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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
Em mil novecentos e oitenta e três, o Peru perdeu quase doze por cento do seu PIB em um único ano. Não foi uma guerra. Não foi uma crise financeira. Foi chuva. Chuva demais onde não devia, seca onde a água era questão de sobrevivência. O El Niño daquele ano inundou lavouras inteiras na costa norte peruana, arrasou estradas, destruiu pontes e deixou mais de um milhão de pessoas sem casa. As perdas econômicas passaram de três bilhões de dólares ... em valores da época. Ajustando pela inflação, seria algo próximo de dez bilhões de dólares atuais.
Mas o Peru não estava sozinho naquela conta. Do outro lado da cordilheira, no sul do Brasil, os estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul viram quase cinco milhões de toneladas de grãos desaparecerem debaixo de enchentes. Os prejuízos passaram de setecentos e oitenta milhões de dólares. Na outra ponta, o Nordeste brasileiro enfrentou uma das piores secas de sua história. E tudo isso era obra do mesmo fenômeno.
Essa história se repete com variações, como um tema musical que muda de tom mas mantém a melodia. Em mil novecentos e noventa e sete e noventa e oito, outro El Niño forte voltou ao Peru e ao Equador. Dessa vez, os danos no Peru foram estimados em três bilhões e quinhentos milhões de dólares, o equivalente a seis vírgula dois por cento do PIB peruano. Mais de quarenta e duas mil casas ficaram destruídas. No Brasil, a produção de grãos recuou, a safra de açúcar sofreu, e a inflação dos alimentos começou a pressionar o bolso do consumidor.
Quinze anos depois, entre dois mil e quinze e dois mil e dezesseis, o padrão se confirmou mais uma vez. Aquele El Niño foi um dos mais intensos já registrados. No Brasil, as safras de milho, feijão, arroz e açúcar sofreram quebras. No Espírito Santo e no norte de Minas Gerais, a seca se agravou a ponto de cidades decretarem estado de emergência e imporem racionamento de água. A crise hídrica do Sistema Cantareira, em São Paulo, que tinha começado em dois mil e catorze, ganhou fôlego extra. Fábricas pararam por falta de água, os preços de frutas e verduras dispararam, e a inflação de alimentos virou protagonista nos noticiários. No mesmo período, incêndios devastadores varreram a Amazônia.
Para entender por que essas catástrofes se repetem, vale voltar ao começo. Ou melhor, ao começo do nome.
Há mais de duzentos anos, pescadores da costa do Peru e do Equador perceberam algo estranho. Em certos anos, por volta de dezembro, a água do mar ficava estranhamente quente. Os peixes sumiam. As redes voltavam vazias. Como essa mudança acontecia perto do Natal, os pescadores deram ao fenômeno o nome de El Niño ... o menino ... em referência ao Menino Jesus.
O que aqueles pescadores observavam de forma intuitiva era o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na faixa equatorial. Águas mais quentes significam menos nutrientes subindo do fundo do mar, e menos nutrientes significam menos peixes. Mas o efeito não para na costa peruana.
Quando essas águas se aquecem acima de meio grau Celsius em relação à média ... e ficam assim por meses ... os ventos alísios enfraquecem. Esses ventos, que normalmente empurram as águas quentes para o oeste, em direção à Oceania, perdem força. A massa de calor fica parada no Pacífico central e oriental, e isso reorganiza a circulação de ar sobre praticamente todo o continente americano. O resultado? Chuvas torrenciais onde normalmente é seco, e seca onde normalmente chove.
A ciência só começou a entender essa conexão em escala global nos anos mil novecentos e setenta, quando o El Niño de mil novecentos e setenta e dois e setenta e três fez a indústria pesqueira peruana colapsar e forçou a Rússia a importar quantidades enormes de trigo e milho dos Estados Unidos, provocando uma escassez global de grãos. Foi ali que pesquisadores perceberam que aquele fenômeno local, batizado por pescadores peruanos, na verdade funcionava como um interruptor climático capaz de afetar a agricultura, a energia e a economia de países inteiros, em continentes diferentes, ao mesmo tempo.
Agora, olhe para o calendário. Estamos em abril de dois mil e vinte e seis, e os sinais estão se acumulando de novo.
A NOAA, a agência americana que monitora oceanos e atmosfera, aponta uma probabilidade de sessenta e um por cento de que o El Niño se instale entre maio e julho deste ano. No mês anterior, essa probabilidade era de cinquenta por cento. O Pacífico equatorial já registra anomalias positivas de temperatura, e os modelos climáticos mais recentes projetam que as maiores anomalias podem superar dois graus Celsius no trimestre de outubro a dezembro. Se isso se confirmar, estaremos diante de um evento forte ou até muito forte. Segundo a NOAA, há vinte e cinco por cento de chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte.
O INMET, no Brasil, acompanha de perto e já publicou nota técnica sobre os possíveis impactos na agricultura. A Organização Meteorológica Mundial reforça que ainda não há como garantir que será um evento extremo, mas alerta que o risco é crescente e que o momento de se preparar é agora ... não quando as perdas já estiverem acontecendo.
O padrão, com suas variações, é conhecido. No Norte e no Nordeste do Brasil, as chuvas diminuem. A Amazônia seca. Os rios baixam. O risco de incêndios florestais aumenta. Em dois mil e vinte e quatro, o Brasil teve a seca mais intensa em setenta anos, segundo pesquisadores. A Amazônia perdeu mais florestas do que em qualquer ano desde dois mil e dezesseis ... com sessenta por cento dessa perda causada por incêndios. No Pantanal, a situação foi igualmente grave ... a área queimada em dois mil e vinte e quatro superou um milhão e novecentos mil hectares.
No Sul do Brasil, o efeito é o oposto. O El Niño costuma trazer chuvas acima da média, e quando essas chuvas vêm com intensidade, o resultado é enchente. Em maio de dois mil e vinte e quatro, o Rio Grande do Sul viveu o que o governo estadual chamou de a maior catástrofe climática da história do estado. Em poucos dias, choveu entre trezentos e setecentos milímetros. Mais de sessenta por cento do território gaúcho foi afetado. As perdas na agricultura foram estimadas em pelo menos três bilhões de reais. O arroz, o trigo, a soja e o milho ... as culturas que alimentam o Brasil ... foram duramente atingidas. Mais de cento e oitenta pessoas morreram.
Fora do Brasil, a equação é parecida. No Peru e no Equador, o El Niño traz chuvas intensas, inundações e deslizamentos. Em dois mil e dezessete, o El Niño costeiro provocou um dos maiores desastres naturais recentes do Peru ... com mais de um milhão de pessoas atingidas, cento e sessenta e duas mortes e prejuízos de três bilhões de dólares. Na América Central, o chamado Corredor Seco enfrenta déficit de chuvas, seca agrícola e estresse hídrico, afetando diretamente a produção de milho e feijão da agricultura familiar. Na Bolívia, dois mil e vinte e quatro trouxe uma das piores secas já registradas, e quase doze por cento do território do país foi consumido pelo fogo.
Mas o El Niño não destrói apenas lavouras. Ele encarece a energia.
Na América Latina, cerca de cinquenta por cento da eletricidade vem de usinas hidrelétricas. Quando os reservatórios secam, os países são forçados a ligar usinas térmicas, que funcionam com gás ou carvão e custam muito mais. Isso encarece a conta de luz, aumenta as emissões de carbono e, em efeito cascata, pressiona os custos de produção de praticamente tudo. No Brasil, em dois mil e vinte e um, a crise hídrica levou o preço da energia no mercado livre a picos de mais de setecentos reais por megawatt-hora.
Países como o Paraguai dependem quase cem por cento de energia hidrelétrica. A Costa Rica depende em mais de setenta por cento. A Colômbia, em mais de setenta por cento também. Quando o El Niño aperta, esses países ficam especialmente vulneráveis. E ao mesmo tempo em que a oferta de energia cai, a demanda sobe ... porque secas e ondas de calor aumentam o uso de ar-condicionado e refrigeração.
Para a inflação, o mecanismo é direto. Menos comida e energia mais cara significam preços mais altos. Em dois mil e vinte e quatro, a inflação de alimentos e bebidas no Brasil chegou a sete vírgula seis por cento, sendo o principal motor do IPCA. Analistas já projetam que, se o El Niño de dois mil e vinte e seis se confirmar com força, a pressão sobre os preços de alimentos deve se repetir, limitando o espaço para cortes na taxa de juros pelo Banco Central.
Na região andina, estudos anteriores estimam que um El Niño forte pode reduzir o PIB entre zero vírgula seis e um vírgula sete ponto percentual. Para países menores, isso pode significar a diferença entre crescimento e recessão.
Nem tudo é destruição. É importante dizer isso.
Em anos de El Niño, as chuvas abundantes no sul do Brasil podem favorecer certas safras de verão, desde que não sejam excessivas. A reposição hídrica em regiões secas do Chile, por exemplo, pode beneficiar reservatórios e pastagens. O arroz costeiro no Peru, paradoxalmente, pode se beneficiar do aumento de chuvas em eventos moderados. E o aquecimento das águas do Pacífico pode favorecer a regeneração de bosques secos na costa norte peruana.
O problema é que os efeitos positivos dependem de calibração ... e o clima não usa régua. Quando o El Niño passa de moderado para forte, as chuvas benéficas viram enchentes, a reposição hídrica vira alagamento, e o calor que favorecia algumas culturas vira estresse térmico que destrói outras.
Se o segundo semestre de dois mil e vinte e seis trouxer de fato um El Niño forte, existem cenários e ações que vale considerar.
Para quem vive no campo ou depende da agricultura, o momento de agir é antes do plantio. Revisar o calendário de semeadura, escolher variedades mais resistentes a estresse hídrico ou a excesso de chuva, reforçar sistemas de drenagem em áreas vulneráveis a alagamento, e garantir estoque de ração e água para a pecuária são medidas práticas que podem reduzir perdas. A Embrapa e os órgãos de extensão rural estaduais já disponibilizam orientações específicas para anos de El Niño. O seguro agrícola, apesar de suas limitações, é uma ferramenta que ganha importância em cenários de alta incerteza climática.
Para quem investe ou acompanha o mercado financeiro, a leitura é de cautela. Alimentos mais caros pressionam a inflação, e inflação mais alta limita o espaço para queda de juros. Commodities agrícolas tendem a ter alta volatilidade em anos de El Niño forte. O agronegócio brasileiro, que representa cerca de vinte e cinco por cento do PIB, fica diretamente exposto. Ao mesmo tempo, a menor oferta global pode valorizar exportações brasileiras de soja, café e açúcar ... um efeito ambíguo que beneficia a balança comercial mas pressiona os preços internos.
Para o cidadão que vai ao supermercado, vale prestar atenção ao feijão, ao arroz e às frutas e verduras. São os itens que mais sentem o impacto de choques climáticos. Antecipar compras de itens não perecíveis, diversificar a cesta de consumo e ficar atento aos boletins oficiais do INMET e do CPTEC pode ajudar a navegar meses mais turbulentos.
Para governos e gestores públicos, a Organização Meteorológica Mundial recomenda atualizar os cenários de risco, reforçar o monitoramento climático, preparar planos de contingência para secas, enchentes e incêndios, verificar a segurança de barragens e reservatórios, e ativar mecanismos de coordenação entre defesa civil, agricultura, energia e saúde. Experiências anteriores mostram que as perdas não vêm só do clima ... vêm da combinação de eventos extremos com falta de preparação e respostas tardias.
O El Niño não é novidade. Ele visita a América Latina a cada dois a sete anos, há séculos. Pescadores peruanos já o conheciam antes que qualquer cientista publicasse um artigo sobre ele. O que mudou é que hoje temos dados, modelos, satélites e semanas de antecedência para nos prepararmos. A questão não é se o clima vai cobrar a conta ... é se estaremos prontos quando ela chegar.
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