Por que Trump temeu um ataque no ar - Resenha crítica - 12min Originals
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Por que Trump temeu um ataque no ar - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O que aconteceu na pista de Ancara

No dia 8 de julho, ao deixar a cúpula da OTAN, a aliança militar ocidental, na Turquia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embarcou no Air Force One diante das câmeras de televisão — e não viajou nele.

Segundo o Washington Post, que revelou a história nesta semana, Trump saiu da aeronave pelo lado oposto ao do embarque, por um caminhão de bufê que havia sido elevado até a altura da porta do avião, e foi levado a uma aeronave militar menor, um C-32A, versão modificada do Boeing 757 normalmente usada pelo vice-presidente. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, embarcou nesse avião separadamente, por escadas externas, para que o movimento parecesse rotineiro, ainda de acordo com o jornal.

O avião de onde Trump havia saído seguiu viagem usando o indicativo de chamada "AF1", enquanto o que levava o presidente voou como "Reach 18". Tecnicamente, "Air Force One" é o indicativo de qualquer aeronave que transporte o presidente americano — naquele dia, a designação ficou com o avião-isca.

Há um detalhe anterior que ganhou outro sentido depois da revelação: Trump havia chegado a Ancara no Boeing 747-8 doado pelo Catar, mas anunciou que voltaria no Air Force One antigo "pelos velhos tempos". Na volta, o quebra-cabeça se completou com uma parada na base aérea de Mildenhall, no Reino Unido, onde Trump passou de novo para o jato antigo — também sem que se saiba como — e foi visto descendo dele como se tivesse viajado ali o tempo todo. Só então trocou para o avião catariano e seguiu para Washington.

Quem sabia e quem não sabia

Jornalistas e parte da equipe da Casa Branca embarcaram no avião-isca e foram instruídos a manter as persianas das janelas fechadas. Um produtor do grupo de imprensa que cobre o presidente relatou ter achado a ordem incomum; um fotógrafo abriu uma persiana e foi rapidamente mandado fechá-la. O relato consta de um documento divulgado na terça pela Associação de Correspondentes da Casa Branca, que registra ainda dois caminhões de bufê estacionados na frente e atrás do avião e a van da imprensa posicionada longe demais no comboio para fotografar o embarque.

A divisão de quem ficou onde seguiu a linha sucessória. Segundo a CBS News, parceira americana da BBC, o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, sabiam que Trump havia trocado de avião e permaneceram no primeiro justamente para preservar a cadeia de sucessão caso algo acontecesse ao presidente. Nos Estados Unidos, a ordem passa pelo vice-presidente, JD Vance, pelo presidente da Câmara e pelo presidente pro tempore do Senado antes de chegar ao secretário de Estado e ao do Tesouro. Também ficaram no avião-isca o vice-chefe de gabinete Stephen Miller e o diretor de comunicação, Steven Cheung. Com Trump seguiram Hegseth, a assistente executiva Natalie Harp, o vice-chefe de gabinete adjunto Dan Scavino e o diretor de operações do Salão Oval, Walt Nauta.

Não está claro o que os secretários, os demais funcionários e a tripulação da Força Aérea sabiam da operação. Os jornalistas afirmam que não sabiam que estavam num voo-isca. Uma autoridade do governo disse à Fox News que caças escoltaram o avião da imprensa no trecho entre a Turquia e o Reino Unido.

Manobras desse tipo não são inéditas — o Serviço Secreto as chama de "jogos de conchas" —, mas em viagens de risco os repórteres costumam ser informados e apenas orientados a não noticiar em tempo real. Em março de 2000, o então presidente Bill Clinton voou a Islamabad, no Paquistão, num jato sem identificação que pousou depois de um avião-isca pintado como o Air Force One. Susan Page, do jornal USA Today e então presidente da associação de correspondentes, revelou esta semana ao Washington Post que foi avisada antes: "Eles me contaram sobre os procedimentos extraordinários de segurança adotados por causa dos perigos de voar até lá, incluindo o uso de um avião-isca."

A ameaça que os EUA dizem ter detectado

Trump confirmou a troca pessoalmente na terça, mais de um mês depois, e minimizou o motivo. "Vou pelo Serviço Secreto e pelos militares. Eles queriam que eu fosse em outro voo, em outro avião", disse a jornalistas. "Eu só tenho que fazer o que eles dizem." Sobre a ameaça: "Acho que havia uma ameaça por aí. Não perguntei muito sobre isso. Recebo muitas ameaças." E acrescentou: "Qualquer presidente relevante tem muitas ameaças. Presidentes irrelevantes não recebem ameaças."

Ele também afirmou que o avião em que acabou viajando corria "maior risco", "porque esse seria o avião que eles provavelmente tentariam atingir".

Sobre a natureza da ameaça, os relatos vêm de fontes anônimas. Autoridades disseram à CBS News que os Estados Unidos detectaram uma ameaça iraniana crível de disparar um míssil contra o avião. O New York Times informou que a inteligência americana tinha informação sobre uma pessoa vista com um míssil lançado do ombro nas proximidades da cúpula. Vários veículos americanos relataram, segundo a BBC, que havia também preocupação de que os iranianos soubessem do paradeiro de Trump, inclusive em que andar do hotel ele estava.

O quanto os americanos levaram a sério é justamente onde as versões divergem. Um funcionário disse ao Washington Post que a CIA considerou os avisos "derivados de Israel, não gerados pelos EUA", e os avaliou como de "baixa confiança". Em julho, autoridades americanas disseram à CNN que Israel havia compartilhado inteligência sobre um plano específico do Irã contra Trump, e alguns sugeriram que o relatório israelense poderia ser uma tentativa de influenciar as decisões do presidente na guerra. A Casa Branca não comentou diretamente; Cheung disse ao Post que há "muitos inimigos da América" mirando Trump e que todas as ferramentas disponíveis são usadas.

Schumer cobra explicação, Teerã ridiculariza

O líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, exigiu que a Casa Branca informe imediatamente o Congresso sobre a operação. "É inaceitável que o Congresso tenha sido mantido no escuro e tenha ficado sabendo dessa ameaça séria por relatos da imprensa", disse em nota. Ele acusou o governo de recusar repetidamente transparência e afirmou que o Congresso "deve reafirmar sua autoridade constitucional e encerrar este conflito".

Do outro lado, a agência estatal iraniana IRNA publicou uma reportagem com o título "Trump admite ter fugido por medo do Irã" e destacou que jornalistas e funcionários voaram no avião-isca, dizendo que foram "vítimas do estratagema de segurança de Washington". O site Mashregh, ligado à Guarda Revolucionária, escreveu sobre "a fuga covarde de Trump num caminhão de bufê" e reuniu memes sobre o episódio.

Jose Zamora, diretor regional para as Américas do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, afirmou que o governo americano "tem a responsabilidade de garantir que jornalistas que cobrem o presidente não sejam expostos desnecessariamente ao perigo" e que repórteres devem ser informados de ameaças críveis para decidir sobre a própria segurança. A presidente da associação de correspondentes, Jacqui Heinrich, disse em memorando interno que se reuniu com autoridades do governo e pediu que a Casa Branca negocie um protocolo para circunstâncias extraordinárias de segurança.

Uma guerra que não esfriou

A troca de aviões ocorreu um dia depois de os Estados Unidos retomarem ataques militares ao Irã, após o colapso das negociações. Um mês depois, o conflito escalou. Trump afirmou nesta semana ter "controle total" sobre o Estreito de Ormuz; a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, criada pelo Irã em maio, respondeu que a passagem "permanece bloqueada e não será reaberta até que as condições do Irã sejam aceitas". O Comando Central americano informou que, até 12 de agosto, redirecionou 59 navios comerciais, desabilitou três e abordou dois para impor o bloqueio.

Há um prazo à vista: o memorando de entendimento que sustenta o cessar-fogo vence em 17 de agosto, e uma fonte iraniana disse à Reuters que não há conversas para estendê-lo, porque Teerã não vê "nada a estender". No mar, ataques atribuídos aos houthis, grupo iemenita alinhado ao Irã, mataram tripulantes de navios de carga perto do Estreito de Bab al-Mandab. A Agência Internacional de Energia reduziu em cerca de 550 mil barris por dia sua previsão de demanda global de petróleo para o segundo semestre e disse que "a urgência de reabrir o estreito aumentou".

O que fazer com essa informação

Há três frentes concretas que decorrem direto do episódio e podem ser acompanhadas nos próximos dias.

A primeira é o pedido de Schumer. Se a Casa Branca aceitar informar o Congresso sobre a ameaça, o que aparecer ali é o que permitirá comparar as versões que hoje se contradizem — a de fontes que a descreveram como crível o suficiente para justificar a operação e a do funcionário que disse ao Washington Post que a CIA a classificou como de baixa confiança e de origem israelense. Se não aceitar, a divergência continua dependendo de fontes anônimas.

A segunda é o protocolo pedido por Jacqui Heinrich. A associação de correspondentes reconheceu que seus profissionais não sabiam onde o presidente estava, e o precedente de 2000 — quando a chefe da associação foi avisada do avião-isca de Clinton e apenas não noticiou — mostra que existe um arranjo alternativo já testado. Vale observar se a Casa Branca aceita negociar algo formal ou se o caso fica como episódio isolado.

A terceira é o prazo de 17 de agosto. Se o cessar-fogo não for estendido, a pergunta sobre por que essa ameaça específica só veio a público um mês depois volta com outro peso — porque passa a ser sobre o que mais o governo está avaliando agora e não está dizendo. E o dado prático para quem não acompanha o conflito militar de perto é o petróleo: o Brent fechou perto de 89 dólares o barril nesta semana, depois de oscilar entre 72 e 102 no mês passado, e a própria agência de energia atribui a volatilidade ao fechamento do estreito. É por esse canal que uma decisão tomada no Golfo chega ao preço que se paga aqui.

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