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Editora: 12min
O limite de 1,5°C é o número que está no centro do Acordo de Paris, o pacto em que os governos assumem compromissos de cortar emissões de gases do efeito estufa. Ele não mede a temperatura de um dia nem de uma cidade: mede quanto a temperatura média do planeta subiu em relação ao nível anterior à industrialização, antes da queima em larga escala de carvão, petróleo e gás.
A razão de esse número alcançar quem nunca acompanhou uma negociação climática está no que ele representa. Cada fração de grau acima de 1,5°C aumenta o risco de mudanças irreversíveis em mantos de gelo, no carbono preso no solo congelado, na circulação dos oceanos e nos corais, além de impactos humanos devastadores, segundo o novo relatório da ONU. Para o climatologista Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia, que não participou do documento, cada 0,1°C adicional corta de forma permanente cerca de 1,2% do PIB global e empurra aproximadamente 140 milhões de pessoas a mais para climas perigosamente quentes.
É nesse contexto que aparece o relatório anual de lacuna de emissões do Programa da ONU para o Meio Ambiente (Unep), publicado antes da COP31, a próxima rodada de negociações climáticas, que acontece na Turquia no mês que vem. Edições anteriores já expressavam ceticismo sobre a meta. Esta é a primeira em que os autores afirmam que perder a marca é "iminente e inevitável".
O relatório mudou a pergunta que faz. Em vez de medir a distância entre as promessas dos países e o que seria preciso para ficar abaixo de 1,5°C, ele passou a examinar cenários de "ultrapassagem": quanto a temperatura sobe no pico e em quanto tempo volta a cair.
No cenário mais contido, o aquecimento chegaria ao máximo entre 1,7°C e 1,8°C e retornaria a 1,5°C ou menos até 2100, com cortes de emissões e uso de tecnologias de remoção de carbono.
"Estamos dizendo agora que essa janela se fechou, mas podemos abri-la de novo tornando a ultrapassagem a mais breve possível", afirmou a diretora-executiva da Unep, Inger Andersen, em teleconferência com jornalistas. Ela defendeu que os países mantenham a meta de 1,5°C. "Não é hora de jogar a toalha e desistir. Trata-se de encontrar o caminho de volta o mais rápido possível."
A climatologista Kate Marvel, da organização Project Drawdown, que não participou do relatório, resumiu a leitura assim: "Não há nada de especial em nenhum limiar de temperatura. A unidade certa não é o grau, é a tonelada, de dióxido de carbono, metano e outros gases do efeito estufa." Passar de 1,5°C, disse ela, é sinal de que o mundo não está se movendo rápido o bastante, mas não significa que esteja condenado.
Para seguir pelo cenário de menor ultrapassagem, as emissões globais precisariam cair 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, em relação aos níveis de 2025. Na prática, isso exigiria triplicar a capacidade de eletricidade renovável até 2035 e eliminar o carvão até 2040, além de ampliar muito as tecnologias de remoção de carbono, que até agora não foram comprovadas nessa escala.
O que está sobre a mesa é bem menor. Se todas as promessas atuais forem cumpridas, o corte seria de 5% a 8% até 2030 e de 11% a 15% até 2035, o que corresponde a um pico de aquecimento de cerca de 2,6°C. Mantidas apenas as políticas em vigor, o pico chegaria a cerca de 2,8°C. Mesmo no cenário em que os países cumprem as promessas e também as metas de neutralidade de carbono, o aquecimento atinge 2,1°C no pico.
O relatório também dá a medida do tempo perdido: a cada cinco anos de emissões nos níveis atuais, o pico de aquecimento sobe cerca de 0,1°C. As emissões globais de 2025 ficaram em patamar parecido com o do ano anterior, mas os analistas da Unep evitaram chamar isso de pico ou estabilização, dada a incerteza geopolítica e a dependência de combustíveis fósseis, apesar do forte crescimento das renováveis. Um caminho apontado para frear o aquecimento rapidamente é cortar metano, gás cerca de 80 vezes mais potente que o dióxido de carbono.
Segundo o relatório, a estimativa de 2,8°C subiu em relação ao ano passado em parte por causa da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e da retirada de seus compromissos de redução. O país é o segundo maior emissor, atrás da China. Na análise da Unep, as promessas apresentadas no ano passado, quando os governos deveriam renovar seus compromissos na COP30, no Brasil, ficaram visivelmente fracas.
A correção dessa defasagem deveria vir do balanço global, mecanismo do Acordo de Paris que avalia as metas de emissões e cuja próxima rodada está marcada para 2028. Aí entra a segunda disputa. Reunido em Adis Abeba, o IPCC, painel da ONU que organiza a avaliação científica sobre o clima, não chegou a acordo sobre a data de publicação de seu próximo grande relatório. Países europeus e outros queriam 2028, a tempo do balanço. Arábia Saudita, Índia e China estão entre os que defendem adiar para 2029, com o argumento de que isso daria aos países em desenvolvimento mais tempo para absorver as conclusões. Os relatórios do IPCC saem normalmente a cada cinco a sete anos, e o sexto foi publicado em 2021.
Ministros de mais de 30 países assinaram carta afirmando que separar o ciclo político da ONU das evidências do IPCC "minaria o esforço global de enfrentar a crise climática". Entre os 35 signatários, cerca de metade eram nações industrializadas, e também assinaram o presidente do grupo dos 44 países mais pobres e ministros de pequenos Estados insulares. "É uma tragédia que um punhado de países continue a adiar os relatórios do IPCC", disse Tina Stege, enviada climática das Ilhas Marshall. O presidente do painel, Jim Skea, pedira na abertura da reunião que os países encerrassem o impasse, alertando para o "significado organizacional e reputacional" da decisão.
Em Longyearbyen, vila norueguesa no arquipélago de Svalbard que aquece de cinco a sete vezes mais rápido que a média mundial, os 2.600 moradores estão proibidos de beber água da torneira. O degelo do permafrost expôs rochas que liberam metais pesados no lago que abastece a vila, e os níveis de manganês chegaram a 25 vezes o recomendado pelas autoridades de saúde norueguesas. Pesquisadores dizem que o caso pode ser um prenúncio do que ocorrerá em outras comunidades do Ártico.
Um estudo conjunto do World Weather Attribution e do Climate Central concluiu que a mudança climática acrescentou cerca de 10 km/h à força do furacão Polo, que atingiu o México no mês passado, e tornou as condições que o alimentaram 23 vezes mais prováveis. O El Niño contribuiu com um pouco menos. A análise rápida ainda não passou por revisão por pares, e três cientistas ouvidos pela agência AP disseram acreditar que ela subestima o peso do aquecimento.
Em outra frente, um levantamento publicado na revista BioScience apontou que sete dos 16 sinais vitais do planeta acompanhados pelos pesquisadores nunca estiveram em estado tão extremo. Segundo essa análise, o ritmo do aquecimento passou de cerca de 0,05°C por década entre 1880 e 1970 para 0,36°C por década desde 2010.
O termômetro da próxima etapa é a COP31, na Turquia, no mês que vem. Vale observar duas coisas concretas. A primeira é se os países chegam com compromissos mais fortes que os apresentados na COP30, considerados fracos pela própria Unep. Sem isso, o cenário de 2,6°C a 2,8°C deixa de ser alerta e vira trajetória padrão. A segunda é se a reunião do IPCC é retomada e a data do próximo relatório é definida a tempo do balanço global de 2028, o mecanismo que deveria cobrar a correção de rota.
Ao acompanhar as notícias, dois números dizem mais que os anúncios. Um é se as emissões globais voltam a subir ou confirmam a estabilização observada em 2025. O outro é o que acontece com o metano, apontado pela Unep como a via mais rápida para conter o aquecimento no curto prazo.
Para Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam de Pesquisa em Impacto Climático, a conta já está dada: se todos os compromissos nacionais forem cumpridos, as emissões ficarão em torno de 50 bilhões de toneladas de CO2 equivalente por ano em 2035, quando deveriam estar abaixo de 35 bilhões. "A ciência já está clara. Fechar essa lacuna é uma questão de ação política, não de falta de evidência científica", afirmou.
Diante de um limite que a própria ONU agora considera perdido, qual decisão que você acompanha de perto, no seu trabalho, na sua cidade ou no seu consumo, ainda é tomada como se o aquecimento fosse parar em 1,5°C?
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