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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
A pergunta parece de ficção científica, mas já tem gente levantando capital de risco pra respondê-la. Dá pra baixar a temperatura do planeta de propósito? A resposta curta é que a natureza já fez isso, em escala, na frente de todo mundo. A resposta longa é que fazer isso é mais complicado e perigoso do que parece.
Em 15 de junho de 1991, o Monte Pinatubo, nas Filipinas, teve a segunda maior erupção do século. Jogou cerca de dezessete milhões de toneladas de dióxido de enxofre na estratosfera, a camada onde os aviões voam. Lá em cima, o enxofre virou uma névoa de partículas minúsculas e refletivas, os aerossóis. Em poucas semanas essa névoa deu a volta no globo. Funcionou como um guarda-sol: parte da luz do Sol bateu nela e voltou pro espaço antes de chegar ao chão. O efeito foi medido. A temperatura média da Terra caiu cerca de meio grau e ficou assim por quase dois anos. Modelos climáticos previram a queda com boa precisão, o que fez do Pinatubo o experimento natural mais citado do debate. A lógica é simples, e é justamente ela que anima investidores: se o vulcão resfriou o mundo por acidente, talvez dê pra fazer o mesmo de propósito. O detalhe é que, no mesmo período, a concentração de ozônio em latitudes médias caiu pros níveis mais baixos já registrados.
Enquanto a ideia amadurece nos laboratórios, o motivo dela fica cada vez mais visível na rua. A Europa passou os últimos dias debaixo de uma onda de calor que bateu recordes fora de época. Na Espanha, o Instituto de Saúde Carlos III contabilizou mais de mil mortes ligadas ao calor, mais que o dobro das pouco mais de quatrocentas do mesmo período de 2025. Nos Países Baixos, foram cerca de quatrocentas e oitenta mortes adicionais em uma única semana, concentradas em quem tem oitenta anos ou mais. A França teve, em 30 de junho, o dia de junho mais quente da sua série histórica. Não é um verão fora da curva por acaso. O serviço climático europeu Copernicus classifica a Europa como o continente que esquenta mais rápido, duas a três vezes acima da média global. Um ano antes, o episódio de junho de 2025 já tinha deixado cerca de duas mil e trezentas mortes em dez dias, segundo estudo do Imperial College e da London School of Hygiene, das quais mil e quinhentas atribuídas diretamente ao aquecimento causado por gente. É esse tipo de conta que tira a ideia de um termostato planetário da margem e coloca na pauta.
Tem ainda um acelerador dentro do oceano. O El Niño é o nome da fase quente de um ciclo natural do Pacífico, quando as águas equatoriais aquecem acima da média e bagunçam chuvas e ventos no mundo todo. A agência americana NOAA estima entre sessenta e sessenta e três por cento de chance de um El Niño forte até o fim de 2026, possivelmente entre os mais intensos já medidos. A Organização Meteorológica Mundial projeta anomalias acima de dois graus nas áreas que monitora. O oceano guarda calor e o devolve devagar, então o pico do fenômeno costuma empurrar as temperaturas do ano seguinte pra cima. E aqui está o ponto que os cientistas fazem questão de repetir: com os mares mais quentes, não é preciso um El Niño forte pra que os estragos sejam grandes. O aquecimento de fundo potencializa qualquer versão do fenômeno. A linha de base subiu, e continua subindo.
Foi nesse cenário que a geoengenharia solar deixou de ser só assunto de universidade. Fundada em 2023, a Stardust Solutions, sediada entre Israel e os Estados Unidos e tocada pelo físico Yanai Yedvab, captou sessenta milhões de dólares em outubro de 2025, a maior rodada já feita por uma empresa do ramo, e chegou a setenta e cinco milhões no total. A companhia diz ter criado uma partícula refletiva própria, que seria inerte e segura, capaz de bloquear entre um e dois por cento da luz solar. Não revela do que ela é feita, quer patenteá-la e planeja começar testes ao ar livre a partir de abril de 2026, liberando o material dentro de jatos modificados a dezoito quilômetros de altitude. A meta declarada é ter capacidade de implantação até 2030. Não está sozinha. A americana Make Sunsets já soltou mais de duzentos balões com dióxido de enxofre sobre Estados Unidos e México e vende o que chama de créditos de resfriamento. Depois de um desses lançamentos, o México proibiu a prática em seu território.
O estranho é que a barreira não é técnica nem financeira. Lançar aerossóis na estratosfera é barato e, no papel, simples. Um economista do clima resume o problema como o de um lobo solitário: um único país, ou até uma empresa, poderia fazer isso sozinho, mas é que ninguém combinou as regras. Não existe tratado internacional sobre o assunto, e a maioria dos governos não tem sequer uma linha de lei a respeito. A versão mais estudada da técnica usa partículas de sulfato, o mesmo do vulcão, que danificam a camada de ozônio e podem virar chuva ácida. A partícula da Stardust seria diferente, mas como a empresa não diz qual é, nenhum cientista independente consegue avaliar se a promessa se sustenta. E há o problema da mira. Como resume o professor James Dyke, da Universidade de Exeter, o resfriamento até viria, cerca de meio grau, só que muito desigual, com chuvas imprevisíveis e eventos extremos em regiões diferentes. Até hoje só houve testes minúsculos. Sair deles pra uma operação de verdade exigiria voos contínuos por décadas.
Os riscos maiores aparecem quando se pensa em parar. É o chamado choque de término: se o mundo passa a depender dos aerossóis e a aplicação é interrompida, todo o calor represado volta de uma vez, mais rápido do que viria sem a técnica. Há também o que o guarda-sol não faz. Ele reflete luz, mas não tira o CO2 do ar. O oceano segue absorvendo cerca de um quarto de tudo que a gente emite, e segue ficando mais ácido, o que castiga a vida marinha independentemente da temperatura. Por cima disso, existe o risco político conhecido como risco moral: a existência de um plano B pode virar desculpa pra adiar o que realmente importa, que é cortar emissões. Vale registrar que o argumento é disputado. Experimentos de comunicação conduzidos pelo economista Gernot Wagner sugerem que descrições sóbrias da geoengenharia não fazem as pessoas relaxarem no combate às emissões, só as mais alarmistas. E sobra a pergunta geopolítica mais espinhosa de todas: quem controla o termostato do planeta? Como o efeito seria desigual, países como Paquistão e Fiji já se posicionaram contra em fóruns da ONU, enxergando mais risco que benefício.
A resposta honesta é que o guarda-sol trata o sintoma, não a causa. O que baixa a febre de forma duradoura é reduzir a queima de combustíveis fósseis e, em paralelo, retirar carbono da atmosfera, caminho que também alivia a acidez dos mares e reúne bem mais consenso científico. Entre os pesquisadores, até os que defendem estudar a geoengenharia repetem a mesma condição: ela só faria sentido como ponte de emergência, nunca como substituta, e jamais como desculpa pra pisar no freio da descarbonização. Então dá pra responder ao título. Nós temos, sim, uma tecnologia capaz de abaixar o termostato. Não temos ainda a prova de que ela é segura na dose que resolveria o problema. E não temos as regras pra usá-la sem criar perigos novos. O truque do vulcão existe. Falta a parte difícil, que é a mesma de sempre.
Pra quem toma decisão ou investe: trate a geoengenharia solar como categoria de risco, não como solução pronta. O gargalo é governança e confiança, não engenharia, e é aí que uma aposta pode azedar.
Pra quem quer acompanhar o debate: a pergunta certa não é "funciona?", e sim "quem decide, com que regras e com qual partícula?". Sem resposta a isso, qualquer teste ao ar livre vira notícia por outro motivo.
Pra quem só quer entender o tamanho da coisa: a saída conhecida continua sendo a mesma, cortar emissões, e ela não depende de nenhuma tecnologia que ainda não existe.
O Pinatubo mostrou que dá pra esfriar o mundo. Não mostrou como fazer isso de propósito, na medida certa e sem efeito colateral. Essa é a distância entre uma erupção e uma política pública. Enquanto ela não é vencida, o calor da Europa e o oceano mais quente seguem sendo o lembrete de que o problema não espera.
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