Travar sob pressão - Resenha crítica - 12min Originals
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Travar sob pressão - resenha crítica

Gestão & Liderança, Esportes, translation missing: br.categories_name.modo_copa e translation missing: br.categories_name.radar-12min

Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

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ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

No fim da tarde de doze de julho de 1998, a escalação do Brasil para a final da Copa do Mundo foi distribuída à imprensa sem o nome de Ronaldo. Minutos depois, uma segunda folha corrigiu a primeira. O nome estava de volta. Entre uma versão e outra, alguma coisa tinha acontecido nos bastidores que demoraria anos para ser contada com calma, e que ainda hoje desperta mais teoria da conspiração do que reflexão séria.

O que se sabe, e que o próprio jogador já narrou em detalhe, é que horas antes da decisão ele teve uma convulsão no quarto onde se concentrava. Durou cerca de quarenta segundos. Roberto Carlos, que dividia o quarto com ele, chamou socorro. Edmundo, o atacante que entraria em seu lugar, saiu aos gritos pelo corredor. Os médicos da seleção primeiro vetaram a escalação, depois a liberaram, após exames que não encontraram causa nenhuma. Ronaldo entrou em campo e jogou os noventa minutos parecendo ausente, com a cabeça em outro lugar. O Brasil perdeu por três a zero.

A conclusão desleixada e mais simples é a do complô: pressão de patrocinador, ordem para escalar um jogador debilitado, jogo entregue. A leitura mais interessante, e bem mais útil, é outra. O que aconteceu naquele vestiário é o exemplo mais nítido que o futebol já nos deu de como a pressão psicológica desmonta um grupo de altíssima performance em poucas horas. Não pelo cansaço físico. Pela forma como a atenção de todos saiu da tarefa e migrou para a sobrevivência emocional.

a final que se decidiu na atenção

Vinte e cinco anos antes daquela noite, um instrutor de tênis chamado Timothy Gallwey tinha publicado um livro pequeno que mudaria a forma como pensamos desempenho sob pressão. A tese de "O Jogo Interior do Tênis" é simples de enunciar e difícil de aceitar: todo jogo é disputado em dois lugares ao mesmo tempo. Há o jogo exterior, contra o adversário, com obstáculos visíveis, a bola, a rede, o placar. E há o jogo interior, que acontece dentro da cabeça do jogador, e cujos adversários são o nervosismo, a insegurança, a autocrítica e a voz que não para de comentar cada erro.

Gallwey deu nome às duas partes que disputam esse jogo interno. O Eu 1 é o narrador ansioso, o que julga, antecipa, cobra e duvida. O Eu 2 é o corpo treinado, a competência que já está lá, que sabe executar sem precisar de instrução no instante exato. Em condições normais, o Eu 2 conduz. Sob pressão alta, o Eu 1 toma o microfone e começa a dar ordens a um corpo que sabia perfeitamente o que fazer até ser interrompido. É aí que o atleta trava. Não por falta de talento. Por excesso de vigilância sobre o próprio talento.

Foi o que se viu naquele dia, e não só em Ronaldo. Um time inteiro entrou em campo com a atenção sequestrada pelo que tinha acabado de acontecer com o seu principal pilar. Do outro lado, segundo relatos dos próprios franceses anos depois, a postura foi quase clínica: ignorar o drama do adversário e manter o foco apenas na própria tarefa. Enquanto um grupo gastava energia tentando entender o que sentia, o outro simplesmente jogava. Boa parte da diferença no placar nasceu antes do apito inicial.

o vestiário é em todo lugar

A tentação é tratar isso como história de futebol, mas o mecanismo não tem nada de esportivo. Ele aparece na reunião em que se vai apresentar o número do trimestre e a voz some. Aparece na prova para a qual a pessoa estudou meses e que "branqueia" logo na primeira questão. Aparece na negociação decisiva, no discurso de casamento, na entrevista que valia a vaga. Em todos esses casos a competência estava lá. O que faltou foi deixá-la trabalhar sem interferência.

Gallwey observou que o Eu 1 se alimenta de duas coisas: a importância do momento e o medo do julgamento alheio. Não por acaso, ninguém trava ensaiando sozinho em casa. Trava-se quando há plateia, quando o resultado pesa, quando errar tem consequência pública. A final de 1998 reunia as duas condições em grau máximo. Setenta e cinco mil pessoas no estádio, mais de um bilhão diante da televisão, e o peso de um país que se sentia dono do título antes mesmo de disputá-lo. Para o Eu 1, era o ambiente perfeito.

A parte que faz o livro envelhecer bem é a saída que ele propõe, quase contraintuitiva. O Eu 1 não se combate de frente. Quanto mais a pessoa tenta "se concentrar" e "não ficar nervosa", mais reforça a vigilância que a trava, porque continua falando consigo mesma sobre o problema. Gallwey sugere o contrário: devolver a atenção para algo concreto e neutro, a bola, a respiração, o próximo gesto, e confiar que o corpo treinado faz o resto. Não é silenciar o narrador no grito. É dar ao corpo uma tarefa simples demais para sobrar espaço ao comentário.

o que fazer com essa informação

Para quem lidera equipes: o episódio de 1998 mostra que o ponto mais frágil de um grupo de alta performance nem sempre é o elo mais fraco, muitas vezes é o mais central. Quando o pilar emocional do time cambaleia, todos param de jogar e começam a sentir. Nessas horas, vale menos discursar sobre garra e mais redirecionar a atenção coletiva para a tarefa imediata, a próxima jogada, não o tamanho do que está em jogo.

Para quem performa sozinho sob holofote, em apresentações, provas ou negociações: o inimigo não costuma ser a falta de preparo, é a vigilância sobre o preparo no momento errado. Treine à exaustão antes e, na hora decisiva, entregue ao corpo uma âncora concreta para segurar a atenção. O preparo é trabalho do Eu 2. Atrapalhar é especialidade do Eu 1.

Para quem acompanha alguém em momento de pressão: a pior coisa a oferecer é o lembrete do tamanho da ocasião. Quem cuida ajuda mais baixando a temperatura do que aumentando a importância. Foi o que faltou, talvez, num vestiário em choque.

Ronaldo voltaria a uma final quatro anos depois e a venceria, dessa vez com a cabeça inteira dentro do jogo. A reviravolta interessa menos pelo troféu e mais pelo que sugere: travar sob pressão não é defeito de caráter nem sentença definitiva. É um estado, e estados passam.

A final de 1998 segue sendo contada como mistério médico ou como conspiração. É mais honesto contá-la como uma aula sobre a fragilidade da atenção humana quando tudo importa ao mesmo tempo. O adversário mais difícil daquela noite não vestia azul. Estava dentro da própria cabeça, e ele aparece para qualquer um, em qualquer vestiário, sempre que o momento parece grande demais para falhar.

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