor aprovação prévia, e as associações do setor pediam a retirada completa do mecanismo. O resultado foi a homologação posterior. Segundo Dalla Torre, se o texto for sancionado como está, a mineração será o único setor regulado do país com controle posterior, enquanto Aneel, Banco Central, ANP, Anatel, ANTT e Antaq exigem anuência prévia para transferências de controle.

O que fazer com essa informação

Três decisões concretas, todas com data, vão dizer se o apetite estrangeiro dos últimos meses continua ou trava.

A primeira é a sanção presidencial ao projeto dos minerais críticos. O ponto a observar não é o projeto inteiro, e sim se o dispositivo da homologação posterior é mantido, vetado por inteiro ou vetado com mensagem ao Congresso propondo aprovação prévia, que é a alternativa defendida pelo setor no artigo citado. É a diferença entre um investidor saber a regra antes de assinar o contrato ou depois.

A segunda é o leilão de baterias de dezembro. Vale observar duas coisas ao mesmo tempo: quais das empresas asiáticas listadas pelo BNDES efetivamente aparecem, e se a discussão sobre quem paga a conta, hoje atribuída aos geradores pela lei de 2025, chega resolvida ao certame. É um teste prático de se o interesse chinês em armazenamento se converte em contrato.

A terceira é o saldo estrangeiro na B3, divulgado pela própria bolsa. Compare o acumulado do ano com a variação de cada pregão: o primeiro mostra tendência, o segundo mostra volatilidade. Quando os dois divergem muito, como nos dois dias de setembro citados acima, o recado é que parte desse dinheiro não está comprometida com nada de longo prazo.

E há um indicador de fundo que atravessa as três: a distinção entre compra de controle e construção nova. Quando um estrangeiro compra uma distribuidora, muda o dono de um ativo que já existia. Quando ele ergue uma fábrica em São José dos Pinhais ou disputa um leilão de transmissão, entra capacidade nova no país. Acompanhar qual dos dois predomina nos próximos meses diz mais sobre a economia real do que o valor total anunciado.

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