O lado mais maluco da Copa do Mundo - Resenha crítica - 12min Originals
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O lado mais maluco da Copa do Mundo - resenha crítica

História & Filosofia e translation missing: br.categories_name.radar-12min

Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

Existe um pedaço de papel que vale mais do que parece. Não é um contrato milionário, não é uma escritura de imóvel. É uma folha amassada, escrita à mão, que um garoto de catorze anos escondeu debaixo da camisa numa noite fria de março, na Bósnia.

Trinta e um de março de dois mil e vinte e seis. Estádio Bilino Polje, em Zenica, Bósnia e Herzegovina. A repescagem europeia para a Copa do Mundo está em jogo. De um lado, a Itália, tetracampeã mundial. Do outro, a Bósnia, que só disputou uma Copa na vida, em dois mil e catorze. O jogo termina empatado em um a um. Vai para os pênaltis.

Nos bastidores da linha lateral, entre os gandulas que recolhem bolas e seguram toalhas, está Afan Cizmic. Catorze anos. Jogador das categorias de base do Celik Zenica ... dezoito gols e catorze assistências em doze jogos na temporada. Um moleque com faro de artilheiro.

Antes da disputa de pênaltis, Cizmic percebe algo. O goleiro italiano Gianluigi Donnarumma, herói da Euro dois mil e vinte e um, está consultando um papel escondido atrás de uma toalha, perto da garrafa de água. Uma cola. Um relatório detalhado sobre cada cobrador de pênalti da Bósnia ... para que lado costumam chutar, como fazem a corrida, onde miram.

Cizmic hesita. Pensa se deveria ou não. E então decide ... aconteça o que acontecer. Espera o momento em que as câmeras se voltam para o primeiro cobrador bósnio, corre até a área do gol e pega o papel.

Donnarumma só percebe que suas anotações sumiram quando já é tarde. Fica furioso. Tenta arrancar as anotações do goleiro bósnio Nikola Vasilj, numa espécie de retaliação. Não adianta. Sem sua cola, o goleiro italiano mergulha para o mesmo lado em todas as cobranças e não defende nenhuma. A Itália erra três pênaltis. Bósnia vence por quatro a um nas penalidades e vai à Copa.

Se a travessura de Cizmic realmente mudou o resultado, ninguém pode afirmar com certeza. Mas o garoto virou herói nacional. Foi a programas de televisão. Deu entrevistas para a imprensa internacional. Guarda o papel numa capa plástica e pretende leiloá-lo, com a renda indo para caridade.

Quando perguntado se o que fez foi antidesportivo, respondeu com uma honestidade desarmante ... "Se estivéssemos jogando na Itália, alguém teria feito o mesmo com o nosso goleiro."

A Copa do Mundo tem dessas coisas. Transforma gandulas em heróis, rivais em irmãos e fronteiras em detalhes.

Vinte e sete de junho de dois mil e dezoito. Rússia. Último jogo da fase de grupos. Enquanto o México perde feio para a Suécia, o destino da seleção mexicana está sendo decidido em outro estádio, a milhares de quilômetros dali. No jogo entre Coreia do Sul e Alemanha, os alemães precisam vencer. Se a Alemanha ganhar, o México está fora.

Torcedores mexicanos espalhados por bares, praças e estádios em toda a Rússia assistem ao jogo coreano com o coração na mão. Noventa minutos. Nada de gol alemão. A ansiedade é tanta que o ar parece mais pesado. Então, nos acréscimos, Kim Young-Gwon marca para a Coreia do Sul. O VAR confirma ... gol legal. Minutos depois, Son Heung-min faz o segundo num gol aberto. Alemanha dois a zero atrás. A maior seleção europeia está eliminada na fase de grupos. E o México, apesar da derrota, avança.

O que acontece a seguir não tem roteiro possível. Torcedores mexicanos saem às ruas da Rússia procurando qualquer sul-coreano para abraçar. Encontram um homem e o erguem nos braços. Cantam para ele. Oferecem tequila. Do outro lado do planeta, na Cidade do México, centenas de pessoas se aglomeram em frente à embaixada da Coreia do Sul. O cônsul-geral Byoung-Jin Han sai do prédio e é recebido como estrela de rock. O grito que ecoa pelas ruas da capital mexicana é ... "Irmão, agora você é mexicano!"

Cenas parecidas se repetem em consulados coreanos por todo o país. Ninguém combinou nada. Foi um impulso coletivo, espontâneo, de gratidão entre duas nações que não dividem idioma, continente ou história ... mas que naquele dia dividiram uma alegria enorme.

Trinta e seis anos antes, em mil novecentos e noventa, outra seleção vivia uma experiência tão improvável que parecia roteiro de filme. A Irlanda, sob o comando do inglês Jack Charlton, disputava sua primeira Copa do Mundo. Chegou à Itália sem grandes expectativas. Empatou os três jogos da fase de grupos. Passou pelo sufoco dos pênaltis contra a Romênia. E, de repente, estava nas quartas de final ... com o jogo marcado em Roma.

Charlton, conhecido pelo humor ácido, tinha feito uma promessa semanas antes, meio na brincadeira. O fisioterapeuta Mick Byrne, católico devoto, vivia pedindo para conhecer o Papa. Charlton disse ... "Tá bom, Mick, se a gente chegar a Roma, eu te levo pra ver o Papa." Ninguém levou a sério.

Mas a Irlanda chegou. E Mick cobrou a promessa. Com a ajuda de um monsenhor que viajava com a delegação, a audiência foi organizada. O time inteiro, famílias incluídas, foi ao Vaticano na véspera da partida contra a Itália.

A audiência durou quase três horas. A sala era imensa. Bispos do mundo inteiro discursavam. Charlton, impaciente, mal conseguia ficar parado. Mas então veio o momento. O Papa João Paulo Segundo passou pelo grupo irlandês e parou diante do goleiro Packie Bonner. Colocou a mão em seu ombro, inclinou-se e, em inglês quebrado, revelou que ele também havia sido goleiro na juventude. Um bramkarz, como se diz em polonês. Os dois ficaram ali, gesticulando com as mãos, simulando defesas, conversando sobre goleiros diante das câmeras do mundo inteiro.

A foto estampou todos os jornais irlandeses no dia seguinte. Para Bonner, católico praticante, foi um momento que ele nunca esqueceu.

No dia seguinte, a Irlanda perdeu para a Itália por um a zero. Gol nos trinta e oito minutos do primeiro tempo, com uma saída de gol mal calculada de Bonner. No vestiário, depois da derrota, Charlton agradeceu a todos. Disse que tinham feito uma Copa excepcional. Desejou boas férias. E, antes de sair, virou-se para Bonner e soltou ... "Ah, e Packie ... o Papa teria defendido aquele gol."

A Irlanda inteira riu. E ainda ri. Quando o time voltou para Dublin, mais de quinhentas mil pessoas foram às ruas recebê-los. Para um país que vivia uma recessão severa e duas décadas de conflito no norte, aquelas três semanas de Copa foram uma pausa coletiva na tristeza. Alguns irlandeses dizem, meio a sério, que o bom humor de noventa ajudou a tirar o país da crise.

Mas se existe uma história que mostra o futebol no seu estado mais puro, como janela para o impossível, ela começa num campo de refugiados em Gana.

Buduburam. Final dos anos noventa. Um acampamento precário no litoral ganês, montado para receber liberianos fugindo da guerra civil. Barracos de compensado e telha de zinco. A busca diária por água limpa e comida já era uma vitória. Ali nasceu Alphonso Davies.

Seu pai, Debeah, resumiu a vida no campo numa frase ... "A única maneira de sobreviver, às vezes, era carregar armas." Quando Alphonso tinha cinco anos, a família conseguiu emigrar para o Canadá. Se instalaram em Edmonton, no extremo norte, onde os invernos chegam a menos quarenta graus.

O menino não falava inglês direito. Tinha dificuldade na escola. Mas com uma bola nos pés, a conversa era outra. Um olheiro chamado Marco Bossio o viu jogar num torneio de rua e disse depois ... "Havia algo especial naquele garoto. Pés rápidos como um relâmpago." Aos catorze anos, Davies entrou na academia do Vancouver Whitecaps. Aos dezesseis, se tornou o jogador mais jovem a marcar numa Gold Cup. Aos dezoito, assinou com o Bayern de Munique por um valor recorde da MLS.

Em dois mil e vinte e dois, no Catar, o Canadá disputava sua primeira Copa do Mundo em trinta e seis anos. No primeiro jogo, contra a Bélgica, Davies perdeu um pênalti. A dor foi enorme. Mas no segundo jogo, contra a Croácia, o roteiro mudou. Sessenta e sete segundos de jogo. Um cruzamento perfeito de Tajon Buchanan pela direita. Davies subiu mais alto que todo mundo e cabeceou para o gol. O gol mais rápido daquela Copa do Mundo. E o primeiro gol do Canadá na história das Copas masculinas.

O gol levou sessenta e sete segundos. A jornada até ele levou trinta e seis anos, se você contar pela seleção. Ou uma vida inteira, se você contar pela criança que nasceu num barraco de compensado sem saber se haveria comida no dia seguinte.

O Canadá acabou perdendo o jogo por quatro a um. Não passou da fase de grupos. Mas depois da partida, Davies postou uma mensagem que dizia ... "Um garoto nascido num campo de refugiados não deveria ter chegado aqui. Não deixe ninguém dizer que seus sonhos são irreais."

E quando os sonhos se realizam no futebol, a alegria pode ser tão grande que não cabe em lugar nenhum.

Dezoito de dezembro de dois mil e vinte e dois. A Argentina, liderada por Lionel Messi, vence a França na final da Copa do Mundo no Catar. O jogo, por si só, já seria lendário ... três a três no tempo regulamentar, com Mbappé marcando três gols, e vitória argentina nos pênaltis.

Mas o que aconteceu depois foi ainda mais extraordinário.

Quando o avião da seleção pousou em Buenos Aires, às duas e quarenta da madrugada, milhares de torcedores já esperavam no aeroporto de Ezeiza. Messi desceu do avião segurando a taça. O governo argentino havia declarado feriado nacional.

Na manhã seguinte, os jogadores subiram num ônibus aberto e começaram o desfile pela cidade. E então Buenos Aires mostrou o que acontece quando quatro milhões de pessoas tentam ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. As ruas desapareceram. Não havia mais calçada nem asfalto ... só gente. Torcedores subiam em postes de luz, paradas de ônibus, telhados, árvores, qualquer coisa que aguentasse o peso de uma pessoa.

O ônibus, que deveria seguir até o Obelisco, monumento histórico no centro da cidade, mal conseguia andar. Depois de mais de quatro horas rastejando entre a multidão, a logística entrou em colapso. A segurança não conseguia abrir caminho. O desfile teve que ser interrompido.

A solução? Helicópteros. Os jogadores foram transferidos do ônibus para aeronaves militares e sobrevoaram Buenos Aires com a taça. A porta-voz do governo chamou o desfecho de "explosão de felicidade do povo." E um pai que estava no centro com a filha de sete anos resumiu tudo com calma ... "Não estou decepcionado. Nós vivemos a festa."

Cinco por cento da população do país, segundo algumas estimativas, saiu de casa naquele dia. Não para protestar. Não para reivindicar nada. Apenas para celebrar juntos.

O QUE FAZER COM ESSA INFORMAÇÃO

A Copa do Mundo de dois mil e vinte e seis começa em junho, nos Estados Unidos, no Canadá e no México. Vai ser a maior da história ... quarenta e oito seleções, cento e quatro jogos. E com ela vem a pergunta que vale para qualquer grande celebração coletiva ... como aproveitar isso da melhor forma?

Primeiro, a questão da comemoração. O desfile argentino é uma aula. Quatro milhões de pessoas na rua geraram cenas lindas ... mas também geraram riscos reais. Torcedores se machucaram. O trânsito parou. A logística desmoronou. Comemorar de forma saudável não significa comemorar menos. Significa se hidratar, evitar álcool em excesso, combinar pontos de encontro com amigos e família, e lembrar que a alegria não precisa de imprudência para ser intensa.

Segundo, o que essas histórias nos dizem sobre fronteiras. Mexicanos abraçando coreanos. Irlandeses rindo com o Papa. Um garoto bósnio virando herói continental. Um refugiado liberiano marcando gol pelo Canadá. O futebol não resolve conflitos diplomáticos, não elimina preconceitos e não substitui política pública. Mas cria, por algumas semanas, uma zona temporária onde pessoas que normalmente não se olhariam nos olhos dividem a mesma emoção. Isso tem valor.

Terceiro, a Copa que vem é a primeira em três países simultaneamente. Isso vai colocar centenas de milhares de torcedores cruzando fronteiras entre Estados Unidos, México e Canadá. É uma oportunidade enorme para o turismo e para a economia local de cidades-sede. Mas também é um desafio logístico sem precedentes ... vistos, transporte, segurança, hospedagem. Para quem planeja ir, a hora de organizar é agora. Para quem vai assistir de casa, vale lembrar que a experiência coletiva, mesmo num bar ou na sala de estar, é o que transforma um jogo em memória.

Por fim, talvez a lição mais simples de todas. O que um gandula de catorze anos, um cônsul sul-coreano tomando tequila e um goleiro conversando com o Papa têm em comum? Nenhum deles planejou o que aconteceu. Estavam no lugar certo, na hora certa, e disseram sim quando o momento apareceu. A Copa do Mundo é feita de jogos. Mas o que a gente lembra, décadas depois, são as histórias das pessoas ao redor do campo.

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