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ISBN: 978-0-2976-0890-5
Editora: Weidenfeld & Nicolson
Imagine entrar numa sala de tribunal sabendo que cada palavra que você disser será dissecada por advogados, jornalistas e torcedores furiosos. Você é um jogador de futebol, não um réu. Mas escreveu um livro, contou uma verdade que doeu, e agora a federação quer te crucificar por uma frase específica sobre uma jogada antiga contra Alfie Håland. Seu advogado, Jim Sturman, tenta blindar você. A imprensa transforma cada respiração em manchete. E lá fora, o vestiário do clube mais famoso do mundo continua girando sem te esperar.
Esse é o ponto de partida de Roy Keane no segundo capítulo da própria vida. Ele já foi o capitão mais temido do Manchester United, o homem que olhava nos olhos de Patrick Vieira no túnel de Highbury e não piscava. Agora precisa descobrir quem ele é quando o corpo falha, quando os garotos novos chegam, quando o microfone vira armadilha e quando o banco de reservas substitui o gramado.
O que vem a seguir é um relato cru sobre raiva, lealdade e o preço de ser implacável. Sobre o que acontece quando a fúria que te fez campeão começa a te sabotar nos escritórios. E sobre como se aprende, tarde e doendo, a recuar um passo sem perder o amor pelo jogo.
Keane abre o livro no banco dos réus. A federação inglesa decidiu puni-lo retroativamente por um trecho da autobiografia anterior, onde ele falava da entrada em Alfie Håland. A mídia já tinha julgado: foi premeditado, foi vingança, foi crime. O advogado Jim Sturman tenta explicar a diferença entre uma jogada dura e um atentado planejado, mas o roteiro já estava escrito antes de qualquer audiência.
O que Keane sente ali não é arrependimento, é injustiça. Ele jogou anos no centro do campo sabendo que sobreviver exigia agressividade. Toda dividida carregava risco. Transformar uma frase de livro em prova de dolo era ignorar como o esporte funciona por dentro. Eamon Dunphy, que o ajudou a escrever, vira alvo junto. E Keane percebe, talvez pela primeira vez com clareza, que o futebol moderno é uma máquina corporativa que precisa de vilões para vender narrativa.
A punição vem. Ele aceita, amargo. Mas a lição que fica é outra: a linha entre a agressão necessária e a agressão criminalizada não é desenhada em campo, é desenhada por quem controla o microfone.
De volta ao vestiário do Manchester United, Keane olha em volta e vê meninos. Cristiano Ronaldo chegou cheio de truques e cabelo arrumado. Wayne Rooney é puro instinto. E ele, capitão, percebe que o próprio corpo começa a falhar nos detalhes que ninguém vê: a recuperação que demora mais um dia, o joelho que avisa antes do treino, o sprint que não responde.
A convivência é intensa. Há discussões, há atritos físicos com colegas, há momentos em que ele precisa lembrar a todos que vestir aquela camisa exige um padrão inegociável. Alguns estrangeiros chegam e não aguentam a pressão. Outros, como Ronaldo, absorvem tudo e crescem.
Keane sente uma melancolia silenciosa. Não é inveja dos novos. É a consciência de que o relógio da carreira é cruel. A liderança ainda é dele, mas o protagonismo está mudando de mãos. E ninguém o avisou que envelhecer dentro do gigante europeu seria essa mistura de orgulho pelos meninos e luto antecipado por si mesmo.
Highbury, túnel estreito, ar pesado. Patrick Vieira encara, provoca, e Keane responde no mesmo tom. Aquele momento virou símbolo: dois capitães entendendo que proteger o time começava antes da bola rolar. A rivalidade com o Arsenal não era só esportiva, era territorial. Era sobre quem mandava na cabeça do outro.
Enquanto isso, fora de campo, Keane tentava enganar o tempo. Adotou dietas radicais durante viagens internacionais, cortou carboidratos em excesso, experimentou regimes que prometiam prolongar a vitalidade. O resultado foi o oposto: chegou em campo enfraquecido, sem energia para sustentar o ritmo que o cargo de capitão exigia. O corpo, que sempre foi sua ferramenta mais confiável, começou a entregar contas atrasadas.
Voltar à seleção da Irlanda depois da turbulência política foi outro nó. Havia negócios inacabados, ressentimentos, mas também a sensação de que liderar uma equipe nacional carregava um peso diferente, mais pessoal. Ele aceitou. E descobriu que ser capitão, em qualquer escudo, era exaustivo de um jeito que ninguém treina para suportar.
A ruptura não veio num grande gesto. Veio numa pré-temporada confusa, com desentendimentos sobre organização, e cresceu até estourar numa entrevista para o MUTV, o canal interno do clube. Keane criticou colegas, criticou desempenho, falou o que pensava como sempre falou. Só que dessa vez o vídeo foi engavetado pela diretoria, considerado explosivo demais.
O choque com Carlos Queiroz, então auxiliar técnico, foi o estopim. Dois egos, duas visões de comando, nenhum espaço para meio-termo. Alex Ferguson precisou escolher um lado, e escolheu o staff. Doze anos de dedicação total ao Manchester United terminaram em poucos dias, no meio de uma conversa que parecia administrativa mas era uma demissão silenciosa.
Keane sai com a sensação dupla de quem perde uma casa e respira fundo ao mesmo tempo. Reconhece, anos depois, que o tom hostil veio dos dois lados. Que ele poderia ter recuado, que o clube poderia ter conversado. Mas naquele momento, o botão de autodestruição já estava apertado. E quem aperta esse botão raramente consegue desativá-lo no meio do caminho.
O telefone tocou com proposta do Real Madrid. Emilio Butragueño do outro lado, oferecendo a chance de fechar a carreira no maior clube espanhol. Keane recusou. Não por orgulho, por medo. Medo do desconhecido, do idioma, de chegar a Madrid já com o corpo gritando e não conseguir entregar o que aquela camisa exigia.
Escolheu o Celtic, na Escócia. Gordon Strachan o recebeu, e por algumas semanas pareceu que havia gás para mais um capítulo. Mas o quadril, diagnosticado havia tempos por Richard Villar, começou a cobrar pedágio em cada sessão de treino. Keane passou a depender de analgésicos pesados só para conseguir aquecer. Jogava medicado, treinava medicado, dormia mal.
A epifania chegou num quarto de hotel, sozinho, encarando o teto. Não era mais sobre vontade. A vontade continuava intacta, faminta. Era o corpo que tinha dito basta. Anunciar a aposentadoria foi quase um alívio administrativo, mas a despedida em campo, sabendo que mal podia contribuir, foi humilhação misturada com orgulho. Acabou ali a vida de jogador.
Sem treino, sem vestiário, sem briga por título, Keane caiu no abismo que ex-atletas conhecem bem. Quem é você quando para de ser jogador? Ele recusava jantares de saudosismo, evitava reencontros nostálgicos, fugia de qualquer ritual que cheirasse a passado. Precisava de algo presente, vivo, urgente.
A salvação veio do Sunderland. Niall Quinn, à frente do Drumaville Consortium, ofereceu o cargo de treinador principal num clube em crise na segunda divisão. Keane aceitou quase por instinto. Fez cursos obrigatórios, mergulhou na burocracia, descobriu que ser técnico era ser gerente, psicólogo, comprador, porta-voz e bombeiro ao mesmo tempo.
A surpresa maior foi descobrir que comandar atletas significava lidar com crises pessoais, problemas familiares, indisciplina fora de campo. Ele recrutou Dwight Yorke, conhecido de tempos de United, e usou a aura de ex-capitão para convencer outros nomes a apostarem no projeto. A energia do vestiário mudou. A equipe virou. A promoção veio. E Keane sentiu, pela primeira vez desde a aposentadoria, que o sangue circulava de novo.
A festa da promoção durou pouco. A Premier League é outra selva. Orçamentos gigantescos, exposição máxima, margem zero para erro. Keane percebeu rápido que precisava reforçar o elenco, e foi onde cometeu o erro que ele próprio reconhece com franqueza brutal: superestimou os jogadores que tinha e contratou nomes incompatíveis com a cultura do clube.
Trouxe atletas caros que não rendiam, apostou em perfis que não se encaixavam na intensidade que ele exigia. A janela de verão virou armadilha. Cada derrota expunha mais uma contratação equivocada, e a paciência interna evaporou. Ele mesmo, anos depois, escreve sobre isso sem disfarce: foi impaciente, elevou expectativas rápido demais, exigiu de um time recém-promovido um padrão irreal.
A chegada de Ellis Short como novo proprietário investidor mudou o jogo de novo. As reuniões viraram negociações comerciais frias. Michael Kennedy, advogado de Keane, intermediava conversas que antes eram diretas. Detalhes extracampo, como onde Keane morava, foram usados para questionar seu comprometimento. Kieran Richardson e outros nomes do elenco já não respondiam como antes. O Stadium of Light, antes santuário, virou ringue.
A quebra de confiança com a diretoria foi definitiva, e Keane assume a parcela dele. Os ataques de raiva, as respostas explosivas em coletiva, a recusa em jogar o jogo político dos bastidores — tudo isso acelerou a saída. Ele não foi vítima pura. Foi cúmplice da própria demissão.
Em Ipswich Town veio a tentativa seguinte. Marcus Evans, o proprietário, e Simon Clegg, o executivo, formavam uma estrutura que Keane nunca conseguiu decifrar. Treinador, executivo e dono raramente sentavam juntos. As decisões circulavam por canais paralelos. A solidão estrutural começou no primeiro dia.
Tentando criar espírito de equipe num elenco apático, Keane levou os jogadores para treinar com o 7th Parachute Regiment. Acampamento militar, disciplina extrema, exercícios de resistência. A ideia era forjar mentalidade. O efeito foi quase nulo. Em campo, o time continuou apático, os reforços contratados não engrenaram, e líderes de vestiário que poderiam ter ajudado foram afastados por decisões dele mesmo que, hoje, ele reconhece como erradas.
Faltou delegar. Faltou ouvir auxiliares. Faltou aceitar que a metodologia que funcionava no Sunderland recém-promovido não cabia naquele contexto. E quando ele ainda planejava ajustes de longo prazo, a demissão chegou por telefone. Curta, seca, sem reunião. A lição doeu mais que a saída: gerenciar para cima, alinhar com diretoria, escolher batalhas — nada disso era opcional, e ele tinha tratado tudo como detalhe.
Sem clube, Keane aceitou trabalhos como comentarista de televisão. Pagavam bem, davam visibilidade, mantinham o nome em circulação. Mas ele odiou. Odiou a superficialidade das análises de 30 segundos, a obrigação de gerar polêmica para preencher bloco, a sensação de estar comentando uma festa da qual tinha sido expulso.
Em eventos de caridade no exterior, observou ex-atletas dedicados a causas sociais e se comparou com honestidade. Reconheceu o próprio estilo de vida menos engajado, admirou outros, sem fingir que era santo. A mídia esportiva moderna o cansava. As perguntas eram sempre as mesmas, as respostas precisavam caber em manchete, e o espaço para nuance simplesmente não existia.
O vazio existencial bateu. Ele queria sentir cheiro de vestiário, escutar discussão tática, ver gente xingando árbitro no túnel. Comentar de longe era assistir à vida acontecer pelo vidro. E Keane, definitivamente, não foi feito para o vidro.
Quando Martin O'Neill ligou convidando para ser assistente na seleção da Irlanda, foi como acender a luz num quarto escuro. Keane aceitou de imediato. Trabalhar nas sombras, sem o peso do protagonismo, focando no que sempre amou — preparar jogador, ler partida, conversar olho no olho.
Tentou conciliar com função semelhante no Aston Villa, ao lado de Paul Lambert. Não deu. A divisão de tempo prejudicava entrega e família. Escolheu a seleção. E ali, observando O'Neill comandar, conversando com nomes como Marcel Desailly em eventos internacionais, ele redescobriu a alegria de pertencer sem precisar mandar.
A função de assistente o curou de coisas que ele nem sabia que precisavam de cura. Os excessos da nova geração de jogadores o irritavam, claro. Mas agora ele podia opinar, sugerir, brigar internamente, sem carregar sozinho o peso de toda decisão. Aprender ao lado de um treinador sênior virou prazer, não rebaixamento. E a classificação da Irlanda para um grande torneio europeu chegou como confirmação de que aquele lugar fazia sentido.
A jornada de Roy Keane mostra que a mesma fúria capaz de fazer um capitão dominar o centro do campo é a que destrói pontes nos escritórios. Aceitar a posição de assistente foi reconhecer um limite sem trair a essência. Às vezes recuar um passo é o gesto mais lúcido para continuar amando o jogo — e para parar de apertar, sem querer, o próprio botão de autodestruição.
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Roddy Doyle é um romancista, dramaturgo e roteirista irlandês que ganhou o Booker Prize em 1993, mesmo ano em que deixou a carreira de professor de inglês e geografia para se dedicar integralmente à escrita. Formado e... (Leia mais)
Roy Keane é um dos mais respeitados nomes do futebol inglês, tendo atuado por 18 anos em clubes como Nottingham Forest, Manchester United e Celtic. Capitão do Manchester United de 1997 até 2005, também representou a República da Irlanda por mais de 14 anos, majoritariamente como cap... (Leia mais)
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