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Editora: 12min
A peste é uma infecção causada por uma bactéria chamada Yersinia pestis, a mesma responsável pela Peste Negra, pandemia que devastou a Europa no século XIV. Ela não desapareceu: segundo o Instituto Robert Koch, órgão alemão de controle de doenças, são registrados até 3 mil casos por ano no mundo, concentrados hoje na República Democrática do Congo, em Uganda e, principalmente, em Madagascar. A bactéria também circula naturalmente entre pequenos mamíferos e suas pulgas em partes da Sibéria e do Extremo Oriente russo, embora infecções humanas sejam raras por lá.
É nesse contexto que aparece a notícia das últimas semanas: a morte de uma funcionária de um instituto russo dedicado justamente a estudar essa bactéria, seguida de uma resposta sanitária de grande alcance e de muito pouca informação oficial. A pergunta que move o caso não é "o que aconteceu com ela", e sim por que medidas tão amplas foram tomadas sem que nenhum caso de peste tenha sido confirmado.
Existem três formas principais da doença, e elas se diferenciam pela porta de entrada no corpo. A bubônica, a mais comum, chega pela picada de pulgas que picaram roedores infectados, e a bactéria se multiplica nos gânglios linfáticos, que incham de forma dolorosa. A septicêmica é uma infecção grave do sangue. Já na pneumônica, o patógeno chega aos pulmões por gotículas ou aerossóis.
A diferença decisiva está aí: a pneumônica é a única forma em que a transmissão direta entre seres humanos é considerada provável. Segundo a Organização Mundial da Saúde, bubônica, septicêmica e pneumônica são todas tratáveis com antibióticos se identificadas rapidamente, mas as duas últimas são fatais se não tratadas em um prazo de um a seis dias. A peste pneumônica pode matar em até 48 horas após o início dos sintomas, e o maior desafio, segundo o biólogo molecular Holger Scholz, do laboratório de referência alemão para a bactéria, é justamente o diagnóstico: os primeiros pacientes de um surto frequentemente morrem antes que a suspeita correta apareça.
Darya Shipilova, de 28 anos, era técnica de laboratório no Instituto de Pesquisa Antipeste da Sibéria e do Extremo Oriente, em Irkutsk. Segundo a Rospotrebnadzor, órgão russo de vigilância sanitária, ela deu entrada em um hospital em 29 de setembro de 2026 com pneumonia severa e morreu em 2 de outubro, em um hospital da cidade vizinha de Shelekhov. A agência informou que o diagnóstico foi de "pneumonia de etiologia desconhecida" e que análises não detectaram microrganismos associados à sua atividade profissional.
A resposta, no entanto, foi ampla. Cerca de 200 pessoas que tiveram contato com ela foram colocadas em observação. O hospital de Shelekhov entrou em quarentena, suspendeu internações e altas e interrompeu análises de rotina no laboratório, segundo o prefeito Maxim Modin. Veículos locais relataram restrições em outros hospitais de Irkutsk e em ao menos uma maternidade, além de 60 funcionários do próprio instituto em quarentena. Na planta de alumínio de Irkutsk, em Shelekhov, trabalhadores foram obrigados a usar máscaras. Anna Popova, chefe da Rospotrebnadzor, viajou à região para uma reunião de emergência da comissão sanitária regional.
Uma moradora de Angarsk contou à CNN que precisou trocar de maternidade com 40 semanas de gravidez por causa das novas restrições. Em uma consulta, ela diz ter recebido dois questionários, um deles intitulado "Lista de verificação para suspeita de doença infecciosa altamente perigosa: peste". Os funcionários, segundo ela, não mencionaram peste, apenas um "novo vírus" não identificado.
A primeira menção pública à doença não veio do governo de Irkutsk. O governador Igor Kobzev falou em suspeita de "infecção particularmente perigosa", sem nomeá-la. Foi Alexey Tsydenov, chefe da vizinha Buriácia, quem declarou que a mulher "morreu de peste na região de Irkutsk"; segundo veículos russos, a frase foi depois editada para "possivelmente morreu de peste".
A versão não oficial que circula na imprensa russa é que Shipilova teria quebrado um tubo de ensaio com bactérias vivas. A Rospotrebnadzor nega: afirma não ter encontrado indícios de emergência nem de violação de protocolos de segurança na manipulação de patógenos, e diz que, entre os contatos testados, apareceram apenas dois casos de covid-19 e dois de rinovírus, o vírus do resfriado comum. Nenhum resultado positivo para Yersinia pestis foi relatado. A agência declarou não haver risco epidêmico e disse que o monitoramento médico já foi concluído para mais de 90% dos contatos.
O governo dos Estados Unidos fez um pedido formal de informações a Moscou. O secretário de Estado Marco Rubio afirmou que "cabe à Rússia, obviamente, compartilhar mais informações com o mundo" e acrescentou: "Talvez seja maior do que pensávamos. Não sabemos, mas acho que seria imprudente, neste momento, dada a informação limitada que temos, especular."
A OMS disse estar em contato com as autoridades russas para verificar o evento, as circunstâncias e os exames laboratoriais em curso, e avaliou que, com base em informações não oficiais, o risco para a população em geral parece baixo. O diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus afirmou que as autoridades russas responderam que nenhum caso de peste foi registrado recentemente na região e que os contatos identificados foram testados sem detecção de patógenos de alta ameaça. A OMS também pediu esclarecimento sobre relatos de imprensa de um segundo funcionário com pneumonia de causa indeterminada, sem confirmação local.
Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tajiquistão implementaram controles de quarentena em postos de fronteira. Na China, a CNN não encontrou medidas adicionais nem voos cancelados de Irkutsk.
O descompasso é o ponto central. Raj Panjabi, médico de Harvard e ex-diretor de biossegurança da Casa Branca no governo Joe Biden, afirmou que não dá para classificar o risco como baixo, médio ou alto porque falta a informação para responder. O procedimento habitual, quando um patógeno causa morte ou quarentena, é que as autoridades locais testem e compartilhem o sequenciamento genético para análise internacional. As autoridades russas não divulgaram esses dados publicamente. "Há um descompasso entre as palavras e as ações, e é isso que nos preocupa", disse Panjabi.
Do outro lado, há motivos concretos para não tratar o caso como prenúncio de pandemia. Scholz considera extremamente improvável que a peste cause uma nova pandemia mundial: a bactéria não se transmite com a facilidade de vírus respiratórios, e existem antibióticos eficazes e padrões modernos de higiene. Malick Gibani, professor associado em vacinologia bacteriana no Imperial College London, afirmou em declaração à imprensa que, diante de uma exposição laboratorial, o procedimento usual é avaliar quem pode ter sido exposto e oferecer monitoramento, triagem, quarentena ou antibióticos preventivos. A escala da resposta, por si só, não prova a doença.
Está estabelecido que uma técnica de 28 anos de um instituto antipeste morreu de pneumonia de causa não determinada, que cerca de 200 contatos foram monitorados, que hospitais entraram em quarentena e que quatro países vizinhos reforçaram controles de fronteira. Está estabelecido também que nenhum caso de peste foi oficialmente confirmado, que nenhum contato testou positivo para a bactéria e que a doença, quando identificada cedo, é tratável com antibióticos.
Segue em aberto o que causou a pneumonia, se houve relação com o trabalho dela e se houve um segundo caso. Três sinais permitem acompanhar isso sem depender da palavra "peste": se a Rússia divulgar à OMS o sequenciamento genético do patógeno, se o número de pessoas isoladas ou de hospitais sob restrição aumentar, e se surgirem casos suspeitos além dos contatos já monitorados. São essas três coisas, e não as declarações, que vão mostrar se a situação está de fato sob controle.
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