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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
Donald Trump pousou em Pequim na noite desta quarta-feira, treze de maio, recebido na pista por uma banda marcial, bandeirinhas vermelhas e o vice-presidente chinês Han Zheng. É a primeira vez que um presidente americano em exercício pisa em solo chinês desde dois mil e dezessete… quando o próprio Trump, no primeiro mandato, fez a mesma viagem. Quase uma década depois, ele volta. E volta com um séquito que diz muito mais do que qualquer discurso oficial.
Olhe a lista de quem desceu do Air Force One e você já adivinha a pauta da reunião. Elon Musk, dono da Tesla… que tem fábrica gigante em Xangai e depende do mercado chinês para manter sua escala. Tim Cook, da Apple… cuja cadeia de produção vive na China e está fazendo provavelmente sua última missão diplomática antes de se aposentar em setembro. Jensen Huang, da Nvidia… que identificou no mercado chinês de chips de inteligência artificial uma oportunidade de cinquenta bilhões de dólares. Larry Fink, da BlackRock… que administra trilhões e quer acesso mais amplo ao mercado financeiro chinês. Executivos da Boeing, esperando fechar a primeira grande encomenda chinesa em anos. Da Qualcomm e da Micron, concorrentes da Nvidia no setor de chips. Da Cargill, gigante do agronegócio. Do Goldman Sachs e do Citigroup, com olho em Wall Street operando dentro de Pequim.
A entrada de Huang, aliás, virou um pequeno drama em três atos. A Casa Branca o deixou de fora da lista inicial. Quando a imprensa começou a apontar a ausência como sinal de que a Nvidia estaria sendo desconvidada do diálogo… Trump ligou pessoalmente para o executivo e pediu que ele embarcasse. Huang voou até o Alasca, subiu no avião presidencial numa parada para reabastecer em Anchorage e seguiu para Pequim. A ala republicana mais dura com a China encara a venda de chips avançados a Pequim como risco de segurança nacional. Trump, no meio, parece querer as duas coisas ao mesmo tempo. Vender mais para a China… e manter a retórica firme com a China. A foto de Huang descendo a escada do avião ao lado de Musk traduz visualmente esse equilíbrio difícil.
A agenda oficial da reunião, marcada para quatorze e quinze de maio, tem peso. Comércio. Tarifas. Taiwan. Inteligência artificial. Terras raras. E, atravessando tudo, como uma sombra incômoda, a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, que entra no seu segundo mês e mantém o Estreito de Ormuz praticamente paralisado.
No comércio, a situação atual é uma trégua frágil. Em outubro do ano passado, depois de uma escalada que levou tarifas americanas sobre produtos chineses a cento e quarenta e cinco por cento e tarifas chinesas sobre produtos americanos a cento e vinte e cinco por cento, os dois lados recuaram. Hoje, os Estados Unidos cobram cerca de cinquenta e sete por cento. A China voltou a comprar soja americana e afrouxou parte dos controles sobre terras raras. Trump quer ampliar isso. Quer anunciar, ainda em Pequim, compras chinesas de aviões da Boeing, de carne, de produtos agrícolas. Quer um número grande para mostrar em casa. A China, por outro lado, quer redução de tarifas e menos restrições à venda de tecnologia americana avançada. É um jogo de troca onde ninguém quer parecer o lado que cedeu mais.
Em Taiwan, o terreno é mais delicado. Pequim considera a ilha parte do seu território e Xi Jinping disse recentemente a Trump, em conversa telefônica, que o retorno de Taiwan à China é parte da ordem internacional do pós-guerra. Trump colocou na mesa um pacote de venda de armas para Taipé, no valor aproximado de catorze bilhões de dólares, aprovado pelo Congresso americano mas ainda dependente da sua assinatura final. O temor em Taipé é virar moeda de troca. O temor em Washington é abrir um precedente perigoso. Qualquer movimento aqui, em qualquer direção, será lido como sinal por aliados em toda a Ásia.
Nas terras raras, a equação é quase aritmética. A China controla aproximadamente noventa por cento do refino mundial e cerca de noventa por cento da produção global de ímãs permanentes. Sem esses minerais, não se fabrica chip avançado, não se monta carro elétrico, não se produz equipamento militar moderno. Quando Pequim aperta a torneira da exportação, a indústria americana sente. Quando Washington corta o acesso chinês a chips de ponta, Pequim também sente. Uma corda esticada entre os dois, e nenhum dos lados tem como cortá-la sem se machucar.
Sobre a guerra com o Irã, é onde o roteiro fica mais imprevisível. A China é o maior comprador de petróleo iraniano… mais de oitenta por cento das exportações de petróleo do Irã vão para refinarias chinesas. O Estreito de Ormuz, paralisado pelas tensões militares, é a rota por onde passava cerca de vinte por cento de todo o petróleo do mundo. A reabertura interessa aos dois lados. O problema é como dividir o crédito. Os Estados Unidos querem que a China pressione Teerã. A China prefere se apresentar como mediadora neutra. Trump declarou antes de embarcar… eu não acho que precisamos de ajuda com o Irã. Pequim, por sua vez, sabe que a paralisia do estreito desgasta mais a imagem americana no Oriente Médio do que a sua própria.
Existem três cenários no horizonte. No primeiro, a cúpula entrega o que diplomatas chamam de estabilização tática. Anúncios de compras agrícolas, encomenda de aviões da Boeing pela primeira vez em anos, alívio nas restrições sobre terras raras e semicondutores, e um aceno simbólico sobre Taiwan que não compromete ninguém. Esse cenário não resolve nada estrutural, mas adia o atrito. No segundo, o encontro termina sem grandes anúncios, com gestos protocolares… e cada lado volta para casa dizendo que manteve sua dignidade. No terceiro, menos provável mas em circulação nos bastidores, sai um acordo maior… Trump aceita esfriar a venda de armas para Taiwan em troca de uma posição mais firme da China sobre o Irã. Esse cenário seria o de maior impacto geopolítico.
O que a viagem deixa claro, independentemente do desfecho, é que a relação entre Estados Unidos e China deixou de ser apenas uma disputa comercial. Virou um xadrez com vinte tabuleiros simultâneos. Chip. Mineral. Energia. Diplomacia. Tarifa. Cada peça que se move em um tabuleiro mexe nos outros. E os dois jogadores sabem que não conseguem virar a mesa sem derrubar também o próprio jantar.
Para quem investe, separe ruído de sinal. O ruído vai ser intenso… fotos, declarações, jantares de Estado. O sinal está nos detalhes técnicos. Se sair algum afrouxamento concreto sobre exportação de chips avançados para a China, Nvidia, AMD e cadeia de semicondutores tendem a reagir forte. Se sair aceno sobre terras raras, mineradoras australianas, canadenses e americanas podem mexer no sentido oposto. Se houver redução tarifária mútua, commodities agrícolas como soja e milho ganham fôlego imediato.
Para quem trabalha com comércio exterior ou depende de cadeias asiáticas, é hora de mapear exposição. Quais insumos da sua operação dependem de fabricação ou refino chinês. Quais clientes finais estão expostos a tarifas americanas. Se a trégua se estende, há respiro para planejar. Se o encontro termina morno, manter estoques de segurança e fornecedores alternativos fica ainda mais prudente.
Para quem só quer entender o cenário, três perguntas filtram o que vai sair na imprensa. A reunião gerou anúncios concretos ou só fotos. Houve mudança de tom sobre Taiwan ou apenas reafirmação. O Estreito de Ormuz entrou no comunicado final ou ficou de fora. As respostas resumem, sem precisar ler dez análises, qual cenário se materializou.
E quem acompanha tecnologia, preste atenção em Jensen Huang. Sua entrada de última hora no avião não é detalhe protocolar. A inteligência artificial virou vetor diplomático. Onde estão os fabricantes de chip, os mercados e as restrições… ali está, em boa parte, o futuro da geopolítica da próxima década.
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