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ISBN: 9786559579037
Editora: Brookings Institution Press
Você conhece algum rapaz que simplesmente travou? Largou a faculdade, voltou para o quarto da adolescência, passa o dia em telas e ninguém sabe bem o que dizer a ele. A família acha que é preguiça. Os amigos acham que é fase. E quase ninguém pergunta se o problema está nele ou no terreno em que ele pisa.
Richard Reeves começou a pensar nisso como pai de três filhos. Depois, como pesquisador da Brookings Institution, foi atrás dos números — e encontrou um padrão largo demais para ser explicado por falha de caráter. Em 1972, os homens tinham quinze pontos de vantagem sobre as mulheres na conclusão do bacharelado nos Estados Unidos. Em 2019, a diferença continuava de quinze pontos, só que invertida: agora a favor delas. Metade da população mudou de lado em menos de cinquenta anos. Isso não é escolha individual. É estrutura.
Aqui vale avisar: reconhecer que meninos e homens estão em apuros não é tirar nada das mulheres. Reeves se descreve como alguém que se recusa a escolher trincheira na guerra cultural. Dá para apoiar com força a luta feminina por igualdade e, ao mesmo tempo, olhar com cuidado para o garoto que parou de ir à escola. As duas coisas cabem na mesma cabeça. O que não cabe é fingir que o segundo problema não existe.
Este é o mapa de um desconforto que muita gente sente em casa e quase ninguém consegue nomear em público.
Comece pela sala de aula. Meninas chegam aos cinco anos mais prontas para a escola, tiram notas melhores no ensino médio e hoje são quase 60% dos formandos universitários nos Estados Unidos. A explicação mais sólida não é esforço nem talento: é tempo de maturação. O córtex pré-frontal, responsável por controlar impulso e planejar o amanhã, amadurece nos meninos cerca de dois anos depois.
Dois anos de atraso num sistema que exige sentar quieto, cumprir prazo e organizar trabalho é uma eternidade. Em praticamente todo distrito escolar americano, a vantagem feminina em leitura e linguagem equivale a quase dois terços de um ano letivo. Não há distrito onde os meninos abram vantagem nesse quesito.
O efeito é tão visível que algumas faculdades privadas já corrigem a mão em silêncio: aceitam rapazes com notas menores do que exigiriam de moças, só para não terminar com campus de dois terços femininos. É uma espécie de ação afirmativa masculina que ninguém anuncia em folheto. A pergunta que Reeves faz é simples: se o problema é grande o bastante para justificar esse remendo na entrada da faculdade, por que não tratamos dele treze anos antes?
Agora o trabalho. Em cinquenta anos, a participação masculina na força de trabalho americana caiu sete pontos percentuais. Os salários reais de homens sem diploma universitário estagnaram ou encolheram desde os anos 1970. Nada disso aconteceu porque uma geração inteira resolveu ficar preguiçosa ao mesmo tempo.
Aconteceu porque a automação e o comércio global comeram exatamente os empregos que sustentavam esse perfil: fábrica, montagem, construção. E as vagas que cresceram no lugar pedem outra coisa — leitura de emoção alheia, paciência, trato com gente. Habilidades em que as mulheres, em média, chegam mais preparadas.
Olhe a comparação pelo ângulo incômodo. O rendimento da mulher típica subiu de 63% do rendimento do homem típico em 1979 para 82% em 2019. É uma conquista enorme. Mas parte dessa aproximação veio da queda do lado masculino, não só da subida do feminino. O que sobra da diferença é, em boa medida, a penalidade da maternidade: a trajetória das mulheres se descola da dos homens depois do primeiro filho. Dois fenômenos verdadeiros ao mesmo tempo — elas subiram, e eles foram empurrados para a margem.
Durante séculos, o lugar do homem na família tinha uma definição prática: ele trazia o dinheiro. Era um papel construído sobre a dependência econômica da mulher, e funcionava como cola — prendia o sujeito à casa, aos filhos, à comunidade.
O feminismo desmontou essa dependência, e isso foi uma vitória. O casamento virou escolha afetiva em vez de necessidade financeira. Só que a economia andou e a cultura ficou parada. Hoje a maioria esmagadora das mães trabalha fora, e mesmo assim o marido sem emprego continua sendo punido: o risco de o casamento acabar dispara. Ele deixou de ser indispensável como provedor, mas continua sendo avaliado como se fosse só isso.
O resultado é um exército de homens sem script. Não conseguem cumprir o papel antigo e ninguém lhes ofereceu um novo. E quando o homem se separa da mulher, no padrão atual, ele costuma se separar também dos filhos. Reeves chama isso de déficit de pais. A saída, para ele, é reinventar a paternidade a partir do cuidado direto — uma relação com a criança que não dependa do holerite nem do casamento.
Nada disso atinge todos os homens igualmente. Reeves conta a história do afilhado, Dwight, um homem negro que vende carros. Para parecer menos ameaçador aos clientes brancos, Dwight usa óculos sem grau. Lentes falsas como estratégia de sobrevivência profissional.
Esse detalhe resume o que o autor chama de racismo de gênero. A masculinidade do homem negro não funciona como privilégio: funciona como alarme. Ele é lido como ameaça antes de abrir a boca, e esse estereótipo atravessa escola, polícia, entrevista de emprego e tribunal. Os homens negros têm a menor mobilidade econômica ascendente de todos os grupos americanos, e sua taxa de conclusão de faculdade é metade da taxa das mulheres negras.
O dado mais duro é este: homens negros criados em bairros ricos têm taxas de emprego na vida adulta inferiores às de homens brancos criados na pobreza. Dinheiro dos pais não compra a saída desse buraco. Por isso Reeves defende que o olhar interseccional, geralmente dirigido às mulheres negras, também seja apontado para eles — sem isso, nenhuma política pública acerta o alvo.
A outra fratura é de classe. As chamadas mortes por desespero — suicídio, overdose, doenças ligadas ao álcool — são quase três vezes mais frequentes entre homens do que entre mulheres no mundo todo, e se concentram pesadamente nos menos escolarizados. Enquanto a diferença salarial entre os gêneros encolhia, a distância entre ricos e o restante da população disparava.
Reeves usa uma imagem da biologia do desenvolvimento para explicar por que a pobreza bate mais forte nos meninos. Algumas crianças são dentes-de-leão: brotam em qualquer terreno. Outras são orquídeas: florescem lindamente em ambiente bom e murcham depressa em ambiente ruim. Meninos, em média, são mais orquídea. Bairro perigoso, escola fraca, casa instável — tudo isso os derruba mais do que derruba as meninas.
Daí nasce um ciclo que se morde pela cauda. Homens da classe trabalhadora não conseguem firmar renda, as famílias empobrecem, os meninos dessas famílias são os que mais sofrem com a instabilidade, e crescem prontos para repetir a história do pai. Reduzir desigualdade econômica sem olhar para esses garotos é tentar secar o chão com a torneira aberta.
Aqui vem a parte que incomoda quem trabalha com políticas sociais. Em Kalamazoo, Michigan, um programa filantrópico passou a pagar a faculdade de quem terminasse o ensino médio na rede pública. A conclusão de curso superior entre as mulheres subiu 45%. Entre os homens, o efeito foi zero. Nenhum.
E não é caso isolado. Programas de mentoria, subsídio salarial, incentivo à formação — vários mostram o mesmo padrão: funcionam bem para elas, não movem a agulha para eles. Os pesquisadores chamam esses garotos de não-respondedores, o que é mais uma descrição do que uma explicação. Reeves aposta numa lacuna de aspiração: as jovens parecem chegar com mais foco no futuro e mais disposição de insistir; muitos rapazes chegam desorientados.
A lição prática é desconfortável e barata de aplicar. Programa neutro em gênero não é automaticamente eficaz para os dois lados. Separar os resultados por sexo antes de comemorar deveria ser rotina. Continuar financiando por décadas iniciativas que falham com metade do público não é generosidade — é desperdício.
Existe diferença biológica entre homens e mulheres. Agressividade, propensão ao risco e desejo sexual se distribuem de forma desigual, com peso da testosterona. Não são categorias estanques: as curvas se sobrepõem bastante. Mas fingir que não existem atrapalha tanto quanto exagerá-las.
A esquerda, diz Reeves, erra pelo primeiro caminho. Em 2018, as diretrizes da Associação Americana de Psicologia trataram a masculinidade tradicional como algo basicamente nocivo, ligando-a a estoicismo e dominância, sem reconhecer qualquer raiz biológica. O rótulo "masculinidade tóxica" virou guarda-chuva para quase tudo. É o mesmo campo político que explica problemas sociais por estrutura — exceto quando o problema é masculino, aí a culpa vira individual.
A direita erra pelo caminho oposto: vê a dor e vende ressentimento. O senador Josh Hawley afirma que a esquerda quer construir um mundo onde os homens sobrem, e não apresenta nenhuma medida material que mude a vida de alguém. Jordan Peterson chegou a buscar no sistema nervoso das lagostas a prova de que hierarquias humanas seriam naturais e imutáveis. O remédio que esse lado oferece é nostalgia: voltar aos papéis dos anos 1950. Um analgésico para quem precisa de tratamento.
Se o problema é estrutural, a resposta também precisa ser. Reeves começa pela escola, com uma proposta que soa estranha e é logicamente simples: matricular os meninos um ano depois das meninas. Dar ao cérebro deles o tempo que ele leva para chegar. Hoje os meninos têm três vezes mais chance de serem expulsos e o dobro de chance de serem suspensos — números de quem está sendo medido antes de estar pronto.
A segunda frente é contratar homens para dar aula. A fatia masculina entre professores da educação básica americana caiu para apenas 24%, e é ainda menor nos primeiros anos e em disciplinas de leitura e escrita, justamente onde os garotos mais patinam. A presença de professores homens melhora o desempenho deles de forma mensurável.
A terceira é devolver dignidade ao ensino técnico. O sistema atual trata a faculdade como único destino legítimo e abandona quem aprende fazendo. Reeves propõe um subsídio federal de cinco mil dólares por aluno para expandir a rede e criar mil novas escolas técnicas de qualidade. Onde esse ensino é bom, o salário dos rapazes sobe de verdade.
O mercado já indicou para onde vai. As áreas de saúde, educação, administração e letramento — aquilo que Reeves agrupa sob a sigla HEAL — devem concentrar a maioria esmagadora das vagas novas, criando cerca de três postos de cuidado para cada posto novo em tecnologia e engenharia. E os homens estão quase ausentes: são meros 3% dos professores de creche e educação infantil.
A proposta é copiar o que funcionou no sentido inverso. Durante trinta anos, campanhas e bolsas levaram meninas para as ciências exatas. Reeves quer um bilhão de dólares na próxima década em bolsas e marketing social para normalizar o homem enfermeiro, o homem professor de crianças pequenas, o homem terapeuta. Ganha ele, que encontra carreira estável; ganha o setor, que vive em falta de gente; ganham os pacientes e alunos homens, que muitas vezes preferem ser atendidos por alguém parecido com eles.
O mesmo vale dentro de casa. O autor defende seis meses de licença parental individual e intransferível — ou o pai usa, ou a família perde o benefício — para fincar o envolvimento logo nos primeiros meses. Defende também reformar a pensão alimentícia, que hoje reduz o pai pobre e solteiro a uma fonte de depósito mensal, sem integrar convivência e guarda. E cobrar flexibilidade das carreiras devoradoras, como direito e finanças, que exigem presença total justo quando os filhos são pequenos e empurram as mães para fora da corrida.
Cuidar dos meninos não rouba ar da luta das mulheres — é o passo seguinte dela. O feminismo libertou metade da humanidade de um papel antigo; falta libertar a outra metade. Atrasar a largada escolar, colocar homens para ensinar e cuidar, tratar o pai como presença e não como boleto: tudo isso cabe no mesmo projeto igualitário. O mundo mudou de lugar. A masculinidade ainda pode mudar com ele.
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