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Editora: 12min
Uma vez por ano, os 193 países que integram as Nações Unidas mandam seus chefes de Estado e de governo ao mesmo prédio em Nova York para falar, um depois do outro, diante do plenário. É o debate geral da Assembleia Geral, principal órgão deliberativo da ONU. Cada líder apresenta as posições e prioridades do seu país sobre os temas internacionais do momento. Não há votação no fim nem obrigação de acordo: o valor do encontro está em reunir, na mesma semana e no mesmo lugar, quase todos os governos do planeta, o que transforma os corredores numa rodada gigante de reuniões bilaterais.
A 81ª sessão aconteceu entre 22 e 28 de setembro. O Brasil abriu os discursos, como faz por tradição desde 1955. O tema oficial escolhido foi "restaurar a confiança, gerenciar a transformação", formulação que, como observou um artigo do Estadão, carrega uma admissão: se é preciso restaurar a confiança, é porque ela se perdeu.
Foi também a última abertura de António Guterres como secretário-geral. Ele deixa o cargo no fim de dezembro, depois de dez anos, e ainda não se sabe quem o sucederá. No discurso inicial, disse que a violência e a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada despertam o "espectro da limpeza étnica", cobrou a reforma do Conselho de Segurança e lembrou que a África segue sem qualquer assento permanente no órgão.
Xi Jinping não apareceu em Nova York, mas estava nos Estados Unidos na mesma semana, em visita de Estado a Washington, recebido por Donald Trump com tapete vermelho e jantar na Casa Branca. Foi sua primeira visita de Estado ao país em mais de dez anos. A China foi representada no plenário pelo vice-presidente Han Zheng. Segundo uma fonte do governo chinês ouvida pelo Valor, Pequim priorizou transmitir a mensagem de que está em pé de igualdade com Washington, e a parada em Nova York, que chegou a ser estudada, foi descartada em meados de agosto. A última vez que Xi discursou presencialmente na sede da ONU foi em 2015.
Vladimir Putin também não vai desde 2015; por decreto, quem falou pela Rússia foi o chanceler Sergei Lavrov. O chanceler alemão Friedrich Merz ficou em casa pelo segundo ano seguido, pressionado por derrotas da CDU em eleições regionais em Saxônia-Anhalt, Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, e enviou o ministro do Exterior Johann Wadephul. Faltaram ainda Giorgia Meloni, Narendra Modi, Cyril Ramaphosa e Abdel Fatah al Sisi. Mahmoud Abbas não faltou por escolha: o governo Trump negou visto ao líder palestino pelo segundo ano consecutivo, e ele falou por vídeo. Volodimir Zelensky, que discursou na quarta-feira, lamentou a ausência de Xi, dizendo que o chinês pode influenciar a Rússia mais do que muita gente.
Lula abriu o debate geral pela décima vez e falou, sobretudo, para dentro. A doze dias do primeiro turno da eleição brasileira, marcada para 4 de outubro, levou à tribuna o fim da escala 6x1, a defesa do PIX contra "pressões de multinacionais", a crítica à indústria das bets e o combate ao crime organizado. Criticou a ingerência externa em processos eleitorais e disse que o Brasil "não cabe no quintal de ninguém", sem citar nominalmente os Estados Unidos. Fechou afirmando que os brasileiros decidirão em outubro "entre democracia e negacionismo". Lula disputa a reeleição com o senador Flávio Bolsonaro, recebido por Trump na Casa Branca em maio; a equipe jurídica do senador apresentou ao TSE uma representação contra o discurso.
Trump falou logo depois, e também para casa. Exaltou emprego, investimento estrangeiro e o combate à imigração ilegal, e disse que fechará um acordo com o Irã "logo após as eleições" de meio de mandato, em novembro. A BBC Verify checou parte das afirmações. Trump disse que a navegação pelo estreito de Ormuz voltou ao normal, mas a firma de inteligência marítima Kpler estimou entre 9 e 24 travessias diárias na semana anterior, contra cerca de 140 antes da guerra. Ele também afirmou ter encerrado oito guerras; vários dos conflitos citados duraram poucos dias e, em alguns, as hostilidades continuaram.
Os dois não se encontraram. A delegação americana presente, que incluía o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o secretário do Comércio, Howard Lutnick, não aplaudiu Lula, e Trump não estava no salão. O brasileiro preferiu reuniões com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e com Bernie Sanders, e voltou ao Brasil em menos de 48 horas.
Antes de embarcar, Benjamin Netanyahu publicou um vídeo acusando Mamdani de apoiar o Hamas e de "incitar tumultos contra os judeus de Nova York". O prefeito respondeu chamando o premiê de criminoso de guerra e lembrando o mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional em 2024. Reconheceu, porém, que não tem autoridade para executá-lo, já que os Estados Unidos não integram o tribunal.
Na quinta-feira, quando Netanyahu discursou, dezenas de delegações deixaram o plenário, entre elas a brasileira. A delegação palestina havia pedido por escrito que outras missões se somassem ao protesto. Houve vaias, aplausos da equipe israelense e pedidos de ordem da presidência da sessão. "Se houver outros covardes morais que ainda não deixaram este plenário, por favor, façam-no agora", disse o premiê, que em seguida defendeu a destruição das instalações nucleares iranianas, classificou a acusação de genocídio como "a maior mentira do século" e atacou Reino Unido e França. Não houve encontro com Trump, que já estava em Washington recebendo Xi. Israel vai às urnas no mês que vem.
Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela desde a captura de Nicolás Maduro por forças americanas em Caracas, em 3 de janeiro, prometeu uma transição para "uma democracia plena" e afirmou que "haverá eleições", sem dizer quando nem sob quais condições. A Constituição venezuelana estabelece prazo de 180 dias para que o presidente interino convoque o pleito. Ela agradeceu a Trump pela "disposição de retomar o caminho das relações diplomáticas" e elogiou o acordo que, segundo o americano, deu aos Estados Unidos controle sobre mais de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas. O discurso veio um dia depois do encontro entre os dois em Nova York.
Com o Irã, a negociação também correu longe da tribuna. O presidente Masoud Pezeshkian mostrou aos líderes uma foto do aiatolá Ali Khamenei, morto no início da guerra iniciada em fevereiro por Estados Unidos e Israel, acusou Washington de terrorismo e disse que o país "nunca baixará a cabeça". Na véspera, o chanceler iraniano Abbas Araghchi se reuniu por pelo menos duas horas com o enviado americano Steve Witkoff, primeiro sinal de diplomacia entre os dois países em mais de três meses. Depois do discurso, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que as conversas não produziram avanço significativo.
Cuba respondeu com os pés. A delegação cubana deixou o plenário enquanto Trump dizia que o regime da ilha é um "Estado falido" que "vai cair" e que Rubio conduz negociações com Havana.
A França, que preside o Conselho de Segurança, convocou uma reunião sobre inteligência artificial. Dario Amodei, da Anthropic, disse que a tecnologia mal gerenciada pode representar um risco para a humanidade como um todo. Sam Altman, da OpenAI, defendeu que "as decisões mais importantes não podem ser tomadas apenas por laboratórios em São Francisco". Yoshua Bengio, copresidente do painel científico da ONU sobre o tema, descreveu uma ameaça que nenhum membro do conselho consegue conter sozinho.
A divisão apareceu na mesma sala. O conselheiro da Casa Branca Michael Kratsios afirmou que a ONU deve se concentrar em compartilhar boas práticas, e não em estabelecer um esquema regulatório global, em linha com Trump, que rejeitara "qualquer tentativa de criar um esquema globalista" para controlar a IA. O embaixador chinês Fu Cong pediu aprimoramento contínuo das estruturas regulatórias e cooperação internacional.
Discurso de tribuna é barato; o que se acompanha depois é o que revela se algo mudou. Quatro pontos saíram desta semana com data ou decisão pendente.
O primeiro é a Venezuela: Rodríguez prometeu eleições sem marcar dia, e existe um prazo constitucional de 180 dias para a convocação. Uma data anunciada, ou a ausência dela, diz mais que o discurso inteiro. O segundo é o Irã: Trump se disse diante de uma "grande decisão" entre acordo e aniquilação, e falou em fechar algo depois das eleições americanas de novembro, enquanto Rubio já avisou que a conversa com Araghchi não avançou. O terceiro é a eleição brasileira de 4 de outubro, para a qual boa parte do discurso de Lula foi claramente dirigida, com a representação de Flávio Bolsonaro no TSE em andamento. O quarto é a sucessão de Guterres, que deixa a ONU em dezembro sem substituto definido, num momento em que Espanha e Panamá pediram no plenário a reforma do Conselho de Segurança e o fim do veto dos cinco membros permanentes.
Também vale guardar um hábito de leitura: quando um líder anuncia número na tribuna, a checagem independente costuma sair nos dias seguintes, como no caso das travessias de Ormuz e das oito guerras encerradas.
Desses quatro pontos, qual você vai conferir primeiro para saber se a "confiança" do tema oficial teve algum efeito prático: a data das eleições venezuelanas, o desfecho das conversas entre Washington e Teerã, o resultado de 4 de outubro ou o nome que assume a ONU em dezembro?
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