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Editora: 12min
Depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, a porta da cabine de comando de um avião comercial passou a ser blindada e trancada por dentro. A lógica é simples: ninguém de fora entra. O problema é que essa mesma lógica supõe que a ameaça está sempre do lado de fora. Quando ela está dentro, a porta deixa de proteger os passageiros e passa a proteger o agressor.
Foi exatamente isso que aconteceu na manhã de quarta-feira, 30 de setembro, no voo FZ1073 da Flydubai, que saiu de Dubai com destino a Tel Aviv levando 174 passageiros e oito tripulantes. Cerca de duas horas e meia após a decolagem, segundo o site de rastreamento Flightradar24, o Boeing 737 Max 8 despencou de 33 mil para 17 mil pés (de cerca de 10 mil para 5,1 mil metros) em aproximadamente um minuto. Em seguida, a aeronave transmitiu o código 7700, que sinaliza emergência geral, e depois o 7500, usado para indicar interferência ilícita, incluindo sequestro. Esses códigos precisam ser digitados manualmente de dentro do cockpit.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que um dos pilotos esfaqueou o outro e aparentemente tentou derrubar o avião. O ferido foi o comandante, o indiano Smit Machchhar, que trabalhou onze anos na companhia indiana SpiceJet antes de entrar na Flydubai em 2022 e acumula mais de 9.750 horas de voo, segundo seu perfil no LinkedIn.
Mesmo gravemente ferido e caído no chão, Machchhar conseguiu acionar o destravamento da porta da cabine. Foi o que permitiu que o restante do avião interviesse. Passageiros e tripulantes entraram, imobilizaram o agressor e o amarraram com abraçadeiras plásticas e fios de fones de ouvido, segundo relatos de quem estava a bordo.
O avião pousou às 9h45 no horário local no aeroporto Príncipe Sultan bin Abdulaziz, em Tabuk, no noroeste da Arábia Saudita. Os dois pilotos foram hospitalizados. Nenhum passageiro ficou ferido. Por volta das 17h40, todos seguiram viagem em uma aeronave substituta da Flydubai e chegaram a Tel Aviv.
A violência da descida chamou atenção de especialistas. Philip Kean, diretor da escola de aviação na Nova Zelândia onde Machchhar se formou, classificou de milagroso o fato de a aeronave, não projetada para esse tipo de mergulho, não ter se despedaçado. Passageiros relataram que parte do leme, na cauda, foi arrancada.
A segurança do voo dependeu, na prática, de pessoas que não estavam escaladas para aquela função. Yaniv Hayun, um dos passageiros que entraram na cabine, contou que o agressor estava junto aos instrumentos, entre os dois assentos, tentando destruir os controles. Hayun disse ter aplicado um golpe de estrangulamento para arrastá-lo para fora e que depois puxou os manches, estabilizando parcialmente a aeronave. Ele explicou a Netanyahu que assistia à série documental Air Crash Investigation.
Outro passageiro, Zvika Manes, relatou ao veículo israelense Calcalist que entrou na cabine para ajudar a conter o agressor. O dentista Shota Musayev prestou atendimento ao comandante ferido e também ajudou a amarrar o atacante. O presidente israelense, Isaac Herzog, anunciou que pretende recomendar a Medalha Presidencial de Heroísmo Civil a israelenses que participaram da ação, entre eles Hayun, Manes, Asaf Rajuan e Musayev.
Mas quem pousou o avião foi um segundo par de pilotos da Flydubai que viajava a bordo para assumir o voo seguinte. A companhia afirmou que a aeronave foi controlada por tripulantes em serviço que viajavam no voo, sem detalhar quem eram. O passageiro Almog Itali disse que os pilotos extras eram europeus, um deles britânico. David Soucie, analista de segurança aérea da CNN, observou que é incomum haver pilotos adicionais a bordo, a menos que estejam sendo reposicionados para outros voos.
Esta é a parte em que o caso ainda não tem resposta. Uma fonte próxima à investigação disse à agência Associated Press que todos os cenários estão sendo apurados, de terrorismo a transtornos mentais, e que nada está descartado. Participam das apurações os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, Israel, Omã e os Estados Unidos.
O Ministério do Interior saudita divulgou que a investigação preliminar indicou que o comandante foi agredido pelo copiloto, resultando em ferimentos nos dois. O procurador-geral dos Emirados, Hamad Saif Al Shamsi, abriu investigação para determinar se houve vínculo com atividade ou intenção terrorista e se houve planejamento ou direção prévia. Os Emirados alegam jurisdição porque a aeronave é registrada no país.
As versões políticas, porém, correram mais rápido que a apuração. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, falou em tentativa de ataque terrorista jihadista, sem indicar em que informação se baseava. Netanyahu disse à Fox News que o copiloto passou por doutrinação islâmica radical e que, após ser contido, gritava "me matem". Questionado sobre envolvimento iraniano, respondeu que era cedo demais para dizer. Donald Trump declarou que o copiloto "talvez fosse um terrorista ou talvez um maluco" e, no dia seguinte, afirmou a jornalistas que, com base no que vinha ouvindo, a resposta sobre um vínculo com a Guarda Revolucionária iraniana seria sim. A emissora israelense Kan, citando fontes de segurança, informou que as apurações apontavam que o copiloto agiu sozinho.
Omã, que não tem relações diplomáticas com Israel, não se manifestou. A Flydubai afirmou que as razões e motivos continuam desconhecidos e pediu que se evitem especulações prematuras.
A Flydubai é uma operadora dos Emirados, e a certificação e supervisão de segurança cabem à autoridade de aviação civil do país. A Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação informou à Reuters que isso inclui garantir que a empresa cumpra os requisitos sobre tripulações e aptidão para voar. O padrão exige licença profissional válida, habilitação no tipo de aeronave, certificado médico Classe 1 em dia e proficiência em inglês, além de experiência mínima. O exame médico cobre saúde física e mental, e pilotos com condições psiquiátricas relevantes podem ser encaminhados para avaliação adicional.
Saj Ahmad, analista-chefe da consultoria StrategicAero Research, resumiu o limite do sistema: a triagem é minuciosa, mas é uma fotografia de um momento, e não revela o que a pessoa pode fazer depois.
Há ainda a camada específica israelense. Segundo a ministra dos Transportes de Israel, Miri Regev, um acordo com os Emirados estabelece que só pilotos com passaporte de países que mantêm relações diplomáticas com Israel podem pousar no país. O copiloto era de Omã, que não tem essas relações. Netanyahu reconheceu a existência de uma brecha. Doron Spielman, porta-voz do gabinete, declarou que o país passará a conhecer a identidade de todos os pilotos que voarem para Israel e a fazer algum tipo de verificação de segurança.
Israel vota em 27 de outubro, na primeira eleição desde os ataques de 7 de outubro de 2023, e o caso entrou na disputa no mesmo dia. O ministro Itamar Ben Gvir disse que o episódio prova a necessidade de elevar a doutrina de segurança a outro patamar e seguir até a vitória total no Irã, no Líbano, em Gaza e na Cisjordânia. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, afirmou que quem tenta derrubar um avião com israelenses deve pagar como se os tivesse assassinado.
A oposição acusou o governo de politizar o caso. Yair Golan, dos Democratas, falou em desprezo pelas tentativas de fazer política barata. Avigdor Liberman disse que, enquanto pessoas lutavam por suas vidas, articuladores buscavam manipular a narrativa. Yair Lapid afirmou que a reunião de segurança da véspera não incluiu nenhum alerta sobre voos, contestando a declaração de Netanyahu de que havia indícios de ataques antes da eleição. Naftali Bennett, principal adversário de Netanyahu, limitou-se a elogiar os passageiros.
O chanceler Gideon Saar conversou com seu colega emiratense e descreveu o caso, em conversa com embaixadores israelenses, como uma tentativa de atentado contra os israelenses, os Emirados e os Acordos de Abraão, o pacto de normalização de relações assinado em 2020.
A investigação conjunta é o ponto a acompanhar, e ela tem consequências que vão além do voo. Se for confirmado vínculo do copiloto com o Irã ou com redes jihadistas, a repercussão sobre os Acordos de Abraão e sobre a relação entre Israel e os países do Golfo será imediata. Se o laudo apontar outra coisa, as declarações feitas nas primeiras horas ficam expostas.
Três coisas são verificáveis nas próximas semanas. Se a Flydubai, que suspendeu os voos de e para Israel, retoma a rota. Se a mudança nos protocolos de triagem de pilotos, anunciada por Israel e discutida nos Emirados, vira regra escrita ou fica na declaração. E como o episódio aparece na reta final da campanha israelense.
Para quem voa, o que este caso mostra não é um risco novo de embarcar, mas uma dependência que o sistema não admite em voz alta: a porta blindada protege contra a ameaça externa, e a resposta à ameaça interna ficou por conta de quem estava na poltrona. Na sua leitura dos próximos dias, você vai esperar o laudo da investigação ou já formou opinião pelas declarações que saíram nas primeiras horas?
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