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Editora: 12min
Envelhecer altera o cérebro mesmo em quem nunca vai desenvolver demência. Uma das mudanças mais comuns aparece na substância branca, formada principalmente pelas fibras nervosas que conectam diferentes regiões do cérebro e permitem que elas troquem informações em funções como memória, atenção e movimento. Com o tempo, surgem ali as chamadas hiperintensidades, pequenas áreas que ficam mais claras nos exames de ressonância magnética e que podem estar relacionadas a alterações nos vasos sanguíneos menores e a danos nas fibras. Isoladamente, elas não significam que a pessoa tenha demência nem que vá ter Alzheimer. O que importa é a quantidade dessas alterações e a velocidade com que se acumulam ao longo dos anos.
Vale também entender de onde vem quase tudo o que se lê sobre hábitos e saúde cerebral. São estudos observacionais: pesquisadores acompanham grupos de pessoas e comparam características que já ocorreram. Esse desenho mostra associação entre duas coisas, não prova que uma causou a outra. Há ainda um tipo mais frágil, o transversal, que avalia um grupo em um único momento. Como explicou o nutrólogo Celso Cukier, do Einstein Hospital Israelita, à Folha, é como um retrato daquele instante: ajuda a formular hipóteses, mas não traz comprovação.
É com esse pano de fundo que uma sequência de pesquisas voltou a circular recentemente, sobre menopausa, dieta, vitamina C, remédios de osteoporose e o corpo de uma mulher que viveu 117 anos. Em paralelo, especialistas se reúnem em São Paulo, no dia 19 de setembro, num encontro gratuito no Edifício Bunkyo, na Liberdade, para discutir prevenção, diagnóstico e cuidado com demências.
Um estudo publicado em agosto na revista Jama Network Open acompanhou 2.603 mulheres por até 18 anos e encontrou associação entre a idade da menopausa e mudanças na estrutura e no funcionamento do cérebro décadas depois. Entre as que passaram pela menopausa espontânea, aquela que ocorre naturalmente e não por cirurgia ou tratamento, uma diferença de cinco anos na idade em que ela aconteceu esteve associada a cerca de 15% mais volume de hiperintensidades da substância branca ao longo de uma década. Quanto mais cedo a menopausa, mais rápido o acúmulo.
As mulheres que passaram pela transição mais cedo também tiveram declínio mais acelerado da cognição global e, sobretudo, da memória episódica, usada para lembrar acontecimentos pessoais. Os autores levantam a hipótese do estrogênio, hormônio cuja produção cai na menopausa e que participa do funcionamento cerebral e da regulação da inflamação. Mas consideram outra explicação possível: um envelhecimento biológico mais acelerado que estaria por trás tanto da menopausa precoce quanto das alterações cerebrais. O trabalho é observacional, a idade da menopausa foi informada pelas próprias participantes e não permite concluir que adiar a menopausa evitaria qualquer coisa.
Pesquisadores da Universidade Murdoch e da Alzheimer's Research Australia acompanharam 185 idosos de Perth por mais de sete anos e classificaram a alimentação deles em dois padrões: um ocidental, com carnes vermelhas e processadas, salgadinhos, pizza, doces, grãos refinados e cerveja, e um prudente, com frutas, legumes, verduras, alho e grãos integrais. Nenhum tinha diagnóstico de demência no início, e todos foram testados para a variante APOE ε4, o fator de risco genético comum mais forte para a doença de Alzheimer.
O resultado, publicado na revista Nutrients, é específico: entre os portadores dessa variante, maior adesão ao padrão ocidental esteve associada a um declínio mais rápido da atenção. Entre quem não a carregava, os pesquisadores não encontraram associação significativa nem para um padrão nem para o outro. "O que comemos pode ser apenas uma parte de um cenário muito mais amplo de envelhecimento cerebral saudável", afirmou em comunicado a autora principal, a médica Carolina Blagojevic Castro. Ela ressalta que o estudo é observacional e que são necessárias mais pesquisas antes que o achado vire recomendação alimentar baseada em risco genético.
Cientistas japoneses analisaram exames de imagem e taxas de vitamina C no sangue de 2.044 idosos e encontraram, em artigo na PlosOne, um elo entre o nutriente e maior integridade estrutural do cérebro. O desenho é transversal, ou seja, o mais frágil da lista. Como pondera Cukier, é possível que parte dos participantes já tivesse um estilo de vida saudável e, por isso, bons níveis da vitamina no momento do exame.
O ponto que ele faz à Folha é que o resultado não atesta o uso de suplementos: "A recomendação é a de investir em alimentação rica em frutas, hortaliças, grãos, entre outros itens que oferecem substâncias antioxidantes e efeitos protetores." A vitamina C é hidrossolúvel, o excedente é eliminado pela urina, e o excesso está associado a maior risco de cálculo renal. Fora dos cítricos, aparece em acerola, caju, goiaba, morango, mamão, pimentão, couve, brócolis e tomate.
Um estudo feito em Hong Kong com 121.492 adultos de 60 anos ou mais, todos recém-diagnosticados com osteoporose ou vindos de uma fratura grave e nenhum deles em tratamento anterior para a doença, associou o uso de bisfosfonatos contendo nitrogênio a um risco 16% menor de Alzheimer e demências relacionadas, na comparação com quem não tomava medicamento para osteoporose. Frente a quem usava outros tipos de remédio para o osso, a diferença foi de 24%.
"Evidências emergentes apontam para um eixo osso-cérebro, sugerindo uma ligação estreita entre a saúde óssea e a cerebral", disse à Fox News Digital o autor do estudo, Ching-Lung Cheung, professor associado da Universidade de Hong Kong. Ele é direto sobre o limite: "Nossos achados, portanto, não provam que o uso de bisfosfonatos reduza o risco de demência; isso precisa ser confirmado em um ensaio clínico." O trabalho, publicado na revista Alzheimer's & Dementia, envolveu apenas população chinesa, não tinha teste cognitivo de partida e não justifica prescrever esses remédios para prevenir demência.
A espanhola Maria Branyas morreu em agosto de 2024, aos 117 anos. Pesquisadores do Instituto de Pesquisa da Leucemia Josep Carreras analisaram seu organismo em detalhe e publicaram o resultado na Cell Reports Medicine em outubro de 2025. Encontraram sinais típicos do envelhecimento extremo, como telômeros muito curtos e células de defesa envelhecidas, ao lado de características associadas à proteção do cérebro e do coração e de um microbioma intestinal dominado por bactérias consideradas benéficas. A idade biológica estimada por marcadores epigenéticos apareceu abaixo da idade cronológica dela.
A leitura dos autores é que diferentes partes do organismo podem envelhecer em ritmos distintos. E eles fazem questão de dizer que não é possível atribuir aquela longevidade a hábitos específicos: alimentação, relações sociais e ausência de comportamentos de risco aparecem apenas como fatores possíveis.
Nenhum desses achados é prescrição. Menopausa, genética, vitamina C e remédio de osso apareceram associados a desfechos cerebrais, e associação não é causa comprovada. Tratar qualquer um deles como solução isolada é justamente o erro que os próprios autores pedem para evitar.
O que sobra de prático é o conjunto já bem estabelecido de fatores modificáveis, que é também o que está na pauta do encontro de São Paulo: atividade física, alimentação, sono, convivência social, aprendizado e estímulos intelectuais. A especialista em estimulação cognitiva Erica Oliveira resume que atividades que desafiam memória, atenção, raciocínio e resolução de problemas favorecem a reserva cognitiva, e que isso só funciona combinado com exercício, sono reparador, alimentação equilibrada e relações sociais ativas. Vale também levar os fatores pessoais para a conversa com o médico, em vez de esperar que um suplemento resolva: histórico familiar de Alzheimer, idade em que a menopausa ocorreu, saúde dos ossos.
Para os próximos meses, o que observar é se algum desses resultados observacionais sai do papel e vira ensaio clínico, o passo que Cheung descreve como o próximo no caso dos bisfosfonatos e que Blagojevic Castro considera necessário antes de transformar dieta e genética em recomendação. Há ainda o lado da organização do cuidado, que o encontro discute a partir da Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências, do Plano Nacional de Demências e de uma pergunta que dá nome a um dos painéis: quem cuidará de nós em 2050.
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