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Editora: 12min
Todo mundo que convive com um cachorro jura que ele percebe quando a casa está tensa. Um estudo publicado na segunda-feira, 10, na revista científica iScience, do grupo Cell Press, foi atrás do que acontece dentro do crânio do animal nesse momento — e encontrou duas coisas. A primeira é que um rosto humano sorridente, mesmo o de um completo desconhecido, aciona no cérebro do cão a mesma região ligada a recompensa que se acende diante de comida e de elogio. A segunda, apresentada pelos autores como inédita, é que o cérebro canino também separa umas das outras algumas emoções negativas — não apenas "bom" de "ruim", mas medo de raiva e medo de tristeza.
A pesquisa é da Universidade de Viena e usou ressonância magnética funcional, exame que mede a atividade do cérebro em tempo real acompanhando o fluxo de sangue. O detalhe que torna o método incomum é que os cães estavam acordados, soltos e sem contenção física, deitados dentro do equipamento por vontade própria.
Isso exige seleção e treino. "Os cães precisavam ser de porte médio, principalmente por causa das dimensões do equipamento de ressonância, saudáveis e sem problemas de comportamento, como medo forte de sons altos", explicou à CNN Raúl Hernández-Pérez, primeiro autor do trabalho. O treinamento começa por um paradoxo prático: "Primeiro ensinamos ao cão que a tarefa é simplesmente ficar parado, começando com um ou dois segundos e aumentando devagar a duração. Uma das partes mais difíceis é comunicar ao cão que 'não fazer nada' é a tarefa". Depois vêm, aos poucos, a posição, os equipamentos e os ruídos do aparelho. Os animais participam voluntariamente e podem sair a qualquer momento.
O recrutamento também foi artesanal. Segundo a BBC, os pesquisadores abordavam pessoas em parques: se o cão tinha o tamanho certo e parecia calmo e bem treinado, perguntavam se o tutor toparia ajudar. Cuaya e Hernández-Pérez são parceiros na pesquisa e na vida pessoal, e os border collies do casal, Odín e Kun-kun, também participaram do estudo.
No primeiro experimento, oito cães viram cinco conjuntos de rostos alegres e cinco de rostos neutros. Cada conjunto tinha quatro fotos de pessoas desconhecidas do animal, do mesmo gênero que o tutor principal — a escolha de rostos estranhos foi deliberada, para que o vínculo prévio com o dono não contaminasse o resultado.
Diante dos rostos alegres, a atividade aumentou em regiões associadas a processamento visual mais elaborado, a processamento social e a recompensa: o córtex temporal, área ligada a funções cognitivas superiores, e o núcleo caudado, estrutura profunda do cérebro envolvida em motivação. Segundo a Exame, a diferença apareceu sobretudo em regiões equivalentes ao córtex temporal direito.
O núcleo caudado é a peça que interessa. "Em várias espécies, essa região está associada ao processamento de recompensa. Nos cães, especificamente, a atividade do caudado já foi ligada a recompensas alimentares, mas também a recompensas sociais, como ouvir palavras de elogio e sentir o cheiro de uma pessoa familiar", disse Hernández-Pérez à CNN. "Embora não possamos acessar diretamente a experiência subjetiva dos cães, nossos resultados sugerem que ver rostos alegres, mesmo de estranhos, envolve processamento afetivo positivo."
Laura Cuaya, autora sênior do estudo, descreveu à BBC o papel dessa circuitaria: "Ela controla a motivação de fazer as coisas, a vontade de fazer as coisas. Então esse achado sugere que rostos alegres, mesmo os de estranhos, têm valor positivo para os cães."
O segundo experimento, com 12 cães, mostrou rostos desconhecidos, masculinos e femininos, com quatro expressões: alegria, tristeza, medo e raiva. A análise usou aprendizado de máquina, técnica em que um programa aprende a identificar padrões nos dados de imagem.
Nas regiões identificadas no primeiro experimento, o padrão de atividade distinguia alegria de cada uma das expressões negativas — mas não conseguia separar as negativas entre si. "Os cães conseguem distinguir entre emoções positivas e todas as outras, mas não parecem capazes de distinguir entre as diferentes emoções negativas", resumiu Hernández-Pérez à BBC.
A novidade apareceu quando os pesquisadores analisaram o cérebro inteiro, e não só aquelas regiões. Aí foi possível separar medo de tristeza e medo de raiva, com diferenças de atividade em partes distintas do cérebro. Raiva e tristeza, porém, continuaram indistinguíveis. "Esta é a primeira demonstração de que o cérebro do cão consegue distinguir emoções de mesma valência", disse Cuaya ao Guardian — valência, no vocabulário da área, é o eixo que separa o positivo do negativo.
Uma hipótese dos autores é que expressões negativas diferentes representam tipos diferentes de ameaça. Outra, registrada pela Exame, é que os cães captam mais facilmente as emoções de maior intensidade, como medo e raiva, do que as mais sutis, como a tristeza.
Cuaya insiste que o interesse do achado está justamente na distância evolutiva. "Quando comparamos humanos com primatas, estamos olhando para habilidades que podem ter vindo de um ancestral comum", disse ela. "Com os cães, a história é completamente diferente. Eles seguiram um caminho evolutivo muito distinto, mas, pela domesticação, desenvolveram as habilidades sociais necessárias para nos entender e cooperar conosco."
Bridget Waller, professora de evolução e comportamento social da Nottingham Trent University, universidade britânica, que não participou do estudo, disse ao Guardian que o trabalho é fascinante e mostra como a domesticação moldou os cães para entender o comportamento humano. "Sorrir é a expressão facial humana mais usada, essencial para nossas interações sociais, e faz sentido que os cães tenham desenvolvido uma capacidade específica de distinguir isso de outros movimentos faciais", afirmou. "Parece menos claro que consigam distinguir entre as outras expressões faciais, e isso também faz sentido, já que elas são bem menos produzidas na interação social humana."
Os próprios autores listam as limitações. A amostra é pequena — oito animais no primeiro experimento, doze no segundo — e os totais informados variam entre os veículos: a BBC fala em 14 cães ao todo, a Exame em 20. A maioria era de border collies, raça conhecida pela facilidade em seguir pistas sociais; a Exame cita ainda labradores, golden retrievers e vira-latas, e a CNN detalha que o primeiro experimento teve seis border collies, um labrador e um golden retriever. "É possível que border collies tenham uma capacidade maior de interpretar expressões faciais humanas, e estudos futuros são necessários para determinar se há diferenças comportamentais e cerebrais entre raças", diz o texto do estudo.
Todos os cães eram saudáveis e sem problemas de comportamento, e todos eram animais de estimação de famílias afetuosas — os pesquisadores alertam que cães criados fora desse contexto, como os de rua, podem responder de outra forma. E o experimento testou fotografias de rostos parados, o que é uma fatia estreita da vida real: os autores lembram que, no dia a dia, o cão soma linguagem corporal, tom de voz, gestos e cheiro para interpretar quem está na frente dele.
A recomendação prática vem dos próprios pesquisadores e é literal. "Podemos recompensar nossos cães com petiscos, mas também com alegria", disse Cuaya à BBC. "Então devemos sorrir para os cães, inclusive para cães aleatórios na rua." No treino, segundo ela, expressar alegria pode ajudar o aprendizado — o achado do núcleo caudado sugere que o rosto sorridente funciona como reforço, não apenas como gentileza sem efeito.
O que o estudo não autoriza é o passo seguinte, o de supor que o cão lê nuance emocional como um humano leria. A evidência disponível indica separação entre medo e raiva, e entre medo e tristeza — não entre raiva e tristeza. Se o resultado se sustentar, a leitura do animal é mais sensível à intensidade do que à sutileza, e o rosto sozinho não fecha o quadro: voz, postura e odor entram na conta.
O que acompanhar são os próximos passos anunciados pela equipe de Viena. O primeiro é justamente investigar como os cães integram esses outros sinais — linguagem corporal, variações de voz e cheiro. O segundo é comparar raças, para testar se o desempenho observado não é, em boa medida, um efeito de amostra dominada por border collies. O terceiro é comparar cérebro humano e cérebro canino diante dos mesmos sinais emocionais. Hernández-Pérez sugeriu à CNN uma inversão que não depende de nenhum aparelho: "Ao refletir sobre o quanto os cães são atentos às nossas emoções, podemos também tentar ficar melhores em reconhecer como eles expressam as deles."
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